12 Todas as possibilidades

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. “Todas as possibilidades se realizam” — sendo o teorema de Schelling mais que um teorema, verdadeiro axioma gerador de seu pensamento, mantendo esse pensamento, tão rico em variações e mesmo em metamorfoses, intacta “da bela alvorada à triste noite” a afirmação da realização integral dos possíveis. Acompanhando o axioma, impávido, o curso aventuroso da filosofia schellingiana, tanto no período em que reina a necessidade quanto naquele em que domina a liberdade, seduzindo e intrigando, como a teoria das potências que o articula, exibindo ar um tanto provocante.

2. Tendo, porém, Schelling prevenido a objeção, retirando-lhe o aguilhão, escrevendo, na Filosofia da Mitologia, a propósito da colossal exceção que a China constitui ao processo mitológico, essas linhas notáveis: bastar ter reconhecido a possibilidade de tal exceção para prever que se deve encontrá-la também na realidade, pois é próprio do Espírito universal cumprir todas as possibilidades verdadeiras, querer ou permitir em toda parte a maior totalidade possível de fenômenos, estando o curso do mundo, cuja lentidão só já deveria nos convencer disso, organizado em boa e devida forma para cumprir toda verdadeira possibilidade; não tendo os que avançam contra o grande princípio de que todo verdadeiro possível é também real a chã objeção de que então todo romance deveria ter sido ou tornar-se uma história real, senão a representação trivial do possível puramente abstrato e subjetivo, mal ou nada sabendo o que a filosofia chama possibilidade.

3. Devendo-se por isso atribuir ao possível valor pleno, positivo, aquele incluído no verbo poder no sentido de können, no dinamismo aristotélico e no par da potência e do ato. Equivalendo possibilidade a potência, empurrando o possível autêntico à realização, sendo boa a consequência que vai da realidade à possibilidade, do ato à potência que o gerou.

4. Não seria então tentador inferir o possível a partir do real e decretar que dele é apenas um modo, a sombra projetada? O que retiraria à categoria de possibilidade toda utilidade, senão todo significado, parecendo apoiar essa visão a linguagem corrente que declara que “nem tudo é possível” ou que a política é “a arte do possível” (isto é, no fundo, do real).

5. Estarem, porém, as aparências contra ele nesse período dito da Identidade, pois na “filosofia absoluta” e na razão, réplica do conhecimento do Absoluto (também conhecimento absoluto), tudo é dado de uma vez, de saída; emergindo o Universo, o Um e Tudo, a uni-totalidade, integralmente e sem lacunas em seu esplendor acabado.

6. Declarando Theophron, porta-voz de Herder, no diálogo sobre Deus, que “no universo existe tudo o que pode ser”, existindo ali todo o possível, sendo essa a definição do Universo, devendo assim conectar-se e apoiar-se mutuamente o aforismo das possibilidades e a máxima da totalidade, também cara a Vladimir Jankélévitch: “só há totalidades”.

7. Citando-se então: no absoluto, idealidade e realidade não fazem senão um, possibilidade absoluta = realidade absoluta — sendo todas as figuras da Arte, portanto sobretudo dos deuses, reais porque possíveis — (chegando-se ao ponto) onde o ideal é o real e muito mais real que o assim chamado real mesmo.

8. Sendo a formulação seguinte já esboço da lei de Justiça que fundará, na filosofia posterior, a realização de todos os possíveis: reclamando-se para a razão tanto quanto para a imaginação que nada no universo seja tolhido, puramente restringido e subordinado, exigindo-se para cada coisa vida particular e livre.

9. Sendo os deuses os paradigmas gloriosos dessa lei aqui atribuída apenas à razão e à imaginação, antes de desdobrar-se na pré-história e na história: repousando o fascínio desses seres no fato de sua realidade só precisar da possibilidade, vivendo por isso num mundo absoluto.

10. Bastando de fato a resposta pelo Todo à famosa pergunta retomada de Leibniz: por que há algo e não antes nada? Pergunta que Heidegger flexionará consideravelmente, mas também o próprio Schelling em fases futuras de seu pensamento, recorrendo Leibniz ao princípio de razão suficiente, e ao motivo moral e religioso do reino da Graça sustentando por baixo o reino da Natureza.

11. Ora, como se disse no início, não acarretando a mutação mais espetacular — mais espetacular que profunda — do pensamento de Schelling a partir das Investigações sobre a Liberdade de 1809, de modo algum, muito ao contrário, o desaparecimento de um teorema no entanto comprometido pela aplicação à Identidade.

12. Confundindo-se desde então a realização das possibilidades, já a partir das Idades do Mundo, com a criação primordial, intradivina, isto é, com a decisão que ativa a Urmöglichkeit, a possibilidade originária, grávida esta de todos os possíveis, mas precisando de tempo para desdobrá-los, precisando de todo o tempo e, como se diz, tendo-se todo o tempo.

13. Sendo assim a futurição parturição, não sendo acaso que Schelling remeta mais de uma vez ao grande tema paulino e pietista da apokaradokia, da espera ansiosa e do “suspiro da criatura” em trabalho de parto.

14. “Nenhum possível”, portanto, “escapa à necessidade da futurição”, sendo todos os possíveis, bastando deixar-lhes o tempo, enunciando então Schelling o teorema como lei, a grande lei universal, Weltgesez, do devir, formulando-a sempre com espécie de majestade, de solenidade, subindo o tom.

15. Estando Némesis particularmente em destaque na obra da mitologia, onde Deus está dissimulado, mas sendo em todo caso apenas a delegada e como que o prosopon da justiça e da equanimidade divinas, sendo Deus, por seu lado, imparcial, observando o princípio indefectível de justiça e não conhecendo outra lei senão esta: cumprindo-se toda possibilidade, não sendo nenhuma tolhida; sendo o único voto que pronuncia que, no que concerne à ordem dos seres, tudo proceda racionalmente, mas sendo a razão desinteressada (interesselos), equitativa para com todos (omnibus aequa), querendo por conseguinte que nada aconteça por violência, nada por opressão.

16. Observando Deus o curso da Justiça na história do mundo, perfilando-se, por trás do Espírito universal, creditado da mesma imparcialidade, e cujo “próprio é cumprir todas as verdadeiras possibilidades, querer ou permitir a maior totalidade possível de fenômenos”, de modo que “o curso do mundo, cuja lentidão só já deveria nos convencer, está muito verdadeiramente disposto para cumprir a verdadeira possibilidade”, a intenção de Deus que rege a história e que ordena tudo para sua glória.

17. Sendo Deus paciente, perseverante, cauteloso, longânime; moendo lentamente, devendo-se o “atraso” da evolução, os prazos, as regressões aparentes, a inserção repetida de novos elos, ao fato de Deus ter apostado tudo no máximo de voluntário, devendo a sábia progressão, a gradação ordenada, resultar em que o conhecimento último, para a razão, e o estado final, para a história, sejam produtos de uma “experiência completa e totalmente exaustiva”, sendo levantada toda ambiguidade, aplanada toda montanha.

18. Citando-se: não devendo por assim dizer permanecer essa ambiguidade (da díade), pronunciando-se ali de certo modo lei que exige nada permaneça oculto, que tudo seja revelado, tudo claro, determinado e decidido, a fim de que todo inimigo seja vencido e assim se ponha o ser perfeito, apaziguado, sendo essa de fato a única lei universal (alleinige), a lei suprema pairando sobre tudo.

19. De modo que não é o tempo apenas o tecido inesgotável que permite a toda possibilidade cumprir-se e esgotar-se (louvando Schelling o gênio de Aristóteles por ter inserido um pequeno zugleich, simultaneamente, na redação do princípio de não-contradição), sendo também um organismo composto, intermediário entre a eternidade e a pura sucessão; estando ali cada coisa estabelecida, estabilizada, estatuída, instalada no lugar previsto.

20. Sendo o princípio adverso e enganador, sob o qual Deus dissimula seus próprios fins, o princípio do devir e, por isso mesmo, o instrumento ativo, vigilante e recalcitrante das vias misteriosas da Providência, Satã, dedicando-se-lhe uma satanologia, à maneira dos tratados teológicos da época, ao final da Filosofia da Revelação.

21. Salvaguardando a turgescência do princípio mau, a incansável andança de Satã, a liberdade de Deus, sob o manto do Ser necessário — liberdade garantida pelo axioma da realização dos possíveis. Sendo com efeito o devir tal que cumpre a condição de efetuar um e outro, o direito e seu contrário, o possível e o impossível, de modo que o livre aflora sempre à regulação necessária: incluindo a potência para um a potência para o outro (mesmo após a realização, permanecendo o que era a potência de um também depois a potência do contrário).

22. Demarcando a relação bívoca da filosofia negativa ou racional com a filosofia positiva, em torno da charneira da pura realidade, a relação criadora, sendo a primeira, ciência da Razão, por excelência a ciência das possibilidades, cuja nomenclatura esgota com grande cuidado, tendo por tarefa “reconhecer o possível e conduzi-lo à realidade”, sendo “a ciência que investiga a possibilidade”.

23. Assim, a questão radical que Schelling relança no limiar da Filosofia da Revelação — por que há algo? — não recebe resposta tão pronta, acompanhando-a aliás um acento de desespero, sendo o homem quem impele a colocá-la, refletindo-se a infelicidade da existência na “infelicidade do ser” da sabedoria indiana.