4.1 Limítrofe da consciência

FRANK, Manfred. Der unendliche Mangel an Sein: Schellings Hegelkritik und die Anfänge der Marxschen Dialektik. München: W. Fink Verlag, 1992.

IV A busca de Schelling por positividade imediata — A problemática da fórmula da identidade

1. Ainda não foi refutada a segunda objeção contra a crítica de Schelling ao círculo da reflexão, objeção de natureza fundamentalmente diferente da primeira, pois não duvida da utilidade de uma correção na tentativa hegeliana de reduzir a autoconsciência à reflexão, mas sustenta que ela fornece apenas um instrumento melhorado para a identificação de dois significados, e, se a possibilidade de tal identificação, como a Lógica da reflexão de Hegel a apresenta, deve ser fundamentalmente contestada, então o ser no significado de realidade independente da consciência precisa primeiro ser conquistado, sendo que a posição comprovada do imediato ser-junto-a-si constitui naturalmente o ponto de partida para a busca de um ser transreflexivo.

O passo para além da linha limítrofe da consciência

2. Schelling preparou o passo para além da linha limítrofe da consciência com argumentos conhecidos de Hölderlin e Sinclair, tendo-os elaborado, como aqueles, em uma crítica a Fichte, e muitas coisas indicam que se devem interpretá-los como um resgate posterior do estímulo recebido de Hölderlin e reprimido pela influência de Fichte.

3. O mérito válido de Fichte reside, para Schelling, em ter exigido primeiro que a ciência de todo saber parta do incondicionado, pois sem a reivindicação de uma evidência incondicionada cada uma de suas proposições assumiria o status de uma probabilidade que se despedaça em qualquer medida que lhe seja contraposta e tenderia a um ceticismo que por si mesmo teria de fracassar.

4. A intenção de Fichte não é de modo algum deixar o eu depender de algo situado fora dele, mas, ao contrário, rebaixa o que existe independentemente dele e fora dele, aquilo que parecia ser seu fundamento, para dentro de sua própria esfera e o transforma em seu produto, de modo que o em-si é ele mesmo algo produzido pelo eu, tão verdadeiro quanto só é enquanto posto como para-si.

5. A alternativa de Schelling parece tão simples quanto extravagante: se o em-si se volatiliza tão logo a reflexão quer agarrá-lo, então a reflexão deve ser posta fora daquele lugar a partir do qual ela objetiva o em-si, e deve-se buscar o em-si não fora de si nem a si fora dele, pois assim ele imediatamente deixará de ser apenas para si.

6. O pensamento de Schelling é melhor fundamentado do que a formulação acima sugere, pois, segundo seu argumento, tem-se no saber o caso de uma síntese de multiplicidade ou do congraçamento de unidade e diferença, mas nem uma análise dos termos relacionados nem da relação inteira consegue explicar o fundamento de sua indiferenciação a partir de um dos momentos ou de seu jogo sintético, e exatamente essa pretensão levantam, de modos diversos e em comum oposição a Hölderlin e Schelling, a primeira doutrina da ciência de Fichte e o sistema filosófico de Hegel.

7. Primeiramente, a primeira possibilidade da primeira alternativa deve ser aplicada a ambos os casos da segunda: seja o objeto pensado como determinando unilateralmente o sujeito, e, como o objeto não pode passar ao sujeito como ele mesmo, mas apenas por meio de seu efeito, o puro objeto como tal não pode de modo algum chegar ao sujeito, de modo que o objeto não penetra mesmo no saber, pois então, falando hegelianamente, o objeto seria feito verdade do sujeito e a consciência seria reificada e obscurecida, mas uma tal relação externa entre dois objetos subsistiria apenas para um sujeito que, portanto, teria de ser novamente pressuposto.

8. A relação consigo mesma não é explicável a partir da reflexão nem da mediação, e isso precisamente porque o momento da identificação dos termos relacionados, ou, como diz Schelling, esse vínculo de uma essência como uma consigo mesma enquanto muitas, subtrai-se sempre à própria relação.

9. Uma tal constatação não entrega automaticamente a filosofia a uma pressuposição que lhe seja transcendente, de modo algum, pois ela esclarece, sem ultrapassar a dimensão da razão, em evidência imanente, que tanto o subjetivo quanto o objetivo, como opostos ou ligados, só podem ser compreendidos a partir daquela identidade.