A alegria de viver, parodiando Aristóteles, constitui uma substância totalmente independente de seus “acidentes”: está exposta a interrupções, como a tortura física ou moral e a morte, mas estas não são acidentes da alegria; onde ela reina, nenhum fato ou circunstância a perturba, pois é alheia ao factual (l'événementiel), e as melhores como as piores circunstâncias pouco a afetam, como resume
Pascal ao dizer que traz em si mesmo seus nevoeiros e seu bom tempo, e que até o bem e o mal de seus negócios pouco influem.
Essa alegria, que não é alegria de coisa alguma em particular, costuma ser assimilada, com justeza, a uma fruição do chamado maravilhoso cotidiano, expressão aparentemente oximórica, já que o cotidiano é alheio ao extraordinário.
A alegria de viver aproxima-se não de um motivo excepcional de regozijo, mas do simples prazer de acertar um cozido de carne com legumes (pot-au-feu) ou uma fondue savoiarda; como os vinhos medianos porém honestos, é então uma pequena alegria para todos os dias.
Distinta é a alegria de viver para sempre, permanente (salvo grande motivo de luto), independente, que existe sem razão de sua própria existência, e não em razão de motivos que a fariam existir, como uma obra-prima culinária.
Em que consiste a alegria de viver? Os filósofos mais qualificados para saber, como Spinoza,
Leibniz e
Nietzsche, não souberam ou não puderam responder.
Nem o instinto vital nem o instinto sexual, os mais invocados, respondem: apenas deslocam o problema, disfarçando-o (l'affublant) com outras palavras igualmente impenetráveis.
A existência é fonte de alegria (ser triste é sentir que se existe menos, diz
Comte-Sponville após Spinoza), mas resta saber por que e em quê; o prazer sexual é de intensidade indiscutível, mas, embora todos o tenham experimentado, ninguém o definiu.
As razões que explicariam por que a vida é desejável, e até infinitamente desejável, sempre estiveram ausentes da chamada (manqué à l'appel) ou apresentaram apenas motivos incompreensíveis e opacos.
Todos consideram instintivamente a privação da vida o pior dos males, mas ninguém soube explicar por quê; permanece na sombra o que faz o preço da vida, seja-se rico ou pobre, feliz ou infeliz.
Esse preço jamais foi analisado nem descrito, como se fosse tão evidente que definir-lhe o teor parecesse quase absurdo: as afirmações dele são inúmeras, mas as definições nunca foram produzidas.
As palavras de Aquiles entre os mortos, no canto XI da Odisseia, ilustram de modo impressionante essa aporia, uma afirmação incondicional desse preço, porém sem nenhuma premissa (sans aucun attendu).
Descido aos Infernos, Ulisses encontra Aquiles morto e o lisonjeia, perguntando se se viu ou se verá felicidade igual à sua: outrora honrado como um deus, agora exerce poder sobre os mortos, e para ele nem a morte é triste.
Aquiles responde que Ulisses não lhe maquie a morte (ne me farde pas la mort): preferiria viver como vaqueiro a serviço de um pobre lavrador a reinar sobre todo aquele povo extinto.
O que a inteligência não consegue esclarecer, a poesia, como toda forma de arte, às vezes consegue fazer entrever e sentir; no domínio literário, nenhum texto supera, quanto à alegria de viver, a descrição homérica da confecção do escudo de Aquiles por Hefesto, no canto XVIII da Ilíada.
A descrição do “ferreiro divino” forjando o escudo parece a alguns longa e até enfadonha.
Estranha-se que o poeta se detenha numa decoração que, do ponto de vista épico e da ação, é mero detalhe, e também a dimensão de tal ornamento, que exigiria não um único escudo, mas muitos, ou um escudo tão vasto que cobrisse toda a Grécia.
A confecção do escudo marca uma pausa no relato: ação e tempo se detêm, como na Ode sobre uma urna grega de Keats, mas começa um encantamento que rompe radicalmente com o resto da Ilíada.
A Ilíada, como a Odisseia, é narrativa e não pintura; o escudo, ao contrário, é pintura, ou antes escultura, que não relata fato algum, ainda que por vezes com micro ou pseudoeventos (pseudo-événements).
Se uma parte narra eventos de guerra, a outra descreve ou sugere o estado de paz e a felicidade não factual a ele ligada; o texto grego mais próximo é uma passagem de A Paz, de Aristófanes (v. 1140 ss.), que evoca as alegrias da vida cotidiana, possíveis só em tempo de paz.
O início da descrição mostra Hefesto forjando um escudo grande e sólido, com tripla borda luminosa, boldrié de prata (baudrier) e cinco placas, ornado de decoração variada e feita com arte sábia.
Nele figuram a terra, o céu e o mar, o sol infatigável, a lua cheia e todas as constelações que coroam o céu: Plêiades, Híades, o robusto Órion e a Ursa, também chamada Carro, que gira sobre si vigiando Órion e é a única a não banhar-se no Oceano.
Forjam-se ainda duas cidades de homens mortais.
Na primeira, há núpcias e festins: noivas conduzidas pela cidade à luz de tochas, canto nupcial por toda parte, rapazes dançando ao som de flautas e cítaras, e mulheres à porta de casa, maravilhadas.
Na praça, uma multidão se reúne em torno de uma querela: dois homens disputam o preço do sangue de um morto, um afirmando ter pago tudo, o outro negando ter recebido algo, e ambos recorrem a um juiz.
O povo grita por um lado e por outro, arautos mantêm a multidão afastada, e os Anciãos, sentados em pedras polidas no círculo sagrado, levantam-se cetro em punho e julgam um após outro; dois talentos de ouro aguardam quem emitir o parecer mais reto.
Segue-se a alusão à segunda cidade, sitiada por dois exércitos, com um duro combate que evoca muitas passagens da Ilíada.
Depois vêm um grande campo fértil e seu lavrar minucioso (“uma maravilha de arte”, diz Homero de Hefesto, ferreiro divino e escultor genial).
Vem também um domínio real, com ceifeiros ajudados por enfeixadores (botteleurs) e crianças, um rei silencioso de coração “em júbilo”, e arautos e mulheres preparando a refeição de todos, espalhando “muita farinha branca” (force farine blanche).
Por fim, uma bela vinha, onde moças e rapazes “cheios de ternos pensamentos” carregam a colheita em cestos trançados, enquanto um menino os anima cantando ao som da cítara e outros lhe respondem dançando, cantando e gritando em coro, com pés saltitantes.
O final desse pequeno poema (mini-poème) incluído no canto XVIII traz um rebanho de vacas de chifres retos, feitas de ouro e estanho, que correm mugindo do estábulo ao pasto, ao longo de um rio rumorejante, acompanhadas de quatro pastores de ouro e nove cães de patas velozes.
Dois leões temíveis, à frente das vacas, seguram um touro que muge e o arrastam; cães e homens robustos os perseguem, mas os leões já lhe rasgaram o couro e devoram suas entranhas e o sangue negro, e os cães, em vão açulados, apenas latem à distância, evitando morder.
O Ilustre Coxo (l'illustre Boiteux), epíteto de Hefesto, forja ainda, num belo vale, um vasto pasto de ovelhas brancas, com currais, abrigos cobertos e apriscos.
Hefesto modela também um coro de dança semelhante ao que Dédalo, na vasta Cnossos, formou para Ariadne de belas tranças.
Rapazes e moças, que valeriam muitos bois, dançam de mãos dadas pelos pulsos; elas vestem linho fino e coroas belas, eles túnicas bem tecidas de brilho fosco de óleo, punhais de ouro e boldriés de prata.
Ora correm com toda a velocidade e perfeita desenvoltura, como um oleiro sentado que testa a roda ajustada à mão, ora correm em fileiras, face a face.
Numerosa multidão em festa cerca o coro encantador, um cantor épico divino (aède) canta ao som da cítara entre os dançarinos, e dois acrobatas fazem estrelas laterais (font la roue) no meio de todos para marcar o início da festa.
O que primeiro impressiona nessa descrição é o aspecto pacífico, a atmosfera de paz: em plena Ilíada, com a guerra e a raiva de matar no auge (matar Heitor para vingar Pátroclo), e quando Hefesto fabrica o escudo destinado à violência quase cega de Aquiles, surgem cenas de regozijo cotidiano que só a paz e seus benefícios tornam possíveis.
Há episódios cruéis, mas é sina de toda história e de toda realidade conhecer arranhões, isto é, imperfeições, ainda que seja preciso esperar
Leibniz para imaginar o porquê.
O que impressiona em seguida é que as cenas esculpidas, imóveis por definição, acabam por animar-se e narrar, como no resto da Ilíada, como se Homero, levado pelo assunto, esquecesse que evoca imagens paradas.
Não se trata, porém, de retorno ao relato nem à “era sucessiva” (l'ère successive) cara a Paul
Valéry: a narrativa homérica é épica, refere fatos imaginários e de bom grado extraordinários, dado o papel dos deuses.
O que o escudo conta é o relato da vida real, a vida dos homens, da qual os deuses estão ausentes por não terem acesso a essa felicidade especificamente humana; “não são convidados para a festa”, como diz Marcel
Conche, ponto de primeira importância.
Só existe felicidade humana, e os deuses devem lamentar às vezes não ser homens para participar da festa;
Nietzsche diz o mesmo no aforismo 160 de O andarilho e sua sombra: quase todos os estados de alma e condições de vida têm seu momento de felicidade, e Chopin emprestou a esse momento acordes em sua Barcarola, a ponto de os próprios deuses desejarem passar, deitados numa barca, os longos serões de verão.
O que o escudo de Aquiles descreve é a felicidade, isto é, a alegria de viver ou, mais geralmente, a alegria de existir, tal como a descreve a Chandogya Upanixade, segundo a qual até a árvore se sente feliz por existir e ser árvore.
Conche o diz com perfeição: o decoro do escudo oferece uma imagem da felicidade, no tempo da alegria e do júbilo, com noivas indo ao encontro dos esposos, canto nupcial, danças, flautas e cítaras, lavradores que recebem no fim do sulco uma taça de vinho doce como mel, ceifeiros que trabalham com entusiasmo à espera de boa refeição, e vindimas que são festa, embora tingidas de suave nostalgia.
Essa felicidade é essencialmente humana e, se evoca um paraíso, é o daqui e não o do além, isto é, o paraíso terrestre.
Conche o sublinha: há embelezamento do real, mas sem passagem a um alhures nem deriva utópica; o embelezamento se faz no sentido do real, e a felicidade, se se a quer, está muito próxima, pois tudo o que ela requer já está presente.
Valery Larbaud diz de modo semelhante que os bens foram recebidos nesta vida, e Aristófanes o faz ao longo de toda a sua obra, como em As Nuvens, que evoca a existência feliz do adolescente ainda não pervertido por más doutrinas: treinar corrida sob as oliveiras sagradas, coroado de juncos brancos, com um camarada gentil da mesma idade, com aroma de corriola (fleurant le liseron), de humor pacífico, sob o choupo que agita as folhas, saboreando os encantos da primavera quando o plátano sussurra com o olmo.
Pode-se objetar que esse paraíso terrestre é o avesso do paraíso (l'envers du paradis) prometido por certas religiões, como no título do primeiro livro de Scott Fitzgerald, mas pode-se retrucar que esse avesso do paraíso é o próprio paraíso.