Clara oder über den Zusammenhang der Natur mit der Geisterwelt: Ein Gespräch. 1861
1. Desde o retorno de Clara, notava-se nela um vivo e quase inamovível desejo de falar sobre os elementos do outro mundo, tendo os acontecimentos do tempo, que deixavam entrever um futuro ainda mais sombrio, unidos à dor particular que a afligia, retirado daquela bela alma o tranquilo sossego antes conhecido, transformando-se a dor pelo passado num anseio inexprimível pelo futuro, havendo algo violento em seu esforço de ir além da natureza e do real.
2. Observou-se que nem sempre se trata com suficiente indiferença o conhecimento, existindo em nós conceitos que nos afetam e trazem consequências sobre a vida, transformando-se para muitos um conhecimento contrariado por sua condição moral num veneno que os enfurece ou os faz explodir horrorosamente pela desagradável excitação da massa impura que neles reside, tendo-se visto alguns murcharem na tendência a certo conhecimento para o qual ainda não estavam preparados, exigindo talvez cada natureza seu próprio discernimento temperado.
3. O médico manifestou crer que a amiga estava presa a um processo em que apenas se deveria suportar bem a crise e conduzi-la a um destino saudável, tendo o ocorrido golpeado duramente as ideias que até então possuía, despertando-se nela inconscientemente algo adormecido, não bastando mais sua concepção atual para um ânimo movido em seu mais profundo, não descansando até criar para si um mundo novo condizente com a grandeza de suas sensações, nada se detendo aí arbitrariamente, tomando-se como garantia o vigor de sua própria natureza.
4. Entre seus papéis, encontrou-se após sua morte, como prova de uma ocupação precoce com o pensamento da morte e do futuro, mas também de um sossego tranquilo e de uma alegria serena a esse respeito, uma folha escrita pela mão terna de uma jovem moça, infelizmente apenas um fragmento, do qual nada mais restava.
5. Chegando no dia seguinte, um belo dia de verão tardio, para buscá-la para um passeio, ela insistiu em tomar um caminho que levava a uma espécie de vale estreito entre duas colinas, até um ponto onde havia duas trilhas separadas.
6. Já no caminho, Clara declarou sentir-se melhor naquele triste valezinho, que o outono pouco lhe pudera roubar, conservando o calor do sol e quase fazendo crer que ainda estava em seu bom tempo, notando o tomilho perfumado que ainda se abria e as sempre-vivas que esboçavam com seu azul débil a pálida cor da lembrança, supondo-a planta venenosa, pois ali estaria em toda parte o fim, e o que a natureza tinha no princípio deveria mostrar-se certamente no último, parecendo esconder em si um voraz veneno sem, no entanto, compartilhá-lo com seus próprios filhos; ao que o médico replicou parecer-lhe injusta a queixa, pois se ela sofre de um veneno oculto que gostaria de vencer mas não pode, chora conosco calada, falando apenas por sinais, havendo quieta nostalgia em certas flores, no orvalho da manhã e na palidez das cores do entardecer, mostrando-se terrível apenas de forma passageira antes de retornar aos limites usuais; ao que Clara respondeu não saber por que lhe parecia haver uma doce dor no aroma de certas flores, como se essa mesma dor fosse a causa de seu perfume.
7. Acrescentou-se que todo o ser da natureza atesta não estar ela voluntariamente submetida a essa situação, anelando antes ser redimida pela transitoriedade, sendo justamente essa necessidade interna que ao final tudo destrói, tanto mais espantosa quanto mais quieta, o que aterroriza na natureza, questionando-se de onde viria essa força universal e interminável da morte, sendo fraco auxílio dizerem os filósofos que nada em si desaparece; ao que o médico respondeu que essa terrível realidade da morte não dá ao homem direito algum de culpar por ela a natureza, devendo antes culpar-se a si mesmo, exclamando Clara surpresa diante de tal ideia.
8. Prometendo esclarecer a ideia por meio de perguntas, o médico conduziu Clara, mediante diálogo socrático, a reconhecer que a natureza, sendo essencialmente uma força criadora que por si mesma nada pode destruir, satisfaria sem cessar, livre e independente, o puro deleite de criar, abandonando ou destruindo intencionalmente apenas o material que, renitente, limitasse esse desejo criador até certo ponto, para gozar sem cessar do deleite de criar, mesmo sabendo que voltaria a encontrar o mesmo obstáculo numa criação nova; assim, o motivo da destruição não residiria na força criadora mesma, mas em algo alheio a ela, numa inibição ou limitação vinda de fora, não podendo tampouco Deus, segundo sua própria natureza, ser criador da morte, pois também para Ele, em sentido ainda mais alto que para a natureza, o deleite estaria em criar e formar, não em aniquilar e destruir, restando então, além de Deus e da natureza, apenas o ser humano como ponto intermediário entre ambos os mundos, o mundo natural e o mundo dos espíritos.
9. Ouvindo esse discurso, chegou-se ao fim do caminho, onde Clara, parecendo cansada, sentou-se num banco de pedra, projetando-se então, ao virarem-se, a sombra de um lado do pequeno vale contra a intensa iluminação do outro, realçando a impressão das irregulares massas rochosas de onde brotava um denso matagal de folhas outonais avermelhadas e douradas, deixando o vento cair suavemente uma folha murcha de macieira sobre o colo ou os cabelos de Clara, sem que ela parecesse notar, lembrando-se então de como diferentemente se sentara sob aquelas mesmas árvores na primavera anterior, quando ainda floridas.
10. Retornando o médico, que subira à margem para colher algumas bagas adoçadas pelas geadas outonais, Clara voltou-se para ele dizendo que lhe dera a explicação que buscava, pois há muito pressentia existir uma relação mágica entre o ser humano e a natureza, apontando por isso os olhos de todas as criaturas para ele, como se tudo nele estivesse calculado, recriminando-o com suspiros silenciosos ou lançando-se sobre ele como inimigo comum, sendo com razão que todas as flechas da natureza se dirigem a ele, que o ataca o vento frio e destruidor de um lado e o vento ponzoñoso do deserto de outro, que suas moradas desabam sobre ele nos terremotos e que a tempestade de fogo devasta seus trabalhos, tendo a força destinada a desenvolver-se no animal se transformado, reprimida em seu interior, em cólera ardente ou veneno, voltando-se com razão sobretudo contra o ser humano.
11. Interrompendo-a, o médico pediu que se considerassem também as muitas forças bondosas e benéficas da natureza, que não esquecera que através do ser humano deveria ser novamente erguida e libertada, nem que nele ainda reside o talismã de sua redenção, retribuindo-lhe com exuberante abundância quando ele semeia a terra e a torna mansa e úmida, parecendo seu sentimento essencial para com o ser humano antes amistoso e frequentemente compassivo.
12. Clara replicou que, ainda assim, a natureza passa insensivelmente por cenas de miséria e desespero, como a pobre criatura febril que anseia por uma brisa fresca enquanto o sol despiedadamente concentra o calor sufocante, ou o desterrado que deixa sua casa chorada por mulher e filhos, sobre cuja cabeça descoberta o céu envia chuvas, tempestades e granizo.
13. O médico interrompeu novamente para observar que o infeliz estaria mais de acordo com a natureza nesses casos do que quando ela o agracia com ar fresco e belos entardeceres, podendo enganar-se quem cria que a natureza zomba de seus dias felizes, pois em seu grande desenvolvimento voltado ao geral raramente toma parte na sorte de um indivíduo, embora as grandes mudanças que afetaram povos inteiros talvez não pudessem ter ocorrido sem ação simultânea de toda a natureza, estando os livros de história cheios de relatos de signos no céu, no ar e na terra que presagiaram tempos fatídicos, falando tudo e querendo fazer-se compreender, favorecendo muitas coisas ao ser humano com a evidente intenção de anunciar-lhe seu futuro próximo, desde que ele queira escutar.
14. Concordando ser isso tremendamente certo, Clara acrescentou que tudo apremia hostil ou amistosamente o ser humano, tudo o busca e quer apoderar-se do que lhe pertence, não resistindo ele ao brilho encantador do ouro, nem às tentações do mundo, nem à atração da beleza terrena, nada o deixando indiferente, tudo o movendo.
15. Replicou o médico que isso se dá porque o ser humano deveria mover tudo, não se conscientizando da força que existe em seu interior, com a qual poderia dominar tudo e libertar-se de tudo, sendo a indolência e o tédio os maiores inimigos do ser humano, consequências daquela primeira queda, pois quem não se possui a si mesmo logo é possuído por outra coisa, e quem não quer avançar, afunda, consistindo o mal ainda hoje num desenvolvimento retrógrado da natureza humana que, em vez de elevar-se em seu próprio ser, depende sempre daquilo que deveria ser apenas condição de sua atividade e base imóvel de sua vida, originando-se a doença do tédio, daquela força individual de não querer avançar com o todo nem extinguir-se com ele, mas permanecer arbitrariamente à parte, devendo-se trabalhar contra essa condição mais que contra qualquer outra, pois o ser humano que sente não está perdido, sendo Deus quem ativamente o ajuda e muito lhe perdoa.
16. Clara declarou conhecer aquela força interior que, ao erguer-se, recua, sabendo que pode elevar-nos acima de tudo o que é exterior, mas sabendo também, muitas vezes antes mesmo de errar, em que contradição com o mundo exterior se envolve o ser interior mais desenvolvido.
17. Respondeu o médico ser isso também consequência necessária daquele primeiro afundamento, pois, uma vez determinado este mundo como mundo exterior, tudo o que é alto e divino pode elevar-se dele como a flor se eleva da terra, havendo porém algo alheio a ele, do qual o mundo não é mais que recipiente sem poder assimilá-lo em si mesmo, preocupando-se a lei reinante apenas com a conservação desse substrato, sendo tudo o mais contingente para ela.
18. Clara acrescentou ser sobretudo o ser humano contingente para a natureza, não sendo a necessidade mais sagrada de seu interior lei para ela, tomando na natureza até a necessidade divina a cor e a aparência da contingência, e o que a princípio era contingente atuando, uma vez presente, com o poder incontrastável de uma necessidade terrível, desejando que fosse possível manter livre dessa contradição o próprio interior, mas manifestando ela justamente aí seu maior poder, obrigando-nos a desconfiar do sentimento mais terno do coração, não amando os seres humanos sem serem castigados, podendo a lei do interior exigir ações que todo coração sensível deveria abominar, bastando as coisas mais simples e irrefutáveis para comprovar que coisas terríveis não apenas ocorrem e ocorrerão, mas devem ocorrer.
19. Respondeu o médico ser certamente dever reconhecer isso, não adiantando desviar o olhar nem fechar os olhos, devendo-se lamentar como humanos o ocaso das coisas mais belas e amáveis do mundo, mas ao mesmo tempo contemplar cada um desses casos com uma espécie de silenciosa alegria, por conterem confirmação da ideia que se deve fazer deste mundo e o sinal mais imediato de outro mundo mais alto, sendo a maioria mais feliz, mais livre do vão anseio e capaz de suportar e abandonar a vida com maior facilidade, se tivesse sempre presente que aqui tudo o divino não é mais que aparência, não realidade, não sendo livre nem mesmo o espiritual, mas atuando apenas sob certas condições, havendo aqui e ali flores e frutos, mas não troncos nem raízes.
20. Observando Clara que a maioria, ou talvez todos, dizem isso mesmo, respondeu o médico que, embora o digam, pensam que a situação poderia ser diferente e culpam o homem, querendo com isso separá-lo de toda relação com a natureza, confundindo-se por isso em seus sistemas, opiniões e doutrinas morais.
21. Clara confessou ter pensado muitas vezes que a consideração da liberdade verdadeira, não da chamada liberdade, mas da real, seria insuportável para os homens, mesmo para aqueles que constantemente dela falam e muito a apreciam, comprazendo-se em determinar suas ações segundo razões e princípios e pintando essa servidão do coração como liberdade, parecendo-lhe esse tipo de liberdade o mais inferior de todos, lembrando o dito de uma amiga de que o céu é a liberdade, devendo esta, se assim é, ser ilimitada, absoluta e divina.
22. Concordou inteiramente o médico, afirmando que a maioria dos seres humanos teme a liberdade tanto quanto teme a magia, o inexplicável e sobretudo o mundo dos espíritos, sendo a liberdade a verdadeira e real aparição do espírito, perante a qual o ser humano se rende e o mundo se submete.
23. Voltando-se novamente para o sol já quase inteiramente posto, Clara pediu que se voltasse o olhar para aquelas regiões, pois naquele momento lhe estava mais próximo o elevado e sagrado reino dos espíritos do que a natureza, o mundo e a vida, caminhando todos em silêncio até acompanhá-la pela pequena rua até a outra porta, chegando enfim à sua casa.