A dificuldade de compreender o fundamento como pura possibilidade manifesta-se no próprio deixar-ser, pois este parece pressupor algo que já é; contra a concepção moderna de causa como produção orientada para um fim exterior, o sentido greco-aristotélico de αιτία permite pensar a finalidade como o próprio começo que realiza sua possibilidade, de modo que o ser já é, em seu poder-ser, aquilo que pode vir a ser.
Na Filosofia da mitologia,
Schelling retoma a causa formal aristotélica para reconstruir a compreensão originária da causalidade, mostrando que a redução moderna das quatro causas à causa eficiente só pode ser superada quando o fim é pensado como começo e como deixar-ser.
A causa eficiente foi historicamente interpretada como produção orientada por um resultado previamente determinado, fazendo com que o futuro apareça como projeto já antecipado e o fazer se subordine a uma finalidade concebida antes do próprio começo.
A crítica schellinguiana dessa interpretação passa pela causa formal, entendida não como modelo previamente pronto, mas a partir do “ser em tendo sido”, no qual o começo conserva em si aquilo que já foi e se realiza como devir.
A aproximação entre Aristóteles e a sentença pindárica “vem a ser, na própria experiência, aquele que tu és” revela que o ser não se reduz à execução de uma forma pronta, mas implica tornar-se aquilo que já se é em possibilidade.
A experiência musical fornece o horizonte privilegiado dessa compreensão porque nela o começo só se efetiva ao ressoar em sua própria diferença.
A experiência musical do começo não funciona como simples ilustração, mas explicita concretamente a liberdade do começo como ressonância de si mesmo.
Na oitava musical, o som reaparece diferenciado sem perder sua origem, permitindo compreender a causa formal como ressonância na qual o começo de algo coincide com o começo de um outro de si mesmo.
A oitava torna presente o já-ter-sido do som em sua diferença e mostra que a forma não é imagem exterior nem projeto antecedente, mas movimento do próprio ser.
A ideia ou paradigma exprime, assim, uma visão que se reconhece no outro e não uma representação independente destinada simplesmente a ser executada.
O “ser em tendo sido” designa essa estrutura temporal em que o ser só se realiza deixando ressoar continuamente seu próprio começo.
A causa formal não corresponde à formalização antecipada de um fim, mas à condição pela qual o começo permanece começo ao produzir outro, revelando a possibilidade como estrutura vital do próprio ser.
A causa formal ocupa, em Aristóteles, uma posição de primazia porque exprime a natureza do ente enquanto aquilo que ele propriamente é, e não apenas alguma determinação que lhe pertença exteriormente.
A causa formal refere-se ao que constitui a própria natureza do ente e não simplesmente às propriedades que nele podem ser constatadas.
Por exprimir o ser em si mesmo, a causa formal recebe em
Schelling um primado ontológico e funciona como orientação das demais modalidades de causalidade.
A precedência da causa formal sobre as outras causas decorre de ela fornecer o horizonte a partir do qual as demais podem ser compreendidas, ainda que seu sentido não se deixe captar por simples pensamento abstrato.
A questão decisiva não consiste em saber se Aristóteles formulou explicitamente esse primado ontológico, mas em reconhecer que a interpretação schellinguiana permite repensar a metafísica a partir de um sentido de começo fundado no próprio ser e não na causalidade subjetiva moderna.
Compreender Aristóteles exige refazer o percurso de seu pensamento, inclusive suas dificuldades e possibilidades não explicitadas, pois nenhum filósofo pode ser verdadeiramente compreendido por uma leitura meramente histórica e imóvel.
O princípio hermenêutico formulado para Aristóteles aplica-se de modo igualmente decisivo à própria filosofia de
Schelling.
O “ser em tendo sido” exprime um já-ser que se retrai sem desaparecer e torna possível compreender a causalidade como ressonância do possível, na qual cada ser se realiza deixando ser aquilo que ele já é em sua possibilidade.
A causa material não significa simples matéria passiva, mas o âmbito a partir do qual algo pode vir a ser sem que a matéria seja anulada, pois a estátua somente pode surgir do bronze se sua transformação deixar o bronze permanecer como condição de sua própria possibilidade.
A causa final não designa um objetivo exterior, mas aquilo em nome de cujo bem uma ação já se realiza, como no exercício orientado à saúde.
A saúde não aparece simplesmente no fim do exercício, mas já constitui o princípio que torna possível exercitar-se por ela.
O exercício manifesta, portanto, um bem que já está presente como possibilidade e que somente se revela plenamente no próprio processo de sua realização.
Se o fim exprime o ser em si mesmo como “ser em tendo sido”, então ele deve ser compreendido como começo que preserva seu próprio ter-sido e permanece começo em tudo aquilo que começa.
O deixar-ser próprio da causa significa conservar aberta a possibilidade, sem absorvê-la numa realização definitiva.
O fundamento somente permanece fundamento quando não deixa de ser começo e, por isso, mantém em todo ser a dimensão do possível.
Deixar-ser a própria possibilidade constitui o sentido positivo e livre do fundamento e permite compreender a natureza como começo que incessantemente permanece começando.