VETÖ, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.
1. A gênese conceitual da natureza em Schelling tem bases fichteanas. Incapaz de atribuir diretamente ao eu a consciência de si, a Wissenschaftslehre considera a representação das coisas exteriores como obra do não-eu. Ora, não podendo nada existir fora do eu, o não-eu deve encontrar-se no próprio eu.
sua atividade independente, produtora da representação, é então atividade do próprio eu, mas atividade inconsciente.
Fichte reserva a noção de atividade inconsciente à explicação do funcionamento da subjetividade transcendental, mas é apenas
Schelling quem a tematizará com vistas à construção da natureza
e, na medida em que a natureza é o movimento da atividade inconsciente do próprio eu, não se deverá poder lê-la em termos negativos. A Wissenschaftslehre não vê na natureza senão um inconsciente que é eo ipso estranho: na melhor das hipóteses inércia, na pior oposição violenta
Schelling, por sua vez, não considera a natureza do ponto de vista prático, mas segundo interesse teórico. Não busca um telos para a natureza fora dela mesma, mas deseja compreender como a natureza é, como se constitui no espírito
por isso, saberá fazer-lhe justiça como a um momento necessário e legítimo da própria história da subjetividade transcendental.
Schelling se torna apologeta da natureza na medida em que se recusa a considerá-la em termos de outra coisa que não ela mesma, sendo ao estudá-la em seus próprios termos que saberá situá-la no Todo
2. De um ponto de vista metafísico, não é apenas a natureza, mas todo o mundo objetivo, que é produto de uma atividade inconsciente. Ele é — segundo a célebre expressão do Sistema do Idealismo Transcendental — “a poesia primordial, ainda inconsciente do espírito”.
tudo o que não é mantido sob um olhar genético, tudo o que não pertence à segunda série, não é senão objeto, e o objeto é uma atividade não explícita, uma atividade que se ignora, em suma, uma atividade inconsciente. A natureza é o eu que ainda não é consciente de si, sendo seus momentos produções do eu que o eu, porém, ignora, ou, mais exatamente, ignora como suas próprias produções
em sua origem fichteana, a atividade inconsciente goza da mesma racionalidade, da mesma inteligibilidade que o agir consciente. Obedece a regras estritas, sendo seus produtos perfeitamente racionais
no contexto da especulação schellingiana, porém, a noção transcendental do inconsciente recebe, por assim dizer, nova coloração. Já não é apenas a cifra de uma estrutura a priori, mas conota doravante uma realidade natural e se enriquece de referências ao sono
a natureza não é apenas o oposto do agir puro do eu, o pendant da série ideal. Deve também ser considerada o sono do espírito, em oposição à sua vigília. E a metáfora do sono abre duas pistas: de um lado, conota o vigor da atividade inconsciente; de outro, dá início à temática da anamnese, que conduz a ver na natureza o passado do eu, a integrar a natureza numa história a priori da autoconsciência
3. Tendo como pano de fundo as mônadas adormecidas de Leibniz, Schelling representa a natureza como o sono da inteligência, sabendo-se pertinentemente que o sono é povoado de sonhos.
os sonhos são conteúdos muitas vezes muito ricos, que servem também de premonições ou presságios, ou, de um ponto de vista metafísico, como prefigurações, mas acusam igualmente certa violência
diante de um
Fichte agressivo,
Schelling institui como princípio último das coisas “o instinto, a razão cega”. E efetivamente, o mundo objetivo é constituído por um mecanismo inteiramente cego do espírito, sendo a natureza produto cego do eu
cego assinala aqui ausência de liberdade, de previsão, de reflexão, de domínio de si e do mundo. Ora, “cego” também pode conotar o caráter não livre dos processos da natureza, de uma não liberdade que é coação e que só admite e provoca movimentos violentos, sobressaltos bruscos, tantas convulsões da Natureza, mergulhada “num sono de ferro”
4. O aspecto violento do inconsciente será melhor compreendido no contexto da dialética da produtividade e do produto, mas por ora ainda é preciso decifrar a metáfora do sono em referência à história transcendental da natureza como objeto de anamnese.
as coisas da natureza são produtos do agir de nossa inteligência, mas esse agir é inconsciente: ignora-se, ou, se se quiser, esquece a cada instante sua gênese, seu advento. Enquanto natureza, a inteligência é esquecimento de seu próprio movimento, do qual só lhe restam visíveis os resultados isolados uns dos outros
os objetos do mundo, as coisas e os processos da natureza são monumentos do trajeto que o espírito terá percorrido antes de chegar à plenitude da autoconsciência. A natureza significa a não coincidência do eu consigo mesmo, pontuada por produtos exteriores, coisas visíveis que servem, por assim dizer, para “refrescar a memória transcendental”
e a restituição desses momentos isolados à continuidade transparente de uma série ideal será verdadeira “anamnese platônica”, a retomada do inconsciente no consciente, a reunião da razão com seu passado
5. Para o idealismo — Kierkegaard será dele testemunha escandalizada — a anamnese é a chave de todas as inteligibilidades. Ora, o lócus primitivo da reminiscência é a autoconsciência. Mais exatamente, a autoconsciência tendo como pré-história a natureza.
o objetivo de
Schelling é erigir a velha história natural em verdadeira história da natureza. E nisso conseguirá na medida em que a natureza representa o passado transcendental do homem
6. Já em seus admiráveis Esclarecimentos sobre o Idealismo da Doutrina da Ciência, Schelling explica que o espírito só vê sua própria história no mundo exterior. Cada planta não é senão “a passagem engolfada da alma (verschlungene Zug)”, um espelho onde o eu lê seu próprio passado.
a natureza conserva os anais da razão, mas só a filosofia transcendental saberá decifrá-los segundo suas conexões e sua continuidade. A natureza é “o espírito visível”, mas o espírito na natureza se encontra em condição irracional, fragmentária
a matéria é “inteligência extinta” que, por não ser consciente de si, se encontra bloqueada, adormecida. A Dedução Geral do Processo Físico explica essa intuição em linguagem figurada: “todos os fenômenos são sensações, todos os corpos intuições da natureza, a própria natureza é uma inteligência congelada”
7. É sob a varinha mágica da dedução genética que a natureza desperta, retoma-se e se restaura em sua continuidade inteligível. O mecanismo dessa restauração deve ser lido na dedução das categorias e forças da natureza, que ergue esse universo da inteligência congelada ao plano de uma verdadeira inteligibilidade.
ora, essa inteligibilidade, fruto autêntico da continuação schellingiana do idealismo transcendental, tem imediatamente, e em si mesma, alcance metafísico. Se a teoria a priori da natureza constitui uma história da natureza, é porque a natureza é a primeira parte da história do eu, o Antigo Testamento em relação ao Novo Testamento do eu livre
a teologia e a teosofia cristãs sempre ensinaram que o homem era o cume da criação, no qual a natureza festeja seu cumprimento. Essa visão extrafilosófica coincide com o
fichteísmo heterodoxo do jovem
Schelling, e sobretudo com o sistema da identidade, bem como — mediante certas ressalvas — com a própria Spätphilosophie
8. Se a natureza não é senão a pré-história do eu, isso significa que ela é, num plano inferior, o que o eu é segundo um expoente superior, numa potência mais elevada. A natureza só chega a seu termo no eu, mas, se o eu é seu autêntico cume, é porque existe entre eles continuidade metafísica.
para o estudante de Tübingen, o homem deve ser o legislador da natureza e, na filosofia intermediária, dela se tornará o redentor. A solidariedade, a comunidade de essência entre a natureza e o eu é fortemente valorizada pelo jovem
Schelling
a natureza é uma gradação de momentos em que a força se desenvolve em liberdade e em que o espírito se intui a si mesmo na sucessão de seus momentos. Mais tarde,
Schelling declara que o homem é o centro da natureza, que nele a natureza se torna saber, mas essa frase patética não é senão o eco de uma definição de Jena: o pensamento não é outra coisa senão o que antes começara como luz
tal como já dizia o Sistema do Idealismo Transcendental: as leis da natureza se espiritualizam em leis do espírito, sendo teoria perfeita aquela em que a natureza se dissolve em inteligência
todas essas intuições são admiravelmente pensadas e formuladas pela Dedução Geral do Processo Dinâmico. O idealismo está fundado na própria natureza. A intenção da natureza é que o homem dela se desprenda livremente
dito de outro modo: a racionalidade livre que permite ao homem assumir-se como autoconsciência e constituir-se como presente em relação ao passado que é a natureza está prefigurada, prevista, ou mesmo programada, pela própria natureza.