5 Caminhada

Clara oder über den Zusammenhang der Natur mit der Geisterwelt: Ein Gespräch. 1861

Caminhada de Início da Primavera

1. Ainda no limite entre o inverno e a primavera, escolheu-se um belo dia para subir até a velha capela no bosque.

2. No caminho, Clara contou que os pescadores lhe haviam dito que o lago mostrava sinais de primavera, diminuindo a oscilação das águas e reaparecendo aves aquáticas que desaparecem no inverno, confessando ter ansiado ver o lago durante todo o inverno, pois tanto se falara da vida dos espíritos tendo sempre diante de si a imagem do lago, não sendo à toa que os antigos situavam a morada dos bem-aventurados em ilhas cercadas de água, ao que o médico observou parecer-lhe natural essa associação, sendo o rio antes imagem da vida real, que arrasta a imaginação para uma distância sem medida, como para um futuro longínquo, e o lago imagem do passado, da quietude eterna e do isolamento.

3. Confessando Clara restar-lhe ainda um desejo insatisfeito diante dos discursos anteriores sobre lugares e regiões no invisível — inclusive aquele lugar mais alto ao qual poucos chegam imediatamente após a morte —, pediu que se fizesse ao menos uma ideia desse verdadeiro céu, sendo enigmático chamá-lo de “lugar” e questionando se os espíritos também podem estar em um lugar, respondeu-se tratar-se de um dos assuntos mais enigmáticos, fundado no mistério do lugar e do espaço em geral, ao qual não se pode deixar de dar fundamento real, devendo-se considerar que nós, como todos os seres criados, não podemos ser eternamente por nós mesmos, sendo antes concebidos em algo distinto que também compreende todos os demais seres, chamando-se a isso “lugar”, tal como muitos disseram que o próprio Deus seria o céu e o lugar dos espíritos, ou sua glória o seria.

4. Confessando Clara que, após esse discurso, lhe vinha à mente, quase como ideia infantil, a ocorrência de buscar a futura morada em alguma das incontáveis estrelas, e questionando se não ajudaria muito nessas questões mais altas ter maior certeza quanto ao mundo estrelado além da terra — pois mesmo aqui se elevam com segurança as ideias do visível ao invisível, não podendo determinar-se nada sobre o mundo dos espíritos sem antes conhecer os limites do mundo visível —, objetou o médico não ser essa conclusão de todo clara, pois conhecer limites importa para coisas que se fundem umas nas outras, mas parece irrelevante para coisas completamente opostas, respondendo-se duvidar sempre que natureza e mundo dos espíritos sejam tão opostos na realidade quanto conceitualmente, sendo o mundo dos espíritos, antes de tudo, um mundo tão real quanto este, e não meramente ideal, concordando o médico, e observando-se que, embora a maioria considere o espiritual menos real que o corpóreo, já esta natureza subordinada exibe muitas coisas espirituais tão reais e físicas quanto as habituais, tendo-se afirmado que ao espiritual segue-se o físico após a morte, devendo por isso aquele mundo distinto ou espiritual ser, em sua própria forma, tão físico quanto este mundo presente é, em sua própria forma, espiritual.

5. Alegrando-se Clara com essa formulação e perguntando por que não fora dita antes, pediu vivamente que se dissesse o que se supunha físico naquele outro mundo, respondendo-se que, assim que alguém dissipasse a ignorância acerca deste céu visível, tentar-se-ia dirigir os olhos do espírito ao invisível, ao que Clara observou não parecer tão grande essa ignorância, sendo a astronomia ciência tão apreciada por especialistas quanto por amadores pela sua certeza e importância, respondendo-se que talvez a culpa não estivesse na ciência mas em si mesmo, possuindo, como o artista, um protótipo interno que guia o assentimento, aceitando o que a ele se ajusta por mais inacreditável que pareça e rejeitando o que ele recusa por mais provado que esteja, não tendo para si a mínima probabilidade o que os astrônomos dizem ter descoberto, nem tendo ninguém descoberto o que lhe parece intrinsecamente provável, pedindo então Clara que se compartilhasse o que lhe parecia provável e o que lhe parecia improvável no que geralmente se assume, ao que se respondeu que se poderia tentar, mas apenas quando estivessem no alto.

6. Chegando a um ponto de onde se avistava pela primeira vez todo o lago, contemplou-se por longo tempo a bela vista da região ressuscitante, com o ar quieto, o céu azul refletido na água, os pássaros planando sobre a superfície, a ilha coberta de verde esperança, a relva jovem germinando nos montes e vales, os brotos verdes nas árvores novas, mantendo distância da primavera apenas os carvalhos, faias e outras árvores velhas e fortes, caminhando depois lentamente até a velha capela, onde não se demoraram por estar ainda fria e úmida, subindo enfim até a orla do bosque, onde se sentaram na folhagem, Clara de frente para a paisagem, os demais aos lados, espalhando-se as crianças em busca de violetas.

7. Retomando o pedido do médico, iniciou-se então uma longa confissão pessoal, na qual se narrou que, na juventude, tudo era entendido literalmente, crendo-se que o sol e as estrelas estavam realmente num lugar mais alto e maravilhoso, e que Deus e as almas dos devotos estavam literalmente no alto, até que, crescendo, ensinou-se que “acima” e “abaixo” eram meros conceitos relacionais, não havendo em parte alguma senão profundidade inconmensurável e um simples “abaixo”, desaparecendo por completo um céu como lugar mais alto e excelente, restando apenas mundos, cada qual com seu próprio “abaixo” em relação a um sol, e estes por sua vez arrastados a corpos ainda maiores, mareando-se com os números enormes e as dimensões incríveis, embora compreendendo que os conceitos cotidianos de “acima” e “abaixo” se regem pela gravidade, sem poder por isso deixar de crer num verdadeiro “acima” e “abaixo”.

8. Notou-se então uma mulher que caminhava entre as árvores junto à igreja, parecendo buscar a caixa de ofertas, subindo depois em direção ao grupo, hesitante ao avistá-los, mas recompondo-se e reconhecendo-se nela a esposa de um tendeiro de um povoado a três horas dali, perguntando-lhe o que a trazia ali, e obtendo resposta somente após insistir-se que percebera sua oferenda embaixo.

9. Contou então a mulher, num longo relato, que no ano-novo passado seu filho mais jovem, o preferido do pai, caíra em febre perigosa estando ela sozinha e desesperada, temendo a reação do marido ausente no mercado, até que um vizinho a aconselhou em segredo a fazer um voto a Santo Walderico, que já ouvira muitos votos e realizara verdadeiros milagres, contando-lhe várias histórias e como o próprio vizinho fora ajudado por esse santo, questionando ela, protestante, de onde viria a ideia de fazer voto a santo católico, mantendo-se firme apesar da insistência de outros, até que uma pessoa lhe disse que seu marido, se ali estivesse, faria o mesmo, tocando-a isso profundamente.

10. Respondeu-se que certamente Deus a ajudara, pois vê dentro do coração, devendo ela ir confiante para casa e saudar marido e filhos, tocando a história profundamente a todos, permanecendo em silêncio antes de partir, comentando-se então quão agradável é encontrar algum tipo de fé nesta época, sendo a fé importante para tudo, do menor ao maior, fazendo sua falta retroceder cada vez mais os assuntos humanos.

11. Questionou Clara se não se deveria supor que espíritos venerados há muito em certos lugares se tornam espíritos protetores dessas regiões pela magia da fé, sendo natural que aqueles que primeiro trouxeram a luz da fé àqueles bosques, plantando vinhas e trigo, tornando-se criadores de vida mais humana em regiões antes selvagens, tomem parte ativa no destino dos países e povos que construíram e uniram numa mesma fé, não esquecendo os pais no céu seus filhos na terra, comovendo-a a imagem de um povo com santo protetor a quem recorrer nos apuros.

12. Observou o médico que também a localização esconde seu próprio segredo, sendo certas doutrinas e visões de mundo nativas de certas regiões, mesmo pequenas, desde o início do pensamento humano, sendo mais constante em algumas regiões até mesmo aquele órgão mais alto que nesta vida se dá apenas como fenômeno passageiro, como a chamada “segunda vista” das terras altas escocesas, tendo os oráculos antigos estado ligados a regiões e lugares determinados, devendo-se concluir que o locativo não é tão contingente em relação ao mais alto quanto comumente se considera, sentindo-se em cada região certa presença espiritual que atrai ou repele, valendo o mesmo para determinados períodos de tempo.

13. Comentou-se quanto nos surpreenderíamos se não estivéssemos acostumados a considerar apenas o exterior das coisas, notando que circunstâncias tidas por causas eram simples meios e condições, ocupando-se os espíritos de nós, quase sem o suspeitarmos, levando-nos à felicidade ou à desgraça conforme o espírito seguido.

14. Perguntou Clara por que é tão estranho e difícil que se abra o interior do ser humano de modo a mantê-lo em constante relação com um mundo mais alto, respondendo-se que se passa o mesmo que com os demais dons repartidos por agrado e não por mérito, através dos quais Deus eleva constantemente o baixo e o desprezado, havendo porém um segredo especial que a maioria não quer conhecer: tal dom nunca se concede a quem o deseja, sendo a serenidade e a tranquilidade de espírito a primeira condição para alcançá-lo, tendo-se conhecido pessoas espirituais que jamais deixaram descansar a imaginação tentando vincular-se por êxtase aos entes queridos falecidos sem nunca serem atendidas, ao passo que os simples e piedosos, sem nada tentar, foram considerados dignos de aberturas do outro mundo, considerando-se por isso bom e justo o preceito de que o homem nunca deve buscar vínculo com os espíritos.

15. Observou Clara que todo desejo intenso é repreensível, não parecendo possível ter tal desejo sem essa intensidade, questionando se não deveríamos observar mais frequentemente aos defuntos a mesma sensibilidade devida aos vivos, pois quem sabe participam de nós mais profundamente do que pensamos, podendo a dor excessiva e o excesso de lágrimas perturbá-los.

16. Saindo então das árvores junto à igreja, estendeu-se novamente diante deles toda a região em suave transfiguração.

17. Após um momento de silenciosa contemplação, questionou Clara de onde vem a profunda devoção pela terra, independente de todo o gozo chamado felicidade terrena, consistindo numa apreciação plena do escasso valor desta vida, e por que, mesmo convencidos de que o outro mundo supera em muito o presente, existe ainda assim a sensação de que é difícil separar-se desta terra, e se não sentimos secreto horror a essa separação por nós mesmos, se o sentiríamos pelos outros.

18. Reconheceu-se nesse traço humano a sabedoria da mão que o pôs em nossa alma, pois mesmo reduzindo a estimativa desta vida à sua justa medida, abriga-se em privado o sentimento de que devemos à terra certa devoção, permanecendo ela sempre próxima ao coração não apenas como mãe mas por partilhar conosco destino e esperança, pois se o Eterno não nos tivesse negado a visão inevitável da outra vida, quem suportaria o tempo aqui fixado sem tentar partir mais rapidamente desta vida sem segurança nem satisfação reais, crendo-se ser intenção divina que, mesmo após a morte, reste no ser interior do homem certa simpatia pela terra da qual fez parte, sentindo-se realmente essa separação, pois de outro modo a morte não seria morte, estando esse sentimento arraigado no mais profundo de nosso ser, pois Deus sabe aproveitar melhor que os filósofos a solidez e a rudeza que deixamos na terra.

19. Observou o médico que rebaixar a terra a nível tão moderado parece também mudar certas concepções religiosas, respondendo-se discordar, pois, embora a terra tenha sido expulsa de sua posição central, sendo intenção divina que o interno se represente tanto quanto possível no externo, ambos os pontos extremos — o mais puramente interior e o mais corpóreo e exteriorizado — são mais ou menos igualmente importantes, podendo imaginar-se a criação viva e contínua como uma rotação em que o corpóreo se eleva constantemente ao espiritual e o espiritual desce ao corpóreo, até que ambos se fundam, alcançando essa rotação seu verdadeiro propósito somente quando o mais elevado e espiritual houver descido ao mais corpóreo e o mais baixo e grosseiro se houver elevado ao mais espiritual e transfigurado, tornando-se necessária, nos limites mais extremos do mundo onde o crescimento da criação passa à massa sólida, a aparição do mais puro e espiritual, e inversamente o que provém do mais baixo e grosseiro — o homem — deve ser elevado, segundo seu destino final, à mais alta espiritualidade, não podendo a criação descansar até que o superior tenha retornado ao mais baixo, valendo também aqui que os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.

20. Concordando em geral com isso, observou o médico não se poder afirmar que a terra seja o ponto mais baixo e corporal de todo o universo, sendo isso até improvável segundo todo o conhecimento disponível, podendo supor-se que a natureza dos planetas se liberte do corporal, especialmente os mais afastados do sol, ou apegar-se às análises de densidade dos astrônomos, mas em nenhum caso representando a terra um extremo, respondendo-se não ser a ideia que aquele ponto extremo recaia sobre um único planeta, mas ser inegável que os planetas mais baixos compõem a região onde a corporalidade impera sobre tudo, convencendo disso o próprio ser humano, no qual mesmo a essência mais passageira e delicada está unida a elemento espesso e duro, encontrando-se por isso tão alto na escala das criaturas, podendo compreender-se por que foi favorecido frente àquelas criaturas que Deus criou de si mesmo sem tomar material, ou apenas da parte mais delicada deste, rapidamente completadas.

21. Observou Clara que nessa relação ocorre o mesmo que na obra de arte, recebendo também aqui o delicado ou espiritual seu valor mais alto somente ao reafirmar sua natureza misturando-se a elemento resistente e até bárbaro, nascendo a beleza mais alta apenas onde a suavidade se torna soberana da violência.

22. Recordou-se ter ouvido de um visionário nórdico que o Senhor quis nascer nesta terra em honra à Palavra, pois somente aqui pôde ser reproduzida materialmente, escrita e conservada, sendo improvável que em outro corpo mundano se desse gênero de seres racionais tão ativa e variadamente unidos por tratos, idiomas, leis, guerra e paz como o gênero humano.

23. Replicou o médico que, mesmo tomando a questão exteriormente segundo relações numéricas, não deveria ser impossível encontrar de uma vez por todas o lugar da terra, confessando-se convencido, por secreta intuição, de que a terra deve ter explicação especial entre os demais planetas, mesmo prescindindo da crença de ter sido palco da revelação divina mais perfeita, parecendo-lhe insuficientemente científicas ou fundadas em suposições artificiais as tentativas feitas até então de encontrar lei para a ordenação dos mundos.

24. Sugeriu-se voltar à antiga forma de contar e ao número sagrado, nada impedindo que fosse continuamente superado por descobertas posteriores, assumindo-se um septenário que se repetisse, ocupando a terra o lugar intermediário após ter estado no mais baixo, parecendo justificadas as maiores expectativas de uma essência que se eleva de profunda noite a luz igualmente alta, aproximando-se de transformações contra as quais nem os maiores acontecimentos de sua vida interior e exterior no mundo atual entram em consideração, destinada, como Deus, a conciliar em si os extremos finais da existência.

Primavera

25. Ó Primavera, tempo de anseio, evoca-se com que vigor pela vida se preenche o coração, atraindo por um lado o reino dos espíritos ao sentir-se que só naquela interioridade mais alta existe a verdadeira bem-aventurança, chamando por outro, com poderosíssimo feitiço, a natureza o coração e os sentidos de volta à vida exterior, lamentando-se não bastarem nem o interior nem o exterior por si sós, sendo tão pouco capazes de uni-los, sendo no fundo uma só e mesma vida sob formas distintas, questionando-se por que essas duas formas não poderiam existir ao mesmo tempo e por que não poderia ser destino de uma vida indivisa desde o princípio, admitindo-se que por culpa do próprio ser humano ambas foram separadas, sem se ver outra explicação, questionando-se se nunca existirão simultaneamente, se estão separadas para sempre, se não chegará o momento em que o interior esteja completamente encarnado no exterior e o exterior completamente transfigurado no interior, representando ambos uma só vida indestrutível.

26. Assim mais ou menos falou Clara, nos primeiros dias da primavera, sobre a colina de onde avistava a amada terra de sua pátria, transformada a extensa planície num mar de flores e fragrâncias, flutuando tudo com renovado vigor e encanto, sendo um daqueles momentos em que, tomados pela onipotência da vida na natureza, pareciam gozar de uma presença eterna que nenhuma dor podia ferir.

27. Após breve silêncio, prosseguiu pedindo que não se surpreendessem com seu discurso repentino, pois, havendo falado amiúde sobre as coisas vindouras, não descansaria até penetrar com o pensamento no objetivo de todos os tempos, tendo a primavera provocado nela esses brotos de ideias e esperança, tornando-se-lhe novamente claro e penetrando-lhe o coração que somos filhos da natureza, pertencendo a ela por nosso primeiro nascimento e jamais podendo separar-nos dela por completo, de modo que, se ela não pertence a Deus, tampouco nós podemos pertencer-lhe, e se ela não pode tornar-se una com Deus, nossa união com Ele deve ser imperfeita ou de todo impossível, anelando não só nós mas toda a natureza pelo Deus de quem foi originalmente tomada.

28. Respondeu-se que, mesmo assim, para compreender aquela elevação e aperfeiçoamento da matéria, dever-se-ia partir da condição de sua humilhação e imperfeição, considerando as características pelas quais a matéria agora parece e verdadeiramente é oposta ao espiritual, para compreender aquelas pelas quais um dia se tornará uma só e mesma essência com o espiritual.

Esquema

29. Realidade do mundo dos espíritos, do passado; perfeita humanidade dos espíritos.

30. Diversidade; suas ideias; a clarividência em geral.

31. Em particular, em que consiste; contraste com a ciência: tudo imediato, nada mediato; talvez algo sobre a gradação das ciências entre si; tudo em sentimento imediato.

32. Sem luta; a paz duradoura; também o pecado se foi.

33. Sem lembrança das coisas enquanto ausentes; sem passado.

34. Profundidade da comunhão da última parte.

35. Sobre se a condição da clarividência é aplicável à condenação, ou se não há condição intermediária entre a bendição e a desgraça.

36. Acerca do onde.