7 Princípio de contradição

GABRIEL, Markus. Der Mensch im Mythos: Untersuchungen über Ontotheologie, Anthropologie und Selbstbewußtseinsgeschichte in Schellings “Philosophie der Mythologie”. Berlin; New York: Walter de Gruyter, 2006. (Quellen und Studien zur Philosophie, Band 71).

I. A unidade de ser e pensamento na «Introdução Filosófica à Filosofia da Mitologia»

§7. O princípio de contradição como lei de movimento da dialética das potências

1. Depois de ter desenvolvido sua doutrina das potências na décima primeira e décima segunda preleções da Introdução Filosófica sobretudo histórico-geneticamente, seguindo o fio condutor da história da ontoteologia moderna, Schelling apresenta na décima terceira à décima quinta preleções a doutrina das potências em um novo arranque, em confronto com a ontologia e a noologia aristotélicas e com a dialética platônica.

2. O esboço histórico deveria mostrar que a filosofia, como pensamento livre, também deve ser pensamento puro, livre de toda autoridade, inclusive a dos sentidos.

3. Constitutivo para a filosofia qua pensamento do ente na tradição aristotélica é, portanto, duas coisas.

4. Depois que Schelling, nas décima primeira e décima segunda preleções, desenvolveu sua doutrina das potências sobretudo em conexão com a história da ontoteologia moderna e com o ideal da razão pura, ele procura mostrar que os momentos estruturais essenciais a todo ente determinado estão prefigurados na ideia do todo.

5. O absoluto qua ideia deve, certamente, ser distinguido do espírito absoluto, que de um lado é um resumo de princípios do ser, sendo, por outro lado, o ser singular que é tudo, isto é, negativamente filosófico: o ideal.

6. Se se traz uma passagem da conferência de Schelling Sobre a fonte das verdades eternas, pode-se ver claramente que o ultrapassamento schellinguiano da dialética em direção a sua causa de ser transcendente representa uma ligação com a distinção kantiana entre ideia e ideal, que é interpretada contra a vontade de Kant como uma compreensão e não como um fracasso da razão pura.

7. Schelling distingue agora duas formas de experiência, pelas quais se torna compreensível em que sentido as potências, como pontos de partida de uma ascensão ao princípio qua anhypotheton, podem ser declaradas objeto de uma experiência.

8. O pensamento puro, que tenta pensar o ente livre de todo determinado, deparará primeiramente com a primeira potência, que nada mais é que privação, ou mesmo posta como carência infinita ou, como Schelling diz desde seu período das Idades do Mundo, como fome de ser, porque é o ainda-não de todas as predicações possíveis, o algo de que tratam todas as predicações sem que nelas possa tornar-se objetual como tal.

9. O pensamento tornado livre, que pelo criticismo kantiano se emancipou da mera doxa da doação do conceito do absoluto, do ideal, vai agora, com Kant, além de Kant.

10. Kant erige nesse sentido uma fronteira absolutamente separadora entre ser e pensamento, ao sustentar que as formas de nosso pensamento não são também ao mesmo tempo leis de um ser ou absoluto em si independente desse pensamento, paralelo ou mesmo prévio a ele.

11. A restrição kantiana do conhecimento repousa, porém, sobre um conceito de conceito bastante limitado e de modo algum necessário.

12. Kant deve, além disso, supor que mesmo a razão natural, ainda não criticamente esclarecida, realiza de fato sempre a separação abstrata e problemática de intuição e conceito, se realmente cada indivíduo deve ter a tendência, em virtude de um esforço imanente a sua razão, de ultrapassar a esfera da sensibilidade por uma operação conceitual vazia.

13. Há razões sistemáticas para que Schelling, em sua famosa carta a Hegel de 2 de novembro de 1807, reclame que este distingue na Fenomenologia do Espírito entre intuição e conceito, quando ambos sempre concordaram em que o conceito é ideia, cuja natureza é justamente ter um lado pelo qual é conceito e outro pelo qual é intuição.

14. Diferentemente de Kant, Schelling parte, pois, do fato de que o desempenho do pensamento racional não é algum pensamento qualquer, mas uma atividade espiritual que Aristóteles e Platão chamaram nous ou noesis.

15. Schelling propõe, assim, um terceiro caminho entre ceticismo e realismo direto.

16. O ente, e não um agregado de coisas causal-nomologicamente organizado segundo leis naturais, é, pois, o conteúdo imanente necessário do pensamento, sem o qual ele mesmo nem sequer poderia ser.

17. O pensamento é, em outras palavras, idêntico àquilo que faz com que haja pensamento.

18. O ser que se revela como o conteúdo originário da razão é, portanto, o ser racional, isto é, ser que é cooriginariamente razão, na medida em que se medeia consigo mesmo.

19. Que nós, filosofando, nunca podemos contornar o pensamento do ser, também e sobretudo quando nos retiramos para a teoria do conhecimento, é uma das compreensões principais de Schelling, que está na base de sua crítica ao cogito cartesiano.

20. Por isso o pensamento também não pode pensar o nada sem já sempre tê-lo transportado pensando para o ser.

21. A condição de possibilidade da discursividade é uma estrutura proposicional já bem determinada, na qual algo pode ser como algo.

22. A lei que regula a sequência noética dos puros noemata deve agora, como nos movemos no puro pensamento fazendo dialética, ser a lei pura e própria da razão.

23. Kant havia declarado, em sua intenção dirigida contra Aristóteles, o princípio de contradição na Crítica da Razão Pura como princípio de todos os juízos analíticos.

24. Como as potências, como possibilidades do pensamento, só podem evidentemente ser postas como um tecido de condições organizado por prioridade e posterioridade lógicas, vale para elas eminentemente o princípio de contradição, que se constitui somente no desempenho de sua dialética.

25. O que Severino apresenta em nome da verdade do ser contra o princípio de contradição, Schelling reconhece, ao contrário, como o potencial dialético do princípio de identidade aparentemente meramente analítico.

26. A reabilitação schellinguiana da ontologia aristotélica do princípio de contradição como a lei de todo ente implica pelo menos três coisas: primeiro, uma interpretação do princípio aristotélico como lei de uma dialética entendida ontologicamente; segundo, por isso mesmo, uma crítica à formalização kantiana do princípio; terceiro, uma crítica velada, mas dificilmente ignorável para o contemporâneo, à concepção hegeliana de dialética.

27. Se Schelling agora põe no centro de sua dialética dos princípios o princípio de contradição em sua figura aristotélica e ao mesmo tempo desfaz a redução kantiana do princípio à unidade do entendimento, ele se volta maciçamente contra o conceito hegeliano de dialética e declara justamente a evitação da contradição como origem da mobilidade dialética do ser racional ou, dito com Hegel, das puras essencialidades.

28. Schelling dinamiza o ser racional assim como Hegel, e desse modo consegue pensar a ideia como mediação, mas o esforço de apresentar a ideia como mediação não é imanente à ideia.