0 Introdução

Clara oder über den Zusammenhang der Natur mit der Geisterwelt: Ein Gespräch. 1861

1. Desde a dissolução da harmonia pacífica em que até pouco tempo viviam juntas as ciências, a filosofia passa a caracterizar-se por uma intensa tendência ao espiritual, à qual corresponde uma decidida incapacidade de a ele efetivamente se elevar.

2. A antiga metafísica declarava-se, por seu próprio nome, uma ciência ligada ao conhecimento da natureza e dele em certo ponto derivada, ao passo que a filosofia mais recente suprimiu essa referência imediata à natureza, recusando orgulhosamente toda conexão com a física e tornando-se, sob pretensão de um mundo mais alto, não mais metafísica, mas hiperfísica, revelando-se agora sua completa incapacidade de alcançar o fim a que se propusera, por ter-se despojado justamente do material indispensável ao processo, conservando desde o início apenas o espiritual.

3. Justamente no momento em que a filosofia pretendeu sua maior aproximação ao espiritual, afundou-se mais profundamente e tornou-se cada vez mais insuficiente e incapaz diante dos objetos mais altos, sendo esse resultado, uma vez reconhecido, usado para levar a espiritualização a um grau ainda maior.

4. Nesse estado de coisas, não havia outro meio de restaurar a filosofia senão chamá-la de volta à terra, não a partir do céu a que renunciara, mas do espaço vazio em que permanecia suspensa entre o céu e a terra, o que se deu por meio da filosofia da natureza, sendo de esperar que os espiritualizadores da época clamassem que esse começo afundava a filosofia e negava tudo o que é espiritual, santo e divino.

5. A natureza foi desde o princípio explicada apenas como uma parte do universo, sendo o mundo dos espíritos explicado como a outra parte, a ela oposta, de modo que a filosofia da natureza sempre se apresentou como um único lado de um grande todo, cabendo à filosofia explicar cientificamente a contradição e a conexão entre a natureza e o mundo dos espíritos.

6. Errariam os adeptos de ambas as filosofias se pensassem que o mundo do espírito seria trazido a um conhecimento imediato ou reduzido a meras palavras, pois a intenção expressa é somente mostrar cientificamente a transição da esfera da natureza à esfera do mundo dos espíritos, partindo-se da natureza tal como, no âmbito físico, foi possível unir terra e céu pela lei da gravidade.

7. Cabe aos espiritualizadores negar semelhante crescimento da natureza rumo ao mundo dos espíritos, o que certamente farão, mas, a menos que neguem quase completamente a existência de um mundo dos espíritos, terão de admitir que a natureza está subordinada a esse mundo, subordinação essa que possui em algum ponto seus limites e seu fim determinado em relação ao mais alto, não podendo o subordinado encontrar seu objetivo e completar-se sem que aquilo que o gera a partir de si mesmo vá além dele, estando o mais baixo, como degrau, em relação natural com o mais alto.

8. Antes de formular as queixas habituais contra essa empreitada, seria necessário provar a existência de um abismo entre a natureza e o mundo puramente espiritual, tal como se supõe, ou então refutar as provas de que entre ambos existe uma conexão natural, reconhecendo-se que todo saber não gerado puramente a partir do que é presente e real deve ser considerado saber superficial, conducente à ilusão e ao erro.

9. Aventura-se, sem dúvida, em tudo aquilo que permite a consciência de uma base segura, podendo-se assim explicar as coisas mais altas com maior certeza do que até então fora possível, sendo que uma pessoa conquista o direito aos objetos mais espirituais somente depois de haver devidamente reconhecido seus opostos.

10. A consciência dos meios científicos exigidos pela natureza do procedimento garante que nunca se ponha em jogo algo estranho ao essencial ou que possa, de algum modo, conduzir por mau caminho.

11. Raramente se encontrarão neste tratado voos de imaginação ou os discursos ligeiros sobre a imortalidade da alma que costumam agradar tanto a escritores quanto ao público, não se pretendendo gerar opinião nem alimentar ilusões, que sempre surgem da deficiência ou insuficiência da ciência.

12. Não se deveria suspeitar daqueles que buscam a certeza do conhecimento nos objetos mais espirituais de criarem ilusões, mas antes daqueles que se opõem a essa certeza, mesmo sob o pretexto de possuírem um sentido superior a toda ciência, originando-se a incredulidade quando a superstição ignora completamente a conexão natural das coisas e sufoca o divino que se agita no interior sob a massa do natural, sendo impossível que uma crença que sucede a uma incredulidade inicial, partilhando com ela o mesmo ponto de partida, seja uma crença verdadeira.

13. Os verdadeiros fantasistas, ainda que apenas quanto à forma, são certamente aqueles que consideram o mundo da ciência um grande espaço vazio onde cada um pode imaginar livremente o que quiser, não tendo ideia de como retornar ao princípio e construir algo legitimamente, a ponto de não possuírem sequer o que seria necessário, por exemplo, para transcrever uma página de um livro em idioma estrangeiro, como saber se se deve começar pela esquerda, como no hebraico, ou pela direita.

14. Um escritor dificilmente falha em seu objetivo quando trata de um objeto que envolve os sentimentos mais profundos do ser humano em suas diversas e íntimas relações, desde que saiba manejá-los de forma leve e agradável, ao passo que aquele que pretenda produzir tais sentimentos por meio de um exame de precisão científica deveria calar-se de antemão.

15. Cabendo dispor as ideias de forma mais acessível, dá-se a esta preferência estrita, oferecendo-se, sempre que possível, um exemplo do método que se diferencia dos até agora apresentados por ser efetivamente inseparável do conteúdo, dado o método pelo conteúdo e o conteúdo pelo método.