6 Doutrina das potências

GABRIEL, Markus. Der Mensch im Mythos: Untersuchungen über Ontotheologie, Anthropologie und Selbstbewußtseinsgeschichte in Schellings “Philosophie der Mythologie”. Berlin; New York: Walter de Gruyter, 2006. (Quellen und Studien zur Philosophie, Band 71).

I. A unidade de ser e pensamento na «Introdução Filosófica à Filosofia da Mitologia»

§6. A doutrina das potências

1. A leitura ontológica kantiana de Platão feita por Schelling em sua juventude não é de modo algum descabida no caso do ideal transcendental, pois, se Kant descobre no conceito de Deus da prova ontológica o conceito racional de uma totalidade de predicados, ele recorre implicitamente também ao conceito genuinamente platônico de uma totalidade de determinação como protótipo dos fenômenos, que remonta a Platão pela mediação medieval.

2. Depois de esboçar nos traços essenciais a doutrina kantiana, Schelling começa com seu próprio programa dialético de desdobrar as determinações de todo ente a partir da ideia do ente.

3. Sem olhar para o ente determinado com que nós, como seres empíricos, lidamos cognoscitivamente no cotidiano, pode-se agora dizer que a possibilidade de que haja algo como a determinidade desse ente determinado é um momento da representabilidade, da objetualidade em geral.

4. Schelling mesmo, para esclarecer sua doutrina das potências, remete-se expressamente, entre outros lugares, na sexta preleção da Filosofia da Mitologia, à teoria platônica dos princípios na forma em que é apresentada no Filebo.

5. A referência histórica de Schelling contribui para a compreensão da notoriamente obscura doutrina das potências na medida em que torna claro que nela, como na teoria platônica dos princípios, se trata da dialética da determinidade do todo do ente.

6. Para poder formar o conceito do determinado não basta, porém, pensar a determinação predicativa sozinha, pois determinação é sempre determinação de algo.

7. Pode-se tornar claro o pensamento visado por Schelling com a primeira potência do seguinte modo: se queremos nos referir a todo o universo físico, que é um rebento da totalidade metafísica, com ajuda de uma teoria completa, e constatamos que pode haver mais de uma descrição teórica completa do todo, devemos ao menos assumir que todas as descrições completas possíveis são descrições do mesmo.

8. O segundo que descobrimos além da determinação é assim o ser originário, o meramente essente, o fundamento ontológico de toda predicação, que em cada juízo singular é parcialmente trazido a si, mas em si mesmo permanece sempre incognoscível e retraído, pois é como sujeito no sentido do hypokeimenon aristotélico a matéria em si mesma incognoscível de toda predicação possível, que em seu em-si permanece incognoscível porque sem forma, como Aristóteles mesmo se expressa: a matéria é incognoscível em si mesma.

10. Mostrou-se que o puro objeto, mais A, remete ao puro sujeito, menos A.

11. Se, porém, um pensamento de qualquer espécie pensa o ser do ente, deve pensá-lo em todo caso de modo que ele não seja mero momento de uma totalidade estrutural.

12. É falso identificar o ente com a terceira potência, do que Schelling expressamente se demarca.

13. A questão sobre o que é o ente se põe assim, após o esgotamento das posições possíveis do puro pensamento, de novo e de modo muito mais radical.

14. Para ainda impor um passo ulterior a todos os kantianos, deve-se dizer que Schelling reconhece no movimento das potências a passagem kantiana da razão da ideia ao ideal.

15. O pensamento que aspira a apreender a si mesmo como tal exige um fundamento ulterior de ser para a pluralidade das potências que remetem umas às outras, que em si mesmas não são já o ente, mas formam uma sequência de determinações compreendidas no trânsito, isto é, no devir.