Outra singularidade de
Schopenhauer é a clareza e a legibilidade de sua escrita, qualidades pouco frequentes entre filósofos, sobretudo alemães, a ponto de quase se dizer que é o único filósofo alemão a escrever bem o francês, lapso não inteiramente lapso, pois
Nietzsche declarava preferir lê-lo em tradução francesa.
O Mundo é um livro grosso que, como provavelmente todos os livros grossos, tem passagens enfadonhas, como os famosos “túneis” (tunnels) de Saint-Simon, o que vale para o primeiro livro, que reformula e ilustra laboriosamente as teses já expostas em A quádrupla raiz do princípio de razão suficiente.
O encantamento filosófico começa no livro II, com a teoria da vontade, ou do querer-viver, como essência do real, como na Ética de Spinoza, que só “decola” no apêndice de seu livro I, e continua no livro III, com a célebre teoria da arte como contemplação, isto é, libertação dos sofrimentos causados pela realidade e pela vontade que é sua substância.
A leitura dessas páginas, ainda adolescente, foi o primeiro contato do autor com a filosofia e provocou emoção determinante para a decisão de estudá-la: foi sorte começar, aliás incidentalmente, por páginas simples e verdadeiras, que o prepararam e encorajaram a enfrentar tantas páginas incertas e obscuras.