7.3 Natureza

VETÖ, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.

1. A gênese conceitual da natureza em Schelling tem bases fichteanas. Incapaz de atribuir diretamente ao eu a consciência de si, a Wissenschaftslehre considera a representação das coisas exteriores como obra do não-eu. Ora, não podendo nada existir fora do eu, o não-eu deve encontrar-se no próprio eu.

2. De um ponto de vista metafísico, não é apenas a natureza, mas todo o mundo objetivo, que é produto de uma atividade inconsciente. Ele é — segundo a célebre expressão do Sistema do Idealismo Transcendental — “a poesia primordial, ainda inconsciente do espírito”.

3. Tendo como pano de fundo as mônadas adormecidas de Leibniz, Schelling representa a natureza como o sono da inteligência, sabendo-se pertinentemente que o sono é povoado de sonhos.

4. O aspecto violento do inconsciente será melhor compreendido no contexto da dialética da produtividade e do produto, mas por ora ainda é preciso decifrar a metáfora do sono em referência à história transcendental da natureza como objeto de anamnese.

5. Para o idealismo — Kierkegaard será dele testemunha escandalizada — a anamnese é a chave de todas as inteligibilidades. Ora, o lócus primitivo da reminiscência é a autoconsciência. Mais exatamente, a autoconsciência tendo como pré-história a natureza.

6. Já em seus admiráveis Esclarecimentos sobre o Idealismo da Doutrina da Ciência, Schelling explica que o espírito só vê sua própria história no mundo exterior. Cada planta não é senão “a passagem engolfada da alma (verschlungene Zug)”, um espelho onde o eu lê seu próprio passado.

7. É sob a varinha mágica da dedução genética que a natureza desperta, retoma-se e se restaura em sua continuidade inteligível. O mecanismo dessa restauração deve ser lido na dedução das categorias e forças da natureza, que ergue esse universo da inteligência congelada ao plano de uma verdadeira inteligibilidade.

8. Se a natureza não é senão a pré-história do eu, isso significa que ela é, num plano inferior, o que o eu é segundo um expoente superior, numa potência mais elevada. A natureza só chega a seu termo no eu, mas, se o eu é seu autêntico cume, é porque existe entre eles continuidade metafísica.