5 Ideal transcendental da razão

GABRIEL, Markus. Der Mensch im Mythos: Untersuchungen über Ontotheologie, Anthropologie und Selbstbewußtseinsgeschichte in Schellings “Philosophie der Mythologie”. Berlin; New York: Walter de Gruyter, 2006. (Quellen und Studien zur Philosophie, Band 71).

I. A unidade de ser e pensamento na «Introdução Filosófica à Filosofia da Mitologia»

§5. A doutrina kantiana do ideal transcendental da razão pura e a passagem à doutrina das potências

1. Na fundamentação kantiana do idealismo crítico, Schelling vê um progresso importante em relação a Descartes, pois, enquanto Descartes tentara pôr a razão sobre si mesma de tal modo que todo conteúdo originário lhe fosse inicialmente negado ceticamente para só ao fim das meditações epistemológicas poder ser reconquistado, Kant teria mostrado, com um tratamento muito mais minucioso do problema do conhecimento, que a razão como tal se distingue justamente por seu avanço apriorístico sobre o todo.

2. A metafísica escolar, ou como Schelling a chama polemicamente de metafísica eclética, assumiu não apenas, mediada por Leibniz, conceitos fundamentais da metafísica escolástica, mas também e sobretudo a prova ontológica de Deus, que Descartes foi o primeiro na modernidade a declarar teorema central da teologia natural.

3. Ao se ater Kant em essência ao curso e à arquitetônica da metafísica escolar, ele retomou no curso de sua crítica das provas de Deus na dialética transcendental da Crítica da Razão Pura o conceito de ens realissimum, a totalidade de todas as determinações possíveis de coisas, e o submeteu a uma modificação ponderosa e fecunda para Schelling.

4. O ideal da razão pura é agora a função da determinação integral de todos os objetos possíveis, isto é, da ideia, hipostasiada em um ser singular, Deus.

5. Enquanto o conceito do ser absolutamente necessário era em Descartes em certo sentido casual, na medida em que cada um deveria ter a representação de um tal ser, mas esta não foi demonstrada como ingrediente necessário de uma subjetividade transcendental, Kant mostrou de fato que ao menos o conceito de um tal ser é necessário, embora com isso nada esteja ainda decidido sobre sua existência.

6. Schelling vê na formulação kantiana do princípio da determinação integral a possibilidade de uma leitura ontológica contra a vontade declarada de Kant.

7. Schelling, porém, não aceita mais que Kant um realismo metafísico acrítico que conta com a doação de uma efetividade plenamente constituída.

8. Schelling pretende com sua interpretação da doutrina do ideal transcendental superar Kant com os próprios meios de Kant.

9. Cabe portanto a Kant, segundo Schelling, o mérito de ter demonstrado que a razão tem o conceito do pantelos on, do ente no sentido enfático, como pressuposição necessária de todos os seus esforços, ao que Schelling se liga com sua própria doutrina das potências.