ROSSET, Clément; LACROIX, Alexandre. La joie est plus profonde que la tristesse : Entretiens avec Alexandre Lacroix. Paris: Stock, 2019.
Édipo e o gênio da filosofia
Alexandre Lacroix pergunta como o mito de Édipo foi o gatilho (déclic) que inspirou o conceito de duplo.
A descoberta filosófica central, desenvolvida de livro em livro há trinta e cinco anos, surgiu num relâmpago, num deslumbramento: a essência do real é não ter duplo, é ser absolutamente singular, de modo que todas as representações, sonhos e sombras que dele se fazem não passam de fantasmas e deformações.
A ideia se impôs numa noite de fevereiro ou março de 1974, quando, de saída para um jantar nas alturas de Nice, ouvia distraidamente um comentarista da France-Musique apresentar a ópera Œdipe, de Georges Enesco, e resumir o argumento de Sófocles.
No trecho evocado, Édipo, ao saber da predição do oráculo de Delfos, decide deixar o rei e a rainha de Corinto, que julga serem seus pais e não o são, e é esse movimento de fuga do oráculo que o precipita na desgraça, levando-o a matar o rei de Tebas, seu verdadeiro pai, e a casar-se com a rainha, sua verdadeira mãe.
A reação imediata, “que imbecil, jamais deveria ter deixado Corinto”, revelou logo uma ilusão, a de pensar que as coisas deveriam ser diferentes do que são, e a descoberta se resume numa fórmula: o que se toma por versão perversa da realidade é o próprio real.
O vertigem dessa ideia, quando se extraem todas as consequências, ocupa ainda hoje, e a chegada à casa dos amigos veio acompanhada da declaração, talvez pretensiosa, de ter sido visitado pelo gênio da filosofia (génie de la philosophie).
Alexandre Lacroix pergunta se é possível ter “eureca!” e lampejos em filosofia.
Certamente, pois há relatos semelhantes de iluminação em Descartes, Pascal e Rousseau, e as ideias que ocuparão uma vida inteira costumam surgir de improviso, num momento de desatenção ou de sonho.
A cena lembra o álbum Head Comix, de Robert Crumb, em que misteriosas bolinhas (boulettes), vindas não se sabe de onde, atingem personagens ao acaso, suscitando toda sorte de especulações sobre sua origem e natureza; naquela noite, uma bolinha foi recebida.
Alexandre Lacroix propõe entrar no detalhe do mito e pergunta como se situar diante da interpretação freudiana das desventuras de Édipo.
A interpretação de Freud tem um grave inconveniente: silencia os antecedentes do caso, e é impossível compreender os atos do infeliz Édipo ignorando os malfeitos de seu pai, Laio, pois o “complexo de Édipo”, hoje o be-a-bá da teoria psicanalítica, foi construído exclusivamente sobre a versão de Sófocles em Édipo Rei, e ainda assim truncada.
Alexandre Lacroix pergunta quais são os antecedentes censurados por Freud.
Laio, rei de Tebas, recebeu certa vez Pélops, rei de Pisa na Élida, com seu filho Crisipo, e concebeu tamanho desejo libidinal pelo belo menino que o raptou à noite e o violentou, o que acarretou o castigo de ser proibido de gerar filhos, sob pena de morrer nas mãos do herdeiro que se casaria com sua mulher.
Crisipo, de cerca de dez anos, era de grande beleza, e seu nome significa “cabelos de ouro” (cheveux d'or); o estupro fornece o tema de uma peça perdida de Eurípides, Crisipo, da qual restam fragmentos, e reaparece em Plutarco (Vidas paralelas) e em Cícero (Tusculanas), sendo bem conhecido dos leitores da Antiguidade.
Pouco depois de deixar Tebas, Crisipo confessou tudo ao pai, e Pélops, furioso, pediu vingança a Hera, deusa protetora do lar, numa época em que os homens se dirigiam aos deuses mais facilmente que hoje.
O oráculo de Delfos anunciou a Laio que teria a vida poupada mas seria proibido de gerar, e que, se lhe nascesse um filho, este o mataria e desposaria sua mulher; Laio, prudente, manteve-se longe do leito de Jocasta, que, desejando um filho, abusou de sua fraqueza quando ele, depois de festejar, dormia em meio-sono.
Do enlace nasceu Édipo, logo objeto de terror para Laio, que lhe mandou furar os tornozelos para pendurá-lo pelos pés numa árvore da montanha, donde seu nome, que em grego significa “pés inchados” (pieds enflés).
Alexandre Lacroix pergunta o que isso muda do ponto de vista psicanalítico e se a falta de Laio retira de Édipo toda culpabilidade.
Isso torna Édipo absolutamente inocente, pois seu gesto, matar o pai e desposar a mãe, se explica de certo modo pela tendência paterna a ser ogro e a devorar os meninos.
Alexandre Lacroix pergunta se Freud branqueou Laio deliberadamente.
Sim, pois, sendo muito culto, Freud conhecia o estupro de Crisipo e o calou de propósito, e uma das grandes esquisitices dele é a tendência a isentar os pais de toda responsabilidade.
Freud mantinha com o próprio pai uma relação complexa e insólita: levou anos para ousar viajar a Roma, por associar o papa ao pai e temer desejar assassiná-lo, e certa vez ficou extremamente perturbado à beira do lago Trasimeno, por se identificar com Aníbal, que ali obtivera vitória estrondosa e queria derrubar César.
O mesmo apagamento ocorre num célebre capítulo de Cinco psicanálises sobre o presidente Schreber, neurótico que deixou Memórias documentando sua doença, cujo principal sintoma era a crença de que o próprio Deus, armado de uma pistola de raios, lhe lançava descargas elétricas no cu.
Freud não diz palavra sobre o pai do presidente, o Dr. Schreber, louco bem mais perigoso que o filho: a fantasia das descargas no traseiro não prejudica ninguém, enquanto o pai fez inúmeras vítimas com métodos repressivos de educação, de imenso sucesso na Alemanha do fim do século XIX.
O Dr. Schreber tinha a mania de impedir a masturbação dos adolescentes, recomendava amarrar as mãos dos meninos durante o sono desde os onze anos e inventou um mobiliário escolar que obrigava a postura tão desconfortável que quebrava a coluna, o que lança luz singular sobre as fantasias do filho.
É curioso que
Freud, que se gaba de interessar-se pelo “romance familiar” (roman familial), nada tenha dito, ao passo que os mitos gregos, cujos personagens se inscrevem sempre em linhagens, são muito mais atentos à dimensão familiar dos problemas e à transmissão dos distúrbios.
Alexandre Lacroix pergunta se se dá pouco crédito à noção de complexo de Édipo.
Não se trata de desprezar a psicanálise de maneira barata, pois Freud é um pensador imenso, mas não se deve conceder importância excessiva ao édipo na construção freudiana.
Incomoda outra esquisitice, a de afirmar que o verdadeiro em certos casos vale universalmente, como se todos os crianças passassem pela crise edipiana, qualquer que fosse a situação familiar, o perfil psicológico dos pais ou a existência de irmãos.
Desconfia-se muito dessa passagem ao universal, ligada à época em que
Freud escrevia, não distante do cientificismo (scientisme), que exige que uma lei se aplique a todos os casos para ser válida.
Alexandre Lacroix pede a interpretação própria do mito e pergunta o que é o conceito de “duplo oracular” (double oraculaire).
O duplo oracular é tratado na primeira parte de Le Réel et son double (1976), que abriu a investigação sobre o real, e sua origem está na reação ao mito: o “que imbecil, por que deixou Corinto” nasce da convicção de que as coisas deveriam ter se passado de outro modo, ainda que o roteiro do mito seja tão bem amarrado que não haja maneira mais rápida ou verossímil de Édipo cumprir a palavra do oráculo.
Como poderia um homem matar o pai e casar-se com a mãe? O mito é aqui o real, de mecânica implacável e límpida, direta, que no entanto surpreende e frustra a expectativa.
Por se ter em mente um duplo do real, pensa-se que o curso das coisas deveria tomar outra direção que a tomada.
Alexandre Lacroix sugere que se imagina, por exemplo, que Laio deveria ter matado o filho ele mesmo ou mantido o menino no palácio sob vigilância.
Nem isso, pois o duplo, aqui oracular, não é um cenário alternativo rigorosamente construído, mas a ilusão de um duplo, uma simples nuvem (nuée).
Ao dizer que as coisas deveriam ter sido diferentes, crê-se pensar algo, mas na verdade nada se pensa.
O duplo tem caráter evanescente e é sem conteúdo, e no entanto envolve o real em névoa e o esconde: é uma ilusão de pensamento e não um pensamento ilusório.
Alexandre Lacroix cita a frase de Le Réel et son double segundo a qual o destino existe, designando não o caráter inevitável do que acontece, mas seu caráter imprevisível, e pede que se explique o paradoxo.
No início do século XXI já quase não se crê no destino, ao menos não no sentido grego, e no entanto se admite de bom grado que o real é aquilo a que não se pode escapar: as causalidades se encadeiam com rigor e tudo o que advém é absolutamente necessário, mas ninguém é capaz de prever o que ocorrerá amanhã, em seis meses ou em cinco anos, de modo que tudo o que acontece é a um só tempo inevitável e desconcertante, tensão filosoficamente interessante.
Alexandre Lacroix pergunta se seria preciso ser onisciente, como o Deus de Leibniz, para que o futuro fosse transparente e o real deixasse de surpreender.
Exatamente: seria necessário um conhecimento exaustivo do real, mas este é tanto menos apreendido quanto mais se é assombrado por duplos, isto é, por ilusões de pensamento sem consistência.
Alexandre Lacroix observa que já não há oráculos, mas há previsões sobre o futuro, como a do médico que, após o sequenciamento do genótipo, anuncia predisposição à esclerose múltipla ou dada probabilidade de câncer, e pergunta se essas novas palavras oraculares geram ilusões e duplos.
Não, pois receber tal aviso médico e desconsiderá-lo não pertence ao que se chama pensamento do duplo, mas ao que Sartre denomina condutas de má-fé (mauvaise foi), e os avatares contemporâneos do duplo oracular se encontram antes nos comportamentos de fuga para a frente (fuite en avant).
Notícias de jornal contam o homem que mente aos próximos dizendo ter passado nos exames de medicina e se faz passar por brilhante cirurgião, o que costuma acabar mal, em prisão ou suicídio, e quem vive na dívida ou na impostura nutre esse pensamento do duplo, fazendo como se o real não existisse; a política do avestruz é do mesmo naipe.
A réplica de Esperando Godot, “Mas então, o que fazer? pergunta Vladimir. Não façamos nada, é mais prudente, responde Estragon”, mostra que a inação é evidentemente imprudente, pois o real acaba por alcançar.
No duplo oracular, o real cobra sua revanche de modo que a parada contra o oráculo, fugir de Corinto ou mentir ao círculo próximo, se torna inelutavelmente o instrumento da ruína, e nisso o mito de Édipo tem dimensão irônica: o real emprega justamente as ações com que se tenta precaver contra ele para aniquilar.
Essa leitura não contradiz a psicanalítica nem a complementa, pois se situa em outra perspectiva: o mito serve de suporte a uma reflexão metafísica sobre o estatuto do real, quase uma categoria teológica, pois, como Deus, o real é onipresente e nada lhe falta.