A obsessão do duplo na literatura romântica trai curiosamente preocupação oposta: a perda do duplo, do reflexo, da sombra, não é aqui libertação, mas efeito maléfico, e o homem que perdeu seu reflexo, como o herói de célebre conto de Hoffmann, não é homem salvo, mas perdido.
Longe de trabalhar para livrar-se da imagem e considerá-la fardo pesado e paralisante, o herói romântico investe nela todo o seu ser e só vive enquanto sua vida é garantida pela visibilidade do reflexo, cuja extinção significaria a morte; está perpetuamente à caça de um duplo inencontrável em que conta para garantir seu ser, e, se o reflexo desaparece, morre, como no fim de William Wilson, de Poe.
O angustiado romântico é essencialmente desconfiado de si: precisa a todo custo de testemunho exterior, algo tangível e visível que o reconcilie consigo; sozinho, nada é, e, se um duplo não mais o garante em seu ser, deixa de existir.
Far-se-á notar a esse angustiado que encontrará o reflexo que busca não num espelho nem numa duplicata fiel, mas nos documentos legais que estabelecem sua identidade; pobre confirmação, responderá, pois quer uma imagem de carne e osso, não uma presunção de ser assentada em papéis convencionais, perecíveis e falsificáveis à vontade, mas é pedir demais, porque a única imagem um pouco sólida que se pode oferecer de si reside justamente nesses documentos.
Os sofistas gregos compreenderam bastante profundamente que só a instituição, e não uma hipotética natureza, pode dar corpo e existência ao que Platão e Aristóteles conceberão como “substâncias”: o indivíduo será social ou não será, e é a sociedade, com suas convenções, que torna possível o fenômeno da individualidade; o que garante a identidade é e sempre foi ato público: certidão de nascimento, carteira de identidade, testemunhos concordantes da zeladora e dos vizinhos.
A pessoa humana, concebida como singularidade, só é perceptível a si enquanto “pessoa moral”, no sentido jurídico, isto é, entidade institucional garantida pelo estado civil e nada mais que o estado civil, o que quer dizer que só existe no papel, em todos os sentidos da expressão: existe, mas “no papel”, apreciável de fora só teoricamente, como possibilidade mais ou menos plausível.
Reconhecem-se os limites dessa plausibilidade toda vez que, após incidente ou crise, se está impedido de estabelecer sua identidade: é inútil, sem papéis, gritar que se é si mesmo, o que nada diz a ninguém, como mostra a esquete de Courteline, A carta registrada (La Lettre chargée).
Um funcionário dos correios reconhece num cliente que vem buscar uma carta registrada um velho conhecido, a conversa se estabelece, recordam-se lembranças comuns, e então o cliente reclama a carta, mas o funcionário se recusa: para levá-la, é preciso provar a identidade; absurda devoção ao regulamento, diz o cliente, e o funcionário responde que o reconheceu como homem do mundo, mas ignora quem é como funcionário.
O cliente exibe diversos documentos, cuja autenticidade o funcionário reconhece, mas um pequeno detalhe faz que, a cada vez, o papel apresentado deixe lugar a dúvida possível e se revele impotente para decidir, de modo que a carta fica nas mãos do funcionário até que o amigo lhe demonstre, de modo irrefragável, que é decididamente ele mesmo e não outro.
Demonstração impossível, pois o funcionário teimoso não reclama senão um duplo do único; ouve-se aqui, atrás da sátira do formalismo burocrático, o eco abafado de uma angústia mais profunda, sobre a identidade não só legal, mas existencial: sou eu, é mesmo eu que vivo, eu que nenhum papel garante? Para me assegurar, precisaria de uma duplicata que me faz, e sempre fará, falta.
Tenho razão de duvidar de mim, e descubro em minha incapacidade de desdobrar-me um sério motivo de me interrogar não só sobre o caráter efêmero e frágil de minha existência, mas sobre essa existência mesma; a angústia de não ter duplo onde tomar o molde de seu ser próprio não se liga fundamentalmente à de dever morrer, como pensa O. Rank (tese justa, mas superficial, pois o temor de morrer é consequência secundária do temor de não viver), mas à, mais profunda, de duvidar da própria existência.
Se preciso de um duplo para testemunhar meu ser, e se só há duplo de papel, devo concluir que meu ser é de papel, ou minha alma, como imagina Michel Tournier em bizarro apólogo: um benfeitor da humanidade, que teve de destruir, no Quai des Orfèvres, um dossiê incômodo sobre si, empreende por filantropia queimar todos os dossiês e arquivos de todos os edifícios públicos, prefeituras, delegacias.
Queimado o último dossiê, constata que a humanidade se degradou: os homens já não sabem falar, andam de quatro, farejam a calçada com o focinho; o filantropo “acaba compreendendo que, querendo libertar a humanidade, a reduz a nível bestial, porque a alma humana é de papel”.