7.1 Controvérsia com Fichte

VETÖ, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.

1. A Querela do Ateísmo é a grande fratura na carreira e na vida de Fichte, mas a polêmica com Schelling desempenha papel semelhante no plano propriamente filosófico. Schelling aparece aos vinte anos na cena filosófica. É considerado o primeiro e o maior discípulo do mestre, “o pregoeiro do Eu”. O próprio Fichte acolhe com interesse, simpatia e estima o jovem Schelling.

2. Todas essas críticas — sem dúvida medidas e respeitosas, ainda assim vigorosas e constantes — que Schelling formula contra a Wissenschaftslehre, e sobretudo o desabrochar do idealismo transcendental numa filosofia da natureza e finalmente num sistema de identidade absoluta, obrigam Fichte a compreender que, apesar das afinidades, trata-se aqui de uma filosofia de inspiração e finalidade inteiramente originais, que considera a sua própria unilateral e imperfeita.

3. A filosofia schellingiana se dá ares de piedade, mas sua religião não é senão a divinização da natureza. Quando se declara a natureza autônoma e se guarda silêncio sobre a moral, só se pode estar fora da verdadeira filosofia, enraizado numa exaltação malsã.

4. Schelling, por sua vez, começa sua carreira filosófica sob o signo da veneração ao autor da Wissenschaftslehre, que considera até o fim seu precursor e mestre. Fichte quisera erigir a Crítica numa ciência verdadeira, estando na origem da imensa descoberta da subjetividade como princípio metafísico, da exposição da substância como sujeito.

5. Schelling reprova a Fichte ignorar e desprezar a natureza, e os contemporâneos festejam o schellingismo como a expressão incomparável de um sentimento vigoroso da natureza, de um afrancamento maravilhoso dos quadros estreitos, acanhados da subjetividade humana.

6. Sem dúvida, esse movimento se explica em parte por considerações da ordem da Weltanschauung, e não se deve certamente minimizar o fervor autêntico da aclamação: “só a natureza tem virtude salutar”! A fórmula é extraída da Exposição das Verdadeiras Relações da Filosofia da Natureza com a Doutrina Aperfeiçoada de Fichte, esse grande panfleto especulativo redigido em 1806.

7. Fichte quer continuar e aperfeiçoar a Crítica, e crê poder fornecer relato a priori, genético, de todo o saber teórico, que funda, aliás, de modo bem mais radical que Kant, a partir do prático. Ora, se Fichte afirma e aprofunda os resultados de Kant, não estende de fato de modo consequente a esfera do a priori.

8. Kant funda sua teoria da inteligibilidade transcendental a partir de sua doutrina do esquematismo. De um lado, o esquematismo apresenta uma estruturação a priori do tempo; de outro, permite a aprioração da imaginação e, com isso, põe os fundamentos de uma nova visão metafísica da imagem, do conteúdo.

9. Kant repensa a antiga visão da natureza como lugar por excelência da teleologia. Sem dúvida, qualifica e relativiza o alcance dessa teleologia, na medida em que a interpreta como finalidade sem fins. Isso significa que proíbe ler nos indivíduos e nas espécies da natureza fins stricto sensu.