1 A revanche do real

ROSSET, Clément; LACROIX, Alexandre. La joie est plus profonde que la tristesse : Entretiens avec Alexandre Lacroix. Paris: Stock, 2019.

A realidade sempre acaba se impondo

Alexandre Lacroix pergunta o que é um pedaço de camembert.

O camembert, como todo objeto real, é singular e indescritível em si mesmo, pois toda descrição procede por comparação com um outro objeto tomado como padrão de referência.

Alexandre Lacroix pergunta o que se deve entender pela definição do real como “conjunto não fechado de objetos não identificáveis”.

O real é um conjunto de objetos indescritíveis e incontáveis, do qual não se sabe se é finito ou infinito, e por isso “não fechado” (non clos), definição que equivale a dizer que não existem dois fios de grama idênticos.

Alexandre Lacroix pergunta, diante da moda do virtual, qual o estatuto das relações nascidas em jogos on-line e redes sociais: reais ou irreais.

Os ambientes ditos virtuais levam ao ápice a doença do divertimento pascaliano (divertissement), e o real, por mais que se tente escapar dele, sempre acaba por cobrar sua revanche.

Alexandre Lacroix observa que as religiões estão na mira dessa filosofia realista.

As religiões têm sua fonte implícita na fabulosa propensão humana a recusar a realidade, e sua força vem do duplo maravilhoso (double) da vida terrestre que oferecem e dos mundos por trás que edificam.

Alexandre Lacroix nota que a menção a Lúlio não é acaso, pois essa filosofia deve muito a Maiorca e à cultura espanhola.

A família passou quinze anos na Espanha antes do nascimento, até a guerra civil, e o pai, apaixonado por Maiorca, comprou ali uma casinha, Ca'n Cunieta, herdada depois, de modo que a ilha é uma espécie de paraíso na terra e o lugar de uma educação sentimental, que ensina serem indissociáveis a alegria e o sentimento trágico da vida.

Alexandre Lacroix pergunta se não é contraditório que o real dispense alegria e que os humanos, ainda assim, não cessem de fugir dele.

Um sonho recorrente, em que chega uma convocação oficial e cortês para comparecer à prisão central de Londres e ser enforcado, encena o caráter inelutável da morte, e a finitude, com a perspectiva intolerável do envelhecimento, basta para explicar a obstinação humana em se desviar da realidade.

Alexandre Lacroix pergunta se há relação entre essa negação do real por angústia da morte e o recalque (refoulement) freudiano.

Não há, pois Freud trata dos mecanismos de recalque em indivíduos neuróticos, ao passo que a eliminação do real pela via do duplo é o procedimento das pessoas normais, muito mais difíceis de curar que os doentes.

Alexandre Lacroix pergunta como conciliar o convite a tomar consciência do real, por desagradável que seja, com a afirmação de que a filosofia proposta é alegre.

As razões de execrar a realidade ou de adorá-la são as mesmas, e a diferença entre o deprimido e o alegre reside no apetite de viver, isto é, no desejo, cuja extinção é a infelicidade absoluta.

Alexandre Lacroix lembra o episódio depressivo evocado em Route de nuit (1999) e pergunta que olhar se lança, quinze anos depois, sobre esse período.

A melancolia é uma casa de muitos cômodos, e a depressão nervosa é antes de tudo uma crise existencial, uma crise de identidade e uma perda de realidade.

Alexandre Lacroix pergunta se esse estado foi superado.

Sem escuridão não haveria luz, e se tudo é róseo nada é róseo (como dizia Jankélévitch): a alegria é o estado primeiro e mais profundo de todo ser vivo, embora possa resultar de uma melancolia superada, e a capacidade de admitir a parte trágica do real é a pedra de toque da saúde moral e da alegria.

Alexandre Lacroix pergunta, quanto à tradução política desse realismo, se se condenam as utopias e ideologias que pretendem mudar o mundo.

Quem se põe na cabeça melhorar a sorte do próximo, como Marx ou Lênin, produz desastre, pois os atingidos pelo vírus do bem são os mais perigosos para os outros, e as utopias costumam provocar desastres em vez das melhorias esperadas.

Alexandre Lacroix observa que, apesar do convívio com Deleuze e Foucault, esse trabalho se situa à margem do pensamento francês dos anos 1970, do estruturalismo e da French Theory.

O talento de Foucault é reconhecido, mas o caráter sistemático de sua crítica da violência burguesa e das relações de dominação na escola, nos hospitais e nas prisões causa desconforto, assim como seu fascínio pelos loucos.

Alexandre Lacroix pergunta se o apolitismo seria a principal divergência com Foucault.

A divergência decorre da concepção do trabalho filosófico, que nunca trata do momento presente, pois a filosofia, desde suas origens chinesas, hindus e gregas, não se relaciona com questões políticas ou de atualidade, nem permite viver mais sabiamente o cotidiano.

Alexandre Lacroix objeta que se poderia censurar o longo desvio pela filosofia para chegar a uma conclusão evidente, à qual o bom senso já chega: só existe o real e nada mais.

Pascal mostrou, de forma definitiva, que há três categorias de pessoas, os ignorantes, os semi-hábeis (demi-habiles) e os hábeis, e que o erro nunca vem dos ignorantes, mas dos semi-hábeis, que introduzem sofisticações supérfluas e refinamentos teóricos enganosos para se valorizar.