9 Argumento ontológico

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. Dedicando-se D. Henrich, em seu exame severo da ontoteologia schellingiana, quase exclusivamente ao texto, de fato o mais explícito, da VIII Conferência da Einleitung in die Philosophie der Offenbarung, apresentando essa exposição tardia, porém, o balanço e o desfecho de reflexão inaugurada uns cinquenta anos antes. Sendo o problema de Deus, como observa Zeltner, espelho que se pode passear ao longo de todo o itinerário de Schelling, constituindo o chamado argumento ontológico (das sogenannte ontologische Argument) um dos marcos maiores de sua evolução filosófica.

2. Não sendo, a bem dizer, para contradizer Henrich que se retoma brevemente a investigação aquém da última filosofia, mas para completá-la, tendo esse autor visto muito bem que, ao remendar ou revestir a indefensável objeção lógica, Schelling obedecia a motivações profundas.

3. Reprovando Henrich a Schelling não ter-se atolado na objeção lógica, mas tê-la utilizado mal, e não ter marcado nitidamente a distinção entre um emprego legítimo da prova — na filosofia positiva — e um emprego ilícito — na filosofia negativa.

4. Podendo sintetizar-se assim a forma schellingiana do argumento ontológico: não podendo Deus existir senão necessariamente; devendo portanto o que existe necessariamente ser Deus, sendo isso o que se trata de mostrar, e sendo isso tarefa da razão retornada a seu fundamento originário.

5. Tendo a atitude de Schelling diante do argumento ontológico origens distantes, tendo sempre alternado a crítica e a valorização, a restituição, distinguindo um sentido incorreto e um sentido válido, tendo, ao longo de sua longa carreira, ampliando seus conhecimentos como o alburno aumenta seus círculos, renovado constantemente interpretação em partida dupla. Mostrando-o um rápido percurso por suas explicações sucessivas.

6. Não estando presente de saída em seu espírito, é verdade, a chamada objeção lógica, recusando em bloco os primeiríssimos escritos a vã “tagarelice” das provas da “existência” de Deus, não tendo Deus existência objetiva, Dasein, tendo apenas um Sein.

7. Não modificando fundamentalmente a filosofia da Identidade, já em germe nos primeiros ensaios, a posição de Schelling diante do argumento, tendo porém, tendo o Eu enquanto princípio absoluto se dissipado, após ter servido de veículo provisório à “Ciência superior”, a crítica da prova deixado de participar da crítica do dogmatismo, ficando englobada na rejeição ou no mau desvio dos “sistemas da reflexão” que entravam o acesso ao conhecimento absoluto.

8. Situando-se a virada maior da meditação ininterrupta de Schelling, como se sabe, durante os primeiros anos da estada em Munique, representando a filosofia da Identidade um ponto de suspensão, uma Auflösung der Dissonanzen.

9. Realizando Schelling, com os Weltalter, começados por volta de 1810, a “arrancada” (Durchbruch) rumo à filosofia que qualificará de positiva, tendo a intuição intelectual, como órgão capaz de alcançar o Absoluto, declinado definitivamente.

10. Interpretando Schelling agora, nessa medida ou escala ampliada, a teologia natural, recolocando-se a crítica da prova ontológica no seio do movimento que coordena a gênese efetiva de Deus e a irresistível aspiração da consciência humana.

11. Retomando brevemente a versão mais tardia publicada na edição das Obras Completas, em outro lugar, a mesma argumentação, igualando-se, sob a pressão da razão e do sentimento, a filosofia à religião, esgotando o conceito do Deus vivo.

12. Constituindo, se nos reportarmos à filosofia da Identidade, o desenvolvimento iniciado ruptura e alargamento, não estando ainda tematizada a cisão de duas filosofias, mas estando implicitamente efetuada.

13. Tendo as conferências de História da Filosofia Moderna dadas em Munique em 1827 fornecido a Schelling a ocasião de voltar, numa perspectiva histórica, ao argumento ontológico e à interpretação da “antiga metafísica” pré-criticista.

14. Não tendo, porém, esgotado o conteúdo das Lições de Munique, concentrando-se a atenção no simples existente, no absolutamente necessário. Como defini-lo?

15. Sendo, porém, por outro lado, o Ipsum Ens, o αύτὸ τὸ ὂν, “o que é”, o puro começo, o conceito racional absoluto, impossível que não seja, sendo como o ser necessário, o ser cego.

16. Sendo a antinomia aparentemente insolúvel a da razão e do querer, refletindo porém antinomia mais profunda no próprio conceito de Deus tal como fornecido pela tradição, a religião, a crença universal: a antinomia entre a natureza de Deus e sua existência, sua necessidade e sua liberdade.

17. Sendo a solução que Schelling esboça, no capítulo dedicado a Kant — virando o desenvolvimento sobre Descartes de lado após o enunciado do problema —, em substância a dos Weltalter, isto é, o encadeamento progressivo das três provas e sua interpretação significante.

18. Não fazendo, porém, essa solução senão paliar a dificuldade, não bastando explicar por que se passa de uma determinação a outra, sendo preciso ainda mostrar como se articulam e ligam, “na própria coisa”, os momentos sucessivos.

19. Sendo o intervalo relativamente breve que separa as Lições de Munique das de Berlim marcado por amadurecimento da pesquisa, que desabrocha na distinção das duas filosofias, permanecendo intactas as grandes linhas da orientação geral, tendo porém mudado o quadro, ganhando os dados e a solução do problema em precisão, sem talvez, porém, satisfazer plenamente.

20. Não sendo explícita senão nos últimos cursos berlinenses a cisão da filosofia em filosofia negativa e filosofia positiva, latente nos escritos anteriores, consagrando Schelling, ao tematizá-la, ruptura antiga, mas, longe de agravar a separação, buscando ao contrário justificá-la, torná-la plausível.

21. Colocando-se assim um novo exame do argumento ontológico no quadro das duas filosofias, que esclarece todas as antinomias, ou antes situando-se exatamente na charneira, o que destaca sua importância sem igual, sendo com efeito o ponto nevrálgico a passagem da filosofia negativa à filosofia positiva, sendo a crítica da prova ontológica lugar de eleição, e mesmo o protótipo, dessa passagem.

22. Tendo-se já indicado, ao começar, o essencial do texto que serviu de base a Dieter Henrich, tendo o autor seguido, e tido razão em seguir, as sugestões de Walter Schulz, nesse ponto dificilmente vulneráveis, tendo porém esbatido peça-mestra do raciocínio, a saber que a filosofia positiva pode começar sozinha, sem o socorro da negativa.

23. Sendo o elemento novo e capital que aparece nas Lições de Berlim, com seu emprego e localização específicos, a reviravolta extática da Razão, sendo o êxtase da razão, já descrito outrora nos Erlanger Vorträge, o ponto de partida da filosofia positiva.

24. Tratando-se em suma de mostrar que o golpe de parada do êxtase é a condição necessária do impulso do querer transcendente, sendo, em relação à “prova” de Deus, a reviravolta extática a transição inelutável, sendo o problema reencontrar depois o Deus real.

25. Nessas condições, à luz da distinção das duas filosofias, e da absoluta prioridade da filosofia positiva, que se torna o argumento ontológico? Sendo, em sua forma clássica, radicalmente dispensado, devendo a filosofia positiva largar, “deixar cair” mesmo o conceito de Deus.

26. Sendo a descoberta da filosofia positiva — da ciência que tem Deus por princípio — o que torna negativa a filosofia racional, sendo preciso reinterpretá-la em função daquela, ou, o que dá no mesmo, desprender o começo da filosofia positiva a partir da filosofia negativa, da pura ciência racional.

27. Partindo a metafísica anterior, e singularmente o argumento ontológico, que é a “cidadela” (arx) da teologia racional, do conceito de Deus para com ele recobrir o puro existente, sendo seu erro ter usurpado a conclusão ao ultrapassar o enunciado das premissas.

28. Tendo Kant feito justiça às pretensões da antiga metafísica, não tendo encontrado a verdadeira falha do silogismo ontoteológico, mas superando o balanço positivo de sua refutação o negativo.

29. Tratando-se para Schelling de levantar essa interdição sem recair nos paralogismos da teologia racional, devendo, bem compreendida, a prova ontológica ter conduzido ao começo da filosofia positiva.

30. Preservando-se assim intacta a liberdade divina, a potência universal como correlato do ato do puro existir, revelando-se o modo de existência necessária não uma determinação acrescentada depois à existência em geral, mas antes a existência sem modo, pura, infinita e sem fundo.

31. Sendo essa existência completamente despojada inapreensível ao pensamento, sendo o “inconcebível a priori”, detendo-se diante dela, com efeito, como diante de limite inacessível, a razão, interdita e tomada de estupor.

32. Assinalando, porém, o êxtase uma reviravolta (Umkehrung), uma inversão possível da situação da razão, sendo já ele mesmo essa reviravolta, sendo o ponto de inflexão.

33. Mas de onde provém a conversão da razão, seu retorno às coisas existentes? Importando conservar presentes as articulações que arriscam afundar-se e engolfar-se no abismo, pois o existente necessário, o puro Dass, não é capaz de comunicar o impulso à razão que imobiliza e transpassa.

34. Significando, livre das imagens, a reviravolta da razão que Deus deve poder provar-se, isto é, manifestar-se à razão que tocou em seu âmago a pura realidade originária, não sendo a capacidade da razão afetada, sendo antes dobrada, mudada de sentido.

35. Dizendo respeito a questão que comanda a interpretação da “passagem”, e por conseguinte da filosofia positiva, à natureza exata da reviravolta extática. Por que gira a razão sobre si mesma? Por que não permanece fixada no existente inerte e cego?

36. Encontrando-se Dieter Henrich, que se inspira em Schulz, fundado por isso a achar complexo o encaixe e frágil a solda das duas filosofias, no exemplo do argumento ontológico, não havendo porém, de fato, nem solda nem lacuna.

37. Lembrando a designação de ser ou de essência (Wesen) que reaparece que o puro existente necessário permanece opaco e impermeável, sendo espécie de terra de ninguém do pensamento, e, assim como Schelling ultrapassou o argumento ontológico da filosofia negativa, pela redução ao existente puro, sobrepondo do mesmo modo à tese na prova positiva.

38. Sendo, porém, intencionais essas transformações, não invalidando a incerteza perturbadora que paira sobre o existente necessário o curso ulterior da filosofia positiva.

39. Restando que o estatuto da filosofia negativa não está perfeitamente esclarecido, não terminando seu papel com a instauração da filosofia positiva, não estando ultrapassada a verdade do argumento ontológico que recuperou com a inflexão prospectiva do pensamento.

40. Passando mais uma vez em revista a história da ontoteologia — sendo sempre histórica a perspectiva do último Schelling —, sendo o velho filósofo de novo levado a explicar-se sobre Descartes.

41. Não provando, por outro lado, o argumento ontológico o que pretende provar, dando apenas o ser de Deus incluído na Ideia. “Deus é o Ser” não sendo proposição de existência, mas proposição predicativa.

42. Voltando um pouco mais adiante, comentando Aristóteles, o grande mestre de pensamento da última filosofia, Schelling a esse desdobramento da noção e de suas virtualidades, que perfila em pontilhado a filosofia positiva na própria negativa, e talvez torne supérflua a reviravolta extática.

43. Obrigando comentar essas frases a ultrapassar o quadro de um estudo dedicado ao argumento ontológico, querendo Schelling dizer, em resumo, que a “natureza necessária” de Deus só aparece antes da primeira criação.

44. Sugerindo isso igualmente que o grandioso empreendimento de Schelling ao final de seu itinerário não está integralmente refletido no esboço que dele dá Henrich, com base num texto que é talvez o mais nítido, mas está longe de ser o mais detalhado.