2 A estrutura orgânica do tempo

SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Les âges du monde: fragments dans les premières versions de 1811 et 1813. Tr. et postface Pascal David. Paris: Presses Univ. de France, 1992.

1. Não esperou a ideia de organismo pelas Idades do Mundo para ver-se conferida, na filosofia de Schelling, importância decisiva, ocupando já lugar de destaque no subtítulo de A Alma do Mundo de 1798, obra reeditada em 1806 e 1809: “Hipótese de física superior a título de explicação do organismo universal”.

2. Sendo, porém, radicalmente novo o atribuir caráter orgânico ao próprio tempo, e com isso a perspectiva sob a qual passa então a ser abordada a questão do tempo, inaugurando as Idades do Mundo — como seu título já bastante indica — problemática radicalmente nova do tempo no itinerário de Schelling, mostrando-se brevemente em que consiste isso ao se sublinhar, por contraste, algumas constantes dos primeiros escritos quanto à questão do tempo.

3. Tratando os primeiros escritos de Schelling paralelamente de espaço e tempo, como no clássico Sistema do Idealismo Transcendental de 1800, onde ambos são declarados “absolutamente inseparáveis”, sendo “a medida mais originária do tempo o espaço que um corpo em movimento uniforme percorre nele”, e a medida mais originária do espaço “o tempo que leva para percorrê-lo um corpo em movimento uniforme”, notando-se ser aqui o tempo abordado a partir da questão de sua medida, e nesse sentido predeterminado como mensurável, encontrando-se igualmente esse tratamento paralelo do tempo e do espaço em A Alma do Mundo de 1798, aparecendo aqui o tempo como homogêneo e quantitativo.

4. Falando ainda de bom grado Schelling, em seus primeiros escritos, de uma dedução do espaço e do tempo — expressão que não terá mais lugar nas Idades do Mundo —, tratando-se, por procedimento no fundo fichteano cujo caráter unilateral Schelling denunciará mais tarde, de deduzir espaço e tempo a partir do Incondicionado que é o Eu absoluto, chegando assim o Prefácio do Vom Ich de 1795 a censurar Kant por não ter “haurido de nenhum princípio” espaço e tempo, embora afirmando serem as únicas formas possíveis da intuição sensível, por ter pressuposto um princípio superior sem empreender remontar a ele.

5. Da dedução do espaço e do tempo às “idades do mundo” — quanto caminho percorrido! —, restando compreender por que as Idades do Mundo já não se propõem “deduzir” o tempo, ou por que os primeiros textos não se dão por tarefa deduzir a estrutura orgânica do tempo, tão importante aos olhos de Schelling a partir de 1810, quando a própria ideia de organismo não é de modo algum tida em pouca estima.

6. Tendo porém o tempo estrutura orgânica, e relevando por isso de um sistema, sendo em seu todo um sistema, nada tendo essa genealogia de simples cronologia, substituindo-se à ideia cronológica de sucessão a ideia genealógica de simultaneidade dos diferentes tempos, que coexistem como as folhas e os órgãos de uma mesma flor: o tempo não escoa, amadurece.

7. Questionando-se se há ou houve algo como um “começo do tempo”, parecendo essa questão, à primeira vista, prender-nos como numa tenaz entre duas contradições aparentemente tão insolúveis uma quanto a outra: ou se admite um começo do tempo antes do qual não havia tempo e que nem por isso deixa de estar no tempo, o que leva a conceber um tempo que a si mesmo precede e por isso mal é concebível, ou se declara que o tempo nunca começou, o que equivale a confundir o tempo com uma eternidade de duração.

8. Podendo, porém, o modo como se ajustam (no sentido etimológico da palavra “sistema”) os tempos humanos no cerne de sua disjunção servir de guia na investigação das idades do mundo, sendo mesmo o único guia de que dispomos, daí a dificuldade de composição — e para nós de leitura — de uma obra que justapõe a instância antropológica e a instância teológica, análises do tempo humano e considerações teológicas ou trinitárias, dificuldade que não deixou de ser sublinhada pelos comentadores de Schelling, observando um deles que, embora trate dos tempos cósmicos, dos χρόνοι αἰώνίοι, sua concepção do tempo parece repousar sobre a análise da temporalidade humana.

9. Não sendo, frente ao “grande tempo”, nosso sistema dos tempos senão “o tempo deste mundo”, o do Eclesiastes, segundo o qual não há “nada de novo sob o sol”, onde o que foi não é senão o que será, e o que será não é senão o que foi, interpretando Schelling esse célebre Nihil novum sub sole do Eclesiastes como próprio de um tempo determinado pelo sol e portanto próprio do tempo do mundo, o que supõe um tempo antes do mundo (o passado radical) e um tempo depois do mundo (o porvir radical).

10. Questionando-se, porém, por que precisamente intitular Idades do Mundo esse sistema dos tempos que se pretende genealogia do tempo, deixando-se, antes de abordar essa questão, que Schelling diga o que a estrutura orgânica do tempo representa e o que promete: tendo o assunto aqui tratado sido sempre contado entre os mais obscuros, e tendo embora a convicção de ter projetado sobre ele luz nova e de ter dado resposta a questões que mal se ousava levantar, tendo-se essas ideias por tudo menos acabadas ou completas, reservando ainda tal assunto muitas maravilhas capazes de completar o que apenas foi aludido e de lhe dar relevo mais tocante.