2 Édipo

ROSSET, Clément; LACROIX, Alexandre. La joie est plus profonde que la tristesse : Entretiens avec Alexandre Lacroix. Paris: Stock, 2019.

Édipo e o gênio da filosofia

Alexandre Lacroix pergunta como o mito de Édipo foi o gatilho (déclic) que inspirou o conceito de duplo.

A descoberta filosófica central, desenvolvida de livro em livro há trinta e cinco anos, surgiu num relâmpago, num deslumbramento: a essência do real é não ter duplo, é ser absolutamente singular, de modo que todas as representações, sonhos e sombras que dele se fazem não passam de fantasmas e deformações.

Alexandre Lacroix pergunta se é possível ter “eureca!” e lampejos em filosofia.

Certamente, pois há relatos semelhantes de iluminação em Descartes, Pascal e Rousseau, e as ideias que ocuparão uma vida inteira costumam surgir de improviso, num momento de desatenção ou de sonho.

Alexandre Lacroix propõe entrar no detalhe do mito e pergunta como se situar diante da interpretação freudiana das desventuras de Édipo.

A interpretação de Freud tem um grave inconveniente: silencia os antecedentes do caso, e é impossível compreender os atos do infeliz Édipo ignorando os malfeitos de seu pai, Laio, pois o “complexo de Édipo”, hoje o be-a-bá da teoria psicanalítica, foi construído exclusivamente sobre a versão de Sófocles em Édipo Rei, e ainda assim truncada.

Alexandre Lacroix pergunta quais são os antecedentes censurados por Freud.

Laio, rei de Tebas, recebeu certa vez Pélops, rei de Pisa na Élida, com seu filho Crisipo, e concebeu tamanho desejo libidinal pelo belo menino que o raptou à noite e o violentou, o que acarretou o castigo de ser proibido de gerar filhos, sob pena de morrer nas mãos do herdeiro que se casaria com sua mulher.

Alexandre Lacroix pergunta o que isso muda do ponto de vista psicanalítico e se a falta de Laio retira de Édipo toda culpabilidade.

Isso torna Édipo absolutamente inocente, pois seu gesto, matar o pai e desposar a mãe, se explica de certo modo pela tendência paterna a ser ogro e a devorar os meninos.

Alexandre Lacroix pergunta se Freud branqueou Laio deliberadamente.

Sim, pois, sendo muito culto, Freud conhecia o estupro de Crisipo e o calou de propósito, e uma das grandes esquisitices dele é a tendência a isentar os pais de toda responsabilidade.

Alexandre Lacroix pergunta se se dá pouco crédito à noção de complexo de Édipo.

Não se trata de desprezar a psicanálise de maneira barata, pois Freud é um pensador imenso, mas não se deve conceder importância excessiva ao édipo na construção freudiana.

Alexandre Lacroix pede a interpretação própria do mito e pergunta o que é o conceito de “duplo oracular” (double oraculaire).

O duplo oracular é tratado na primeira parte de Le Réel et son double (1976), que abriu a investigação sobre o real, e sua origem está na reação ao mito: o “que imbecil, por que deixou Corinto” nasce da convicção de que as coisas deveriam ter se passado de outro modo, ainda que o roteiro do mito seja tão bem amarrado que não haja maneira mais rápida ou verossímil de Édipo cumprir a palavra do oráculo.

Alexandre Lacroix sugere que se imagina, por exemplo, que Laio deveria ter matado o filho ele mesmo ou mantido o menino no palácio sob vigilância.

Nem isso, pois o duplo, aqui oracular, não é um cenário alternativo rigorosamente construído, mas a ilusão de um duplo, uma simples nuvem (nuée).

Alexandre Lacroix cita a frase de Le Réel et son double segundo a qual o destino existe, designando não o caráter inevitável do que acontece, mas seu caráter imprevisível, e pede que se explique o paradoxo.

No início do século XXI já quase não se crê no destino, ao menos não no sentido grego, e no entanto se admite de bom grado que o real é aquilo a que não se pode escapar: as causalidades se encadeiam com rigor e tudo o que advém é absolutamente necessário, mas ninguém é capaz de prever o que ocorrerá amanhã, em seis meses ou em cinco anos, de modo que tudo o que acontece é a um só tempo inevitável e desconcertante, tensão filosoficamente interessante.

Alexandre Lacroix pergunta se seria preciso ser onisciente, como o Deus de Leibniz, para que o futuro fosse transparente e o real deixasse de surpreender.

Exatamente: seria necessário um conhecimento exaustivo do real, mas este é tanto menos apreendido quanto mais se é assombrado por duplos, isto é, por ilusões de pensamento sem consistência.

Alexandre Lacroix observa que já não há oráculos, mas há previsões sobre o futuro, como a do médico que, após o sequenciamento do genótipo, anuncia predisposição à esclerose múltipla ou dada probabilidade de câncer, e pergunta se essas novas palavras oraculares geram ilusões e duplos.

Não, pois receber tal aviso médico e desconsiderá-lo não pertence ao que se chama pensamento do duplo, mas ao que Sartre denomina condutas de má-fé (mauvaise foi), e os avatares contemporâneos do duplo oracular se encontram antes nos comportamentos de fuga para a frente (fuite en avant).