Na filosofia tardia de
Schelling, a vontade é essencialmente superação de si mesma, razão pela qual o ser originário pode ser pensado como vontade apenas enquanto esta se ultrapassa e se transforma.
A relação entre vontade e devir não deve ser compreendida segundo a lógica dialética da superação, mas a partir da base ontológica pela qual a vontade moderna surge como força de oposição e transformação da substância.
A história moderna converteu essa força em voluntarismo ao tomar a vontade como sujeito e fundamento de si mesma.
Schelling distingue a vontade desse voluntarismo porque a verdadeira vontade inclui essencialmente a não-vontade como condição de sua própria superação.
O problema decisivo passa a ser, assim, se é possível querer o não-querer de modo suficientemente radical para acolher o próprio ser.
O longo silêncio anterior às preleções tardias de
Schelling já manifesta filosoficamente essa vontade de não-vontade, embora tal expressão apresente um paradoxo difícil de formular conceitualmente.
A imagem da natureza de muitos nomes exprime a inapreensibilidade da vontade de não-vontade, cuja vitalidade consiste em nunca permanecer definitivamente idêntica a uma única determinação.
O silêncio correspondente a essa experiência não é ausência ou impotência, mas plenitude inexprimível, semelhante à figura de Polímnia, cujo encobrimento preserva a possibilidade de múltiplos nomes.
Esse silêncio exige uma transformação da própria filosofia, pois pensar a vontade da não-vontade significa repensar simultaneamente a essência do filosofar e do acolhimento do ser.
As Preleções de Erlangen articulam por isso a investigação da vontade com a determinação da filosofia como saber da totalidade.
A interpretação da filosofia schellinguiana somente pode partir do mesmo acolhimento originário do ser que sustenta sua concepção, e não de categorias externas previamente estabelecidas.
Natureza e fundamento coincidem na vitalidade constitutiva que jamais se fixa inteiramente em algo determinado, pois o fundamento se retrai em toda existência para conservar aberta a possibilidade de novo devir.
Existência e fundamento distinguem-se sem separar-se, mediante um entre-emergente no qual a possibilidade permanece ativa.
A doutrina das potências pretende justamente pensar essa possibilidade como força que se potencializa ao retrair-se diante de cada realização.
A diferença entre fundamento da existência e existência manifesta a identidade entre ser e devir como abertura da possibilidade, de modo que o “ser é” exprime um começo que nunca se esgota naquilo que efetivamente existe.
A possibilidade permanece possibilidade precisamente porque nenhuma realização a consome por completo.
O eterno começo só é livre porque pode começar e também não começar, não estando submetido a nenhuma necessidade anterior.
A eterna liberdade não consiste no que necessariamente deve ser, mas no poder-ser que inclui integralmente a possibilidade de não-ser.
A liberdade originária é poder sem objeto e vontade sem finalidade determinada, anterior tanto ao querer alguma coisa quanto ao não querer, permanecendo numa indiferença que inclui a possibilidade de toda diferenciação posterior.
Poder-ser podendo não-ser define a possibilidade em sua forma mais radical, pois toda determinação concreta já introduz limitação e necessidade; o poder originário é, portanto, sem intenção e anterior a qualquer visão previamente determinada.
A possibilidade manifesta-se como tensão entre expansão e retração, exteriorização e retorno, sem possuir ainda um objeto ou finalidade determinada.
Essa tensão não se dirige para algo exterior previamente estabelecido, mas constitui a própria tendência originária do ser.
A intenção só aparece quando essa tendência já assumiu determinada configuração existencial.
A tradição moderna passou a designar essa tendência pelo termo vontade, mas progressivamente submeteu a possibilidade à intenção e ao propósito, convertendo a potência livre do devir em poder de determinação e domínio.
A consolidação moderna da vontade como propósito antecipado transforma o futuro em princípio regulador do começo e obscurece a liberdade originária da possibilidade.
A vontade integral schellinguiana, ao contrário, não é vontade de algo nem vontade de nada, mas pura tensão do possível.
Antes de realizar-se como querer determinado, essa vontade permanece serena e em repouso.
A vontade asserenada,
Gelassenheit, deixa ser a possibilidade e abandona a compulsão de querer algo determinado, constituindo por isso a forma propriamente filosófica de uma vontade da não-vontade.
Essa concepção antecipa a proximidade posterior entre
Schelling e
Heidegger na tematização da serenidade.