3. Sem olhar para o ente determinado com que nós, como seres empíricos, lidamos cognoscitivamente no cotidiano, pode-se agora dizer que a possibilidade de que haja algo como a determinidade desse ente determinado é um momento da representabilidade, da objetualidade em geral.
6. Para poder formar o conceito do determinado não basta, porém, pensar a determinação predicativa sozinha, pois determinação é sempre determinação de algo.
8. O segundo que descobrimos além da determinação é assim o ser originário, o meramente essente, o fundamento ontológico de toda predicação, que em cada juízo singular é parcialmente trazido a si, mas em si mesmo permanece sempre incognoscível e retraído, pois é como sujeito no sentido do hypokeimenon aristotélico a matéria em si mesma incognoscível de toda predicação possível, que em seu em-si permanece incognoscível porque sem forma, como Aristóteles mesmo se expressa: a matéria é incognoscível em si mesma.
O sujeito de que aqui se fala não pode, por conseguinte, ser identificado, ou não primariamente, com o sujeito cognoscente.
O ser originário é o primeiro na medida em que todas as descrições visam apreender objetualmente o ser originário, e sem o ser originário não haveria descrições, isto é, objetos, enquanto o ser originário não depende de ser descrito.
Schelling o designa por isso como a primeira potência, e Erhard Oeser reconhece erroneamente na primeira potência a autocerteza do sujeito cartesiano.
O mero sujeito puro surge quando penso o que é não apenas sem todo predicado determinado, mas também sem o predicado simplesmente, a saber, o ser mesmo, que em todo predicado é propriamente o único predicado, chegando assim a nada além da completa ausência de determinação, que é o único resultado do cogito ergo sum cartesiano.
Mesmo que se concorde com a tese, ao menos necessitada de esclarecimento, de que o cogito cartesiano resulta em uma completa ausência de determinação, deve-se ainda assim sustentar que a potência-sujeito de
Schelling, diferentemente de um sujeito pensado cartesianamente, não é o sujeito egóico que nós mesmos somos como res cogitantes.
A certeza de ser das potências é para
Schelling a base ontológica da autocerteza do pensante, pois justamente isso deveria mostrar a reconstrução da história da ontoteologia: que o ente no sentido eminente é o conteúdo último da razão.
A doutrina das potências investiga a estrutura ontológica do conteúdo da razão sem recorrer à estrutura da subjetividade, pois a subjetividade é ela mesma apenas um caso, ainda que privilegiado, de ser, que ela pressupõe sempre já como seu início inalcançável.
Isso se expressa em última instância na facticidade de todas as relações consigo mesmo, e com isso
Schelling julga ter ido expressamente além de
Descartes.
Um dos pontos de crítica ao enfoque cartesiano que
Schelling desenvolve em detalhe em sua História da Filosofia Moderna de Munique diz justamente que o ser de que temos consciência no modo da reflexão sobre nosso eu penso não é o ser mesmo, mas apenas um modo determinado de ser, assim como o ser das coisas sensíveis é apenas um modo determinado de ser, de modo que ambos são em última instância igualmente certos ou incertos.
Além disso, dificilmente se poderá dizer que o ego pensado cartesianamente seja o sujeito ontologicamente entendido de todas as relações determinadas possíveis e portanto predicativas, o que é, no entanto, o aspecto central da primeira potência de
Schelling.
A doutrina das potências de
Schelling deve, por isso, ser entendida antes como a tentativa de fundamentar ontologicamente a filosofia da subjetividade.
Schelling não pergunta o que o ser é para a subjetividade, mas inversamente como a subjetividade pode pertencer ao todo do ente.
O todo do ente é pensado por ele como automediação, de modo que a função da subjetividade é inscrita no todo do ente, o que permite pensar a subjetividade, que é instanciada em cada sujeito cognoscente, como o ser mesmo.
Se a potência-sujeito é, porém, simplesmente teoricamente desligada, não se deveria então dizer que ela é nada? Apesar de sua indeterminação, não se pode dela dizer que simplesmente não é, se ainda não é nada cognoscível, objetual.
Pois de outro modo nossas referências ao todo perderiam seu referente, de modo que estaríamos por assim dizer presos em nossas teorias sobre o nada.
A potência-sujeito deve, por isso, ser um modus essendi, sendo seu ser originário e não objetual, e por isso nunca se pode dizer o que ela é, embora se possa dizer que sem ela seria impossível dizer de qualquer coisa que é assim e assim.
A potência-sujeito herda assim o desconhecido algo kantiano, isto é, o objeto transcendental, sem o qual não haveria em geral representações ricas de conteúdo, embora ele mesmo não possa ser representado.
Em toda predicação está sempre pressuposto um sujeito determinado que não é primeiramente constituído nessa predicação, mas antes a possibilita e sustenta, abrindo-se aqui o problema de uma dimensão transcendental da linguagem, na qual esta não é aplicada como instrumento disponível a objetos disponíveis, mas deve ser reconhecida em seu significado constitutivo de objetos.
A primeira potência pode, portanto, cum grano salis, ser entendida como sucessora da coisa em si kantiana, devendo-se manter que a primeira potência é um princípio lógico-ontológico e não um conceito-limite necessário, sem o qual não poderíamos explicar como representações podem ter conteúdo.
Além disso, a primeira potência não é certamente nem conteúdo nem forma, mas apenas o momento lógico-ontológico da determinabilidade, que não pode ele mesmo ser determinado.
Mesmo a tentativa de determiná-lo como o indeterminado chega sempre já tarde demais, pois a determinação bem-sucedida ocorre sempre já no espaço lógico cuja génese com a primeira potência nem sequer começou de modo que se pudesse antecipar em que direção o processo se move.
O início do espaço lógico ainda não é ele mesmo o espaço lógico, e por isso escapa ao pensamento determinante, mas nem por isso a primeira potência é nada, embora também não seja algo.
Para poder delimitar a indeterminação da primeira potência da impensabilidade do nada absoluto,
Schelling distingue por isso dois modos de não-ser: o não ser, que ele reproduz em grego como me einai, e o não-ser, em grego ouk einai.
O status ontológico da matéria na filosofia grega é, não por acaso, o do me on, na medida em que ela mesma não é nada determinado e no entanto fornece o material de tudo o que é determinado, de modo que é ao mesmo tempo tudo em potência.
A primeira potência é desse modo por assim dizer a base de desdobramento de todas as determinações eidéticas e portanto não um mero lugar vazio, mas o ainda-não-determinado, com o que
Schelling nota o ainda-não-ser-determinado da primeira potência.
Schelling se remete para sua equação dynamis on igual a me on com razão à Metafísica de Aristóteles, citando uma passagem em que Aristóteles expõe que o hama panta de Anaxágoras é a matéria indeterminada de todo possível e como tal um me on, porque um me entelecheia on.
De fato Aristóteles entende a matéria como o nada, podendo ela ao mesmo tempo ser em potência tudo o que em geral pode ter uma forma.
Para sua distinção entre me einai e ouk einai,
Schelling se refere a Plutarco, que em Adversus Coloten escreve que Platão teve o feliz pensamento de distinguir o não-ser do não-ente, designando um a supressão absoluta de todo ser e o outro a alteridade da ideia em relação a seu principiado.
Schelling sabe naturalmente que Plutarco, com sua distinção entre nada absoluto e alteridade, se refere ao Sofista de Platão.
Plutarco e
Schelling remetem em última instância à parte do Sofista em que Platão mostra que o conceito de me on não indica a negação absoluta do ser, mas apenas a alteridade dos megista gene entre si.
O movimento, que em toda a Antiguidade, como espécie de devir, foi sempre oposto ao ser essencial como transição de ser em nada e vice-versa, não é, pois, objeta Platão a Parmênides, simplesmente o não-ser e mera opinião dos mortais.
Parmênides só caiu na conhecida dificuldade de explicar o devir como aparência porque assumira que o nada é o contrário do ser e não apenas seu outro.
A alteridade é, porém, uma relação que caracteriza o totum como tal, na medida em que o totum tem sua consistência justamente em que tudo é diferente de tudo.
O todo das ideias consiste, portanto, em ser constituído por uma diferença integral, na qual Platão vê o nada e com isso o princípio do devir.
Contra Parmênides, Platão sustenta assim que o movimento está certamente em uma relação de diferença com a ideia do ente, não sendo justamente ser, mas nem por isso é não-ser, isto é, um impensado e com isso puro erro, mas um momento do todo do ente, do pantelos on, que em Platão como em
Schelling é em si mesmo vida movida.
Como possibilidade de todo ente, a primeira potência é assim tudo, mas de tal modo que também não é tudo como tal, a saber, ainda não é.
Segue-se que a primeira potência não pode ser já o todo do ente que a metafísica desde sempre buscou, o que
Schelling queria mostrar com seu breve esboço histórico, mas apenas um momento daquilo que em todo sentido é o ente: o pantelos on.
Cada potência é, com efeito, apenas um grau para o ente consumado, e se a primeira potência ainda não satisfaz o pensamento e o traz definitivamente a si, deve igualmente ser sempre reconhecida como o primeiro pensável.
A segunda potência, a determinação pura ou na terminologia de
Schelling o puro ser sem todo poder, não é pensável sem o sujeito, a primeira potência, tão pouco quanto um predicado pode ser sem sujeito que o sustente.
A objetualidade como condição de possibilidade da cognoscibilidade de algo em geral é assim, segundo
Schelling, possível apenas com base em uma originariedade.
A condição de possibilidade lógico-ontológica ou o princípio da objetualidade é assim a originariedade, e sem uma indeterminação prévia não há determinidade: o pensamento não pode ser sem o impensável.
Disso testemunha também a estrutura de nossa consciência: cada objeto de conhecimento é como não-eu fundamentalmente referido ao sujeito cognoscente, o eu, ao qual está necessariamente correlacionado, sem que um constitua o outro no sentido de uma relação unilateral de dependência.
O sujeito mesmo não é, porém, em si mesmo, como puro desempenho cognoscente que constitui objetualidade, cognoscível do modo como o são seus objetos.
Ele não pode como tal, em sua atividade, ser positivado do modo do mundo objetivo por ele constituído, ainda que como condição de possibilidade do conhecimento deva ser necessariamente co-pensado como seu fundamento possibilitante: o eu penso deve poder acompanhar todas as minhas representações.
Isso não significa, porém, que o eu penso seja um conteúdo do mundo e com isso um ente ou uma substância, o que
Kant notoriamente levou à refutação das provas clássicas da imortalidade no capítulo do paralogismo da Crítica da Razão Pura, ao reconhecer que as provas da imortalidade apresentam o eu penso como um conteúdo do mundo, uma alma ou substância.
Se o sujeito é pensado como substância pensante, sujeito e objeto são confundidos.
Com o tema fundamental da incondicionalidade, da não objetualidade do eu, que inquietou a filosofia da subjetividade desde o idealismo pós-kantiano, ocupa-se sobretudo o idealismo inicial de
Schelling, que culmina no Sistema do idealismo transcendental de 1800.
Schelling parte nisso do problema fichtiano da possível objetivação da intuição intelectual, isto é, da unidade não proposicional, mas ainda assim sabente, com a origem ativa do todo, o eu.
Schelling procura mostrar que diversas épocas da consciência devem ser pensadas como percorridas antes que a atividade absoluta possa tornar-se objeto para a consciência na arte, isto é, no produto do génio.
Se alguns intérpretes pensam que a dialética das potências de
Schelling acaba por substituir a ciência racional por uma misteriosa intuição intelectual do sujeito como o não mediável, herdada de sua juventude, parecem pressupor um conceito de racional e de ciência ao qual
Schelling não apenas quer conscientemente opor uma alternativa, mas cuja exclusividade ele expressamente põe em questão por sua ligação tardia à episteme antiga.
A doutrina das potências de
Schelling investiga antes as condições ontológicas de possibilidade da racionalidade, perguntando como é possível que algo como a racionalidade pudesse se formar sob as condições do todo do ente.
Seu aparente retorno à ontologia pré-crítica é motivado por querer fechar a fissura entre ser e pensamento que se abre em todo caso quando não se pode explicar o pensamento tanto a partir do ser quanto o ser a partir do pensamento.
O pensamento não pode produzir o ser, pois ele mesmo já deve ser para poder em geral produzir algo.
O ser precede, portanto, o pensamento, mas tão logo há pensamento, há ser apenas de tal modo que ele se mostra como mundo objetivo.
Tão logo o pensamento entra no mundo, há pela primeira vez um mundo objetivo, mas ao mundo objetivo precede um ser que ainda não é objetivo.
10. Mostrou-se que o puro objeto, mais A, remete ao puro sujeito, menos A.
Tão logo temos as duas primeiras potências, está também já estabelecida uma relação de exclusão que distingue ambas as potências uma da outra, cada uma sendo a outra não, embora estejam ordenadas uma à outra como correlatos.
Em sua interdependência permanecem sempre irredutíveis uma à outra, de modo que só podemos pôr ambas como momentos do ente.
As duas primeiras potências não são, portanto, candidatas ao ente, isto é, ao todo, porque são cada uma apenas ponto de passagem e cada uma remete necessariamente à sua consequência ou ao seu fundamento.
Schelling diz momento no sentido conhecido de movimentum, de moveo, e o que aqui se considera é o progredir, isto é, o movimento do ente para o ser, de modo que essas diferenças são na verdade pontos de movimento ou de passagem do ser divino, podendo por isso também ser chamadas momentos.
O motivo de uma razão que busca o ente é, como muitas outras coisas na Introdução Filosófica, de origem aristotélica.
Assim como
Schelling faz o puro pensamento estabelecer e percorrer dialeticamente diversos candidatos ao ente, a saber, as três potências, para ao fim negar a cada um o status de princípio, também Aristóteles discute no livro Z da Metafísica, sobretudo no terceiro capítulo, possíveis candidatos ao cobiçado posto da ousia.
Pois sempre já, diz Aristóteles, o pensamento esteve à busca do ente no sentido enfático da ousia: e assim sempre já e também agora aquilo que sempre é buscado e sempre está em questão é o que é o ente, isto é, o que é a substância.
Na busca do verdadeiro ser, o pensamento filosófico assumiu diversas posições próximas, cujo valor Aristóteles empreende ponderar, estando a razão à busca do verdadeiro ser que se revela em última instância como seu próprio conteúdo originário.
O primeiro passo é a descoberta do ser originário mesmo, descoberta complementada pelo fato de que o ser mesmo ainda não pode ser o todo do ente, pois ainda não é objetivo.
A busca do verdadeiro ser visa encontrar aquilo que permanece igual a si mesmo em toda mudança das aparências, e por isso não pode deter-se em nenhum momento do ente antes de ter alcançado o todo.
Ente, classicamente, diz-se daquilo que é o que é, touto hoper esti, ou do ser-junto-a-si.
O que está junto a si, porém, não passa a outro de tal modo que só pudesse ser compreendido a partir deste, o que deve ser dito de tudo o que está compreendido em processos finitos de devir.
Pois, como diz Platão, o que é um outro é necessariamente um outro de um outro e por isso só é compreensível a partir dessa relação.
Simplesmente se nos mostra que tudo o que é um outro deve necessariamente a um outro aquilo que é.
Tudo o que está no mundo já se distingue de algo e está portanto em uma relação que define o conteúdo que algo tem.
Na busca do verdadeiro ser do ente, dos conteúdos do mundo, a filosofia antiga opôs ousia e genesis e por isso, desde a determinação parmenídica do absoluto como absoluta imobilidade, lutou com o problema de ou desmascarar a fenomenalidade do devir diante da estrita eternidade do propriamente ente como aparência no sentido pejorativo, como grau inferior de ser, ou, como Aristóteles, ganhar o conceito do propriamente ente a partir do devir e assim mediar ambos entre si.
Na medida em que a filosofia busca o propriamente ente, que nunca pode ser meramente o objeto não compreendido da sensibilidade, deve apresentá-lo como conteúdo de um pensamento ao qual o verdadeiro ente pode estar descerrado.
Inversamente, deve pensar o verdadeiro ente como algo que pode ser objeto do pensamento, pois o absolutamente impensável também não pode ser o verdadeiro ente que buscamos, porque não buscamos o nada, mas justamente o ente.
Se a razão, na busca do verdadeiro ser, descobrisse que ele não é cognoscível, cairia em um ceticismo que em última instância leva ao desespero.
Ser e pensamento devem, por conseguinte, ser fundamentalmente referidos um ao outro, se algo como o verdadeiro ente deve em geral poder ser e ser pensado.
Poder-se-ia objetar que não há nenhuma necessidade de que o homem busque em geral o verdadeiro ente, seja porque é um conceito sem sentido ou mesmo contraditório, seja porque tal coisa não pode ser encontrada.
A objeções dessa direção poder-se-ia responder com
Schelling de dois modos: primeiro, pela invocação da história do pensamento filosófico, cujo circular em torno do tema do ser do ente se poderia demonstrar não apenas com o próprio esboço histórico-filosófico de
Schelling acima delineado.
O pensamento metafísico busca sempre compreender o absoluto, isto é, ganhar um ponto de vista do qual tudo se lhe descerra em sua propriedade, o que vale em princípio para toda posição filosófica, por mais relativista que seja, porque também o relativismo, se não quer enunciar simplesmente um absurdo, reivindica ter encontrado o ponto de vista ao qual o acontecimento do mundo ou do pensamento se descerra em sua propriedade.
A objeção de que o homem não pode encontrar o verdadeiro ente
Schelling refuta mostrando que só podemos compreender o homem como consciência que percebe o ser, isto é, como referido a um conteúdo originário da razão: o ser.
Essa articulação de antropologia e ontologia será exposta em detalhe no segundo capítulo deste trabalho, e a investigação schellinguiana da estrutura ontológica da autodeterminação serve a sua intenção de pensar uma consciência que é em si mesma um caso de ser, de modo que ele possa finalmente mostrar como o ser pode ser conduzido à consciência.
O enfoque de
Schelling só se torna, por isso, plenamente compreensível quando visto no contexto de todo o seu projeto, que, como se viu, consiste em responder à questão de como é possível uma compreensão filosófica da religião, isto é, da mitologia e da revelação.
O ponto de vista ontoteológico é nisso fundamentado antropologicamente, dando-se assim uma resposta à questão de por que justamente o homem deve ser um ens metaphysicum.
Schelling reage, portanto, de fato à objeção potencial contra a ontoteologia de que afinal queremos buscar o verdadeiro ente, de modo que a vontade metafísica de verdade não pode ser isolada de uma compreensão do querer humano, isto é, da filosofia prática.
Mas
Schelling reprova justamente à ontoteologia pensar a condição humana exclusivamente a partir da teoria, da filosofia negativa.
Disso ele não conclui, porém, que a teoria deva ser abandonada em favor de qualquer práxis, mas assume o projeto exigente de reconciliar ontoteologia e antropologia entre si.
A questão pelo ser do ente é em última instância a questão pelo todo, que ele mesmo não pode ser um ente.
A questão pelo ser do ente é uma questão que só podem pôr seres que só podem ver coisas no horizonte de um incondicionado que não pode ele mesmo ser dado.
A questão pelo ser do ente é, portanto, a questão sobre o que é o mundo, aquele todo ao qual pertence tudo o que se distingue de outro.
Quem compreende a questão pelo todo do ente compreende ipso facto a questão pelo ser do ente.
Como seres racionais, porém, não podemos deixar de pôr essa questão, na medida em que apenas nos damos conta de como temos em geral mundo, a saber, como o horizonte ele mesmo incondicionado em que tudo o que é condicionado vem ao encontro.
Quem permanece voltado ao mundo e não se volta para sua própria orientação ao mundo certamente não compreenderá a questão pelo ser do ente, de modo que é necessária primeiramente uma específica conversão do pensamento a si mesmo na reflexão metafísica, que por isso desde sempre entrou em concorrência com o senso comum.
11. Se, porém, um pensamento de qualquer espécie pensa o ser do ente, deve pensá-lo em todo caso de modo que ele não seja mero momento de uma totalidade estrutural.
O que é momento é sempre relacional e nunca em si, de modo que a relação dos termos relacionados é aquilo a partir do que estes devem ser compreendidos.
Compreendemos uma relação exatamente quando pensamos dois conceitos ou entidades separados vinculados sob um ponto de vista de unidade.
Isso significa, porém, que nunca pensamos os termos relacionados em si, mas sempre apenas na relação, o que leva, não apenas em Platão, mas também em Aristóteles, à desvalorização da relação como categoria de acidente.
Pois a relação constitui ente que não é em si, e o em si é justamente aquilo que é buscado quando se põe a questão pelo verdadeiro ser.
Aquilo a partir do que algo deve ser compreendido, porque em si mesmo não é ele mesmo, está referido a este e é a cada vez o ente: o ente de dois termos relacionados é sua relação.
Como as duas primeiras potências são apenas enantia, opostos, estão em uma relação que, no entanto, é de tal modo constituída que entre elas pode haver algo que é o terceiro excluído de ambas, de modo que é ao mesmo tempo aquilo que cada uma das duas era apenas para si.
Esse algo, portanto, ao qual, porque nele o em-si não suprime o fora-de-si e o fora-de-si não suprime o ser-em-si, só se poderia chamar o ser-junto-a-si, o que se possui a si mesmo, o que é senhor de si mesmo, distinguindo-se justamente por isso das duas potências precedentes, cada uma das quais só pode ser pensada em completa renúncia de si, uma na medida em que não atrai a si o poder, a outra na medida em que não atrai a si o ser, esse algo, diz-se, se o mero sujeito é o primeiro, teria sem dúvida a mais alta pretensão de ser o ente.
O ser-junto-a-si deve ter a estrutura do sujeito-objeto, sendo ao mesmo tempo sujeito e objeto sem ser unilateralmente sujeito ou objeto.
O ser-junto-a-si não é outra coisa senão a relação de sujeito e objeto que já reivindicamos no momento em que pudemos distinguir sujeito e objeto um do outro, pois a diferença é uma relação.
O ser-junto-a-si, como sujeito-objeto, como unidade de ser, sujeito, substância, e poder, objeto, predicado, é igualmente menos A e mais A, sendo notado por
Schelling como mais-menos A.
É a unidade das duas primeiras potências, o momento que as liga, e com isso a cópula do juízo categórico absoluto que constitui a série de todos os juízos finitos, o que Hogrebe chamou de proposição absoluta.
O sujeito-objeto é o primeiro candidato promissor ao todo do ente, sendo a unidade do determinável e da determinação, ou do descrito e da descrição.
É o pensamento absoluto, excluído da relação, de uma mediação bem-sucedida de objetividade e subjetividade, que todo conhecer visa ao tentar apreender o todo do ente.
Ele está, por isso, pela relação complexa das duas primeiras potências que toda teoria filosófica almeja assim que tenta reunir eu e mundo e compreender como a existência de uma dimensão semântica da comunicação é possível de tal modo que essa dimensão não esteja simplesmente cortada de uma dimensão ôntica, o mundo, como o ceticismo procura mostrar.
O sujeito-objeto é a estrutura da teoria que toda filosofia construtiva visa ao procurar mediar eu e mundo.
Isso é assim, segundo
Schelling, porque toda filosofia teórica é em última instância determinada pela busca do verdadeiro ser e deve nisso percorrer necessariamente certos momentos, que a doutrina das potências reconstrói arqueologicamente independentemente de preferências metafísicas particulares.
Schelling designa as potências na importante décima quinta preleção da Introdução Filosófica expressis verbis como o ur-sujeito, menos A, o ur-predicado, mais A, e a ur-síntese de ambos, sugerindo ele mesmo com isso uma interpretação da doutrina das potências em termos de teoria do juízo.
Ao reconstruir suas implicações predicativas, não se pode, porém, jamais perder de vista que nos encontramos em um domínio onde ser e pensamento formam uma unidade, de modo que o juízo que se realiza nos momentos do ente deve ser pensado ontologicamente como ur-tição do ente.
Já Hölderlin, em seu fragmento Juízo e Ser, interpretara a autoconstituição da subjetividade no sentido de
Fichte, isto é, a dis-posição de eu e não-eu, como ur-tição do ser, dizendo que juízo é no sentido mais alto e mais estrito a separação originária do objeto e sujeito intimamente unidos na intuição intelectual, aquela separação pela qual objeto e sujeito só se tornam possíveis, a ur-tição, e que no conceito de divisão já está o conceito da referência recíproca de objeto e sujeito um ao outro e a pressuposição necessária de um todo do qual objeto e sujeito são as partes, sendo eu sou eu o exemplo mais adequado a esse conceito de ur-tição.
Ao se descerrarem ao pensamento os momentos do ente em sua mobilidade, ele apreende a autoconstituição ou autorganização daquilo que o ente é.
As potências não são, com efeito, elementos logicamente formalizáveis de um pensamento meramente formal, mas fundamentos do ser, hypokeimena tes ontotetos, como
Schelling se expressa.
Deve-se sublinhar mais uma vez que a doutrina das potências quer ser uma teoria dos princípios, isto é, uma teoria que descreve tanto o âmbito do ser quanto o âmbito do pensamento.
Pois a questão pelo todo do ente, e com isso a teoria da totalidade visada, seria mal aconselhada se quisesse explicar o totum a partir do ser ou do pensamento sozinhos, concretamente a partir da natureza ou do espírito.
O todo do ente deve poder ser pensado como o ser que se conhece a si mesmo, se se quer superar o tão lamentado dualismo de eu e mundo.
A doutrina das potências visa exatamente isso, reconstruindo o que sempre já deve ter acontecido para que possa haver um mundo com conteúdos, isto é, um mundo objetivo.
Como a primeira potência se distingue da segunda, e ambas estão por conseguinte em uma relação de exclusão, elas excluem algo de si, a saber, sua unidade.
A relação da diferença exclui que aquilo que ela distingue seja idêntico, e a primeira potência não é idêntica à segunda.
A identidade é, portanto, excluída, sendo por isso mesmo constituída: o terceiro excluído é produzido pela relação de exclusão.
A terceira potência é o terceiro excluído pela indeterminação e pela determinação, que se torna possível exatamente pelo estabelecimento de uma relação de exclusão.
O que ainda não é possível é posto exatamente por ser excluído, fenómeno conhecido das mais diversas situações da vida: o impensável e o impossível se tornam possíveis exatamente por serem excluídos, e o caminho do excluído será sempre trilhado tão logo esteja marcado.
O terceiro excluído é, portanto, para
Schelling, já possível pelo fato de ser excluído como impossível.
A terceira potência é a unidade de indeterminação, ser, e determinação, pensamento, que certamente não pode ser sua identidade imediata: como a terceira potência só se torna possível por um processo de exclusão, isto é, por mediação, ela não pode ser a identidade imediata das outras duas potências.
Como o terceiro excluído, ela só pode ser enquanto as duas outras são: sem mediação ela não é possível.
Isso se manifesta em que tudo o que é pensado, na medida em que é verdadeiro, é algo determinado, isto é, uma unidade das duas primeiras potências, podendo por isso verdade e ser coincidir no uso linguístico grego.
Schelling visa declaradamente pensar o on da filosofia grega, para com isso superar o dualismo de ser e pensamento.
A terceira potência, o sujeito-objeto, parece assim poder fazer a mais alta pretensão de ser o ente mesmo, pois nela se realiza o pensamento da mediação de sujeito e objeto, o que poderia sugerir uma passagem real à filosofia da subjetividade.
A potência sujeito-objeto é, porém, ela mesma novamente apenas uma potência do ente, um momento na totalidade estrutural dos princípios que constituem todo concreto.
O sujeito-objeto, como a relação de sujeito e objeto, depende destes como momentos que lhe são prévios.
O sujeito-objeto vir depois de sujeito e objeto significa que só há pensamentos verdadeiros determinados enquanto há indeterminação e determinação pura.
A unidade sujeito-objeto não precede, portanto, a dualidade de sujeito e objeto, mas é essencialmente o terceiro, o exclusum tertium.
O terceiro entre sujeito e objeto só podemos pensá-lo se primeiro apreendemos o pensamento simples do sujeito e em seguida o pensamento simples do objeto, para finalmente poder pensar o conceito de um terceiro simples que une ambos.
Com ele, porém, toda possibilidade está esgotada, e não teríamos até agora nada de que se pudesse dizer que é o ente.
O pensamento de
Schelling pode ser esclarecido traduzindo-o em outra situação problemática que lhe era tudo menos estranha, como mostram as Cartas sobre dogmatismo e criticismo.
Naturalismo, dogmatismo, e idealismo, criticismo, põem cada um uma das duas primeiras potências como o incondicionado de que partem para explicar a outra potência.
O naturalismo põe uma coisa incondicionada, a natureza, e procura a partir dela explicar o eu, o que leva às conhecidas tentativas de redução.
O idealismo subjetivo, inversamente, procura partir do incondicionado, o desempenho unificador do eu, e reconduzir todas as unidades, sobretudo as da natureza e de seus conteúdos, ao desempenho unificador do eu.
O naturalismo é fundamentalmente paradoxal ao pôr uma coisa incondicionada, o que é incompatível sobretudo com o fato de ela ser posta como coisa incondicionada e não simplesmente dada.
O idealismo subjetivo é paradoxal porque entrega casa e horta ao ceticismo e quer fazer passar tudo o que é dado por posto.
Nenhuma redução pode ter êxito, nem a naturalista do eu ao não-eu nem a idealista do não-eu ao eu.
A redução naturalista põe a primeira potência como absoluta e pode a cada momento ser desafiada por não conseguir explicar a determinidade conceitual.
A redução idealista põe a segunda potência como absoluta e arca com a dificuldade de explicar de onde vêm os conteúdos que são determinados pelo pensamento determinante.
Se se assume um mundo que nos traz conteúdos, esse mundo mesmo já deve apresentar diferenças, pois de outro modo não poderia nos trazer conteúdos.
Isso significaria, porém, que há um mundo que em si mesmo já é conceitualmente determinado, o que é incompatível com a suposição do idealismo, segundo a qual a determinação conceitual só entra no mundo pelo desempenho do eu.
O naturalismo é uma teoria sem forma do conteúdo, enquanto o idealismo é uma teoria sem conteúdo da forma, e o caminho correto está, portanto, entre os dois extremos.
Schelling conclui em sua filosofia tardia sempre do fato, isto é, da estrutura do espaço lógico em que se encontra pensando, para sua pré-história, sendo a existência do espaço lógico para
Schelling o fato simplesmente, e com isso um fato da experiência.
Nisso
Schelling vê o específico de sua filosofia tardia, que nesse sentido designa como empirismo: o espaço lógico não precede sua constituição, e por isso sua existência é puramente factual, não havendo razão a priori para que haja o mundo como o espaço lógico em que nos encontramos sempre já como seres discursivos.
Se, porém, ele existe, pode-se concluir retroativamente para sua pré-história, e o prius é reconhecido a partir de sua consequência, mas não de tal modo que essa consequência precedesse, significando a preposição a em a posteriori aqui não o terminus a quo, mas per hoc posterius, pelo seu consequente é reconhecido o prius.
Ser conhecido a priori significa justamente ser conhecido a partir de um prius, e a priori é conhecido aquilo que tem um prius do qual é conhecido, enquanto o prius absoluto é o que não tem prius do qual seja conhecido.
Ser o prius absoluto significa, portanto, não ser conhecido a priori, e aqui, na filosofia positiva, há propriamente empirismo, na medida em que o que ocorre na experiência se torna também elemento e cooperante da filosofia.
13. A questão sobre o que é o ente se põe assim, após o esgotamento das posições possíveis do puro pensamento, de novo e de modo muito mais radical.
Depois de nos termos aproximado passo a passo da pensabilidade do todo do ente,
Schelling mais uma vez nos retira o chão e nos remete, onde acreditávamos poder ver de novo, aos limites da impensabilidade.
A compreensão de que as potências são momentos do ente sugere à primeira vista que o ente é o todo de suas potências, mas o todo das potências é apenas o ente em esboço, a mera figura ou ideia do ente, não ele mesmo.
Neste ponto se vê uma diferença importante entre as concepções de dialética de
Schelling e de
Hegel.
Certamente também
Schelling reconhece no sujeito-objeto a unidade mediada de sujeito e objeto, mas estes não estão nele suprassumidos de tal modo que a mediação se torne a verdade última.
A palavra bela dos gregos, ideia, não diz na verdade nada além de nossa palavra alemã Gesicht, e isso em ambos os sentidos, de modo que significa tanto o ver e o olhar mesmo quanto o que passa no rosto.
Tudo o que pode existir é descritível como um tecido de potências, sendo por um lado sujeito de todas as determinações que lhe são possíveis, por outro determinação e, finalmente, determinado.
A totalidade estrutural apriorística dos princípios, que a razão encontra ao se voltar a si mesma e apreender seu conteúdo puro, é, porém, na medida em que constitui cada ente singular, o universal, isto é, a ideia.
A omnitudo realitatis é desse modo certamente o absoluto, mas o absoluto como ideia ou no universal, a condição de possibilidade de todo ente, cuja efetividade pressupõe, no entanto, segundo
Schelling, que algo fora dela a atualize, algo que não é mais universal, mas um ser singular e não dialetizável.
Evidentemente o pensamento dialético se move de um momento a outro, mas esse movimento não pode ser impulsionado pelo pensamento mesmo, pois o pensamento só está realizado onde a terceira potência entra em jogo.
Nem a primeira nem a segunda potência se deixam pensar como tais, isto é, independentemente de sua relação com a terceira potência, que já está sempre realizada quando nos voltamos ao pensamento dialético.
O movimento da ideia precisa, por isso, de uma causa do ser dos princípios nela mediados, que nem como singulares nem como conjunto têm um ser-para-si de tal modo que se pudesse designá-los como o ente buscado.
Que as potências estejam realizadas, elas não o devem a si mesmas, pois em nenhuma delas está posto o conceito completo do ser como relação consigo mesmo, que só pode advir pelo movimento da automediação.
Pois a terceira potência pressupõe um movimento através de um âmbito de não-saber que deve ter-lhe precedido.
A terceira potência não precede as duas outras, mas é primeiramente constituída por elas.
A irremovível relacionalidade das potências funda desse modo seu défice ontológico, pois nenhuma das potências é ela mesma sem passar a um pensamento que a preenche.
Isso vale mesmo para a terceira potência, cujo ser-junto-a-si não suprime sua mediatidade.
15. O pensamento que aspira a apreender a si mesmo como tal exige um fundamento ulterior de ser para a pluralidade das potências que remetem umas às outras, que em si mesmas não são já o ente, mas formam uma sequência de determinações compreendidas no trânsito, isto é, no devir.