3 Ignora-te a ti mesmo

ROSSET, Clément; LACROIX, Alexandre. La joie est plus profonde que la tristesse : Entretiens avec Alexandre Lacroix. Paris: Stock, 2019.

Alexandre Lacroix pergunta por que a máxima “Conhece-te a ti mesmo”, tida como pedra angular da sabedoria, engaja numa via errada e numa busca estéril.

A fórmula não é de Sócrates, como Platão faz crer na Apologia de Sócrates, e sim um slogan (gnothi seauton) gravado no frontão do templo de Apolo em Delfos, estrito equivalente das promessas impressas nos cartões de videntes distribuídos à saída do metrô ou nos trailers das Madame Soleil.

Alexandre Lacroix cita Loin de moi (1999), onde se lê que o autoconhecimento é a um só tempo inútil e “inapetitoso” (inappétissante), e pergunta por que inútil.

É inútil buscar conhecer-se pela boa e simples razão de que é impossível, e David Hume, com o Tratado da natureza humana (1739), foi o primeiro a chamar a atenção para a impossibilidade de um autêntico acesso a si mesmo.

Alexandre Lacroix objeta que, diante de um espelho, o eu se vê.

Ao olhar-se no espelho, não é o eu que se vê, nem aquele que os outros veem, pois a imagem é invertida e reduzida a uma superfície plana, enquanto a cabeça real é tridimensional.

Alexandre Lacroix pergunta se os espelhos nos mantêm na ilusão.

Imagina-se uma pré-história fantástica em que não importava ter uma fuça (bouille): nada prova que, por centenas de milhares de anos, o homem não viveu na ignorância absoluta de sua aparência, dizendo diante de outro rosto algo como “eis um de meus congêneres”.

Alexandre Lacroix pergunta se o eu, sendo incognoscível e invisível, deixa por isso de existir.

Hume sustenta que a identidade pessoal não existe e é uma ilusão, tese defendida também em Loin de moi, e sua objeção à existência do “eu” foi tão poderosa que impediu Kant de dormir, arrancando-o do sono dogmático e motivando em parte a Crítica da razão pura (1781).

Alexandre Lacroix pergunta por que o autoconhecimento, além de impossível, seria inapetitoso.

A vontade de introspecção expõe ao infortúnio de quem pede no restaurante um prato de nome promissor e recebe um caldo pouco apetitoso, pois o esforço de conhecer-se pode se voltar contra si.

Alexandre Lacroix imaginava que o adjetivo se referisse ao discurso dos pacientes em psicanálise, essa mistura de traumas de infância, fantasias sexuais e pequenos segredos meio sórdidos.

Não era nisso que se pensava, pois a psicanálise traz muito mais do que retira, e a cura fornece explicações e luzes sobre os comportamentos neuróticos.

Alexandre Lacroix pergunta se não há contradição, já que a psicanálise informaria sobre nós e, portanto, permitiria alguma forma de autoconhecimento.

É preciso distinguir duas questões de ordens diferentes: “quem sou eu?”, interrogação quase metafísica votada a ficar sem resposta e que a psicanálise não esclarece, e “o que há em mim que me impede de viver de modo feliz e satisfatório?”, de natureza existencial.

Alexandre Lacroix pergunta se refutar a identidade pessoal não é atacar a psicologia.

De modo algum: o que se refuta é o “Conhece-te a ti mesmo”, impossível e antes inconveniente, sendo aceitáveis conselhos como “Conhece o que está contra ti” ou “Tenta saber onde o calo aperta” (où le bât blesse).

Alexandre Lacroix observa que a identidade pessoal é tida por ilusão, mas a identidade social por estável, assegurada e a única real, e pergunta por quê.

Diante de quem perguntasse “Quem é você?”, ficar-se-ia em apuros para descrever a própria alma, e é provável que se dissesse qualquer coisa, pelas razões já evocadas, mas é possível, lealmente e sem medo de errar, declinar o estado civil: nome e prenomes, data de nascimento, profissão, endereço, situação familiar.

Alexandre Lacroix pergunta se cada sujeito humano se deixa definir por sua ficha de estado civil ou seu currículo.

O ser social não é o essencial da pessoa, antes o contrário, e o que se analisa mal e se conhece ainda menos é o ser não social, que é o essencial da vida, mais que a vida, a própria vida; nunca se suportaram colóquios nem mundanidades.

Alexandre Lacroix confessa perturbação: livros distantes trinta anos, como Le Réel et son double (1976) e L'Invisible (2012), têm o mesmo estilo elegante, preciso e reconhecível, e pergunta o que garante a unidade do estilo se não há identidade pessoal.

Há um mistério da permanência de certos traços de caráter, sobre o qual não se sabe responder bem, por dizer respeito de perto demais, e vive-se uma época assustadora de narcisismo, em que tudo o que dissuadir os contemporâneos de contemplar o próprio umbigo será de salubridade pública.

Alexandre Lacroix pergunta, por último, se, sendo o autoconhecimento um engodo, ainda é possível conhecer os outros.

Não mais, como ilustra “Andréa, c'est toi”, de Boby Lapointe, duo excepcional em que um tenor entoa uma canção de amor lírica e patética, barcarola italiana de sentimentalidade exagerada, e Boby intercala comentários furiosos, fingindo não entender e ofender-se.