A duplicação do real, que constitui a
estrutura oracular de todo evento, constitui também, de outro ponto de vista, a estrutura fundamental do discurso metafísico, de Platão até hoje: segundo ela, o real imediato só é admitido e compreendido enquanto expressão de outro real, que lhe confere sentido e realidade.
Este mundo, sem sentido por si mesmo, recebe significação e ser de um outro mundo que o duplica, ou antes do qual este mundo é apenas enganosa dublagem; é próprio da imagem “metafísica” fazer pressentir sob as aparências insensatas, ou falsamente sensatas, a significação e a realidade que lhes servem de infraestrutura, e este mundo é apenas “a manifestação ao mesmo tempo primordial e fútil de um espantoso mistério”.
Essa estrutura da reiteração, em que o outro ocupa o lugar do real e este mundo o do duplo, é a estrutura mesma do oráculo: o real que se oferece imediatamente é uma doublure (dublê), como o evento que de fato ocorre é uma impostura; essa impressão de ter sido “dublado” talvez seja a ilusão filosófica por excelência.
Ela está presente mesmo em filosofias que pretendem recusar toda metafísica, como em
Marx, que procura no real aparente a lei real que lhe explica o sentido e o devir, em démarche duplamente oracular (à duplicação do visível e do invisível soma-se a predição do futuro); mas é em Platão que o parentesco entre filosofia oracular e filosofia tout court aparece mais manifesto: o mito da caverna, o de Er o Panfílio, a teoria da reminiscência.
Poder-se-ia objetar, com base em passagens de Platão, que o platonismo é uma “filosofia do singular”, fundada na impossibilidade do duplo: para Platão todo objeto é inimitável, incapaz de ser dois, e Sócrates mostra no Crátilo que a reprodução perfeita de Crátilo daria não um duplo, mas um absurdo, pois a essência de Crátilo é ser um.
É preciso distinguir dois níveis de duplicação: a impossibilidade de o objeto sensível duplicar-se em outro objeto sensível que seria ele mesmo (tese do Crátilo) e a de o objeto sensível aparecer como duplo de um modelo real e suprassensível (tese do início do Parmênides).
No primeiro caso, a não repetição resume a essência do sensível e lhe sublinha a finitude, e
Kierkegaard, em A repetição, faz dessa inaptidão a principal fonte do distanciamento, de inspiração platônica, em que está das coisas deste mundo: não se saberia “amar o que jamais se verá duas vezes”.
No segundo, deduz-se da impossibilidade de o sensível repetir um modelo suprassensível o caráter decepcionante do real diante desse outro Real que não consegue duplicar; em ambos os casos o caráter não duplicável da realidade leva à depreciação do objeto sensível, e a impossibilidade do duplo demonstra que este mundo é apenas um mau duplo, cópia falsificada, feita de um “menos ser” que está para o ser como o sucedâneo para o produto verdadeiro.
O fato de Platão reputar impossível a duplicação não faz do platonismo menos uma filosofia do duplo, mas o contrário: este real é o avesso do mundo real, sua sombra, seu duplo, e os eventos do mundo são réplicas dos eventos reais, segundos momentos de uma verdade cujo primeiro momento está no outro mundo.
Tal é o sentido da reminiscência: não há neste mundo experiência verdadeiramente primeira, o pequeno escravo do Mênon não descobre, mas redescobre, e a própria vontade só pode re-querer o que a necessidade já ordenou do outro mundo, como ensina o mito de Er; nessa maneira de os deuses fazerem a responsabilidade humana assumir seus decretos reencontra-se a ironia da predição oracular, que confia às vítimas o cuidado de realizá-la, como na fábula de Esopo.
Como toda manifestação oracular, o pensamento metafísico funda-se numa recusa quase instintiva do imediato, suspeito de ser o outro de si mesmo ou a dublagem de outra realidade: desconfia-se do imediato porque se duvida que seja de fato imediato, e talvez venha daí a desconfiança ancestral do “primeiro”, de que Talleyrand dá eco ao dizer que é preciso desconfiar do primeiro movimento, “pois em geral é o bom”.
Desconfia-se do primeiro movimento por recusar tomá-lo pelo “primeiro”: já não seria uma “elaboração secundária”, com a inteligência tendo tido tempo de deixar-se surpreender por interpretação enganosa emanada do desejo, imagem da realidade como se preferiria que fosse?
Talvez aí esteja a origem de todos os interditos que pesam sobre as primeiras experiências: um Noli me tangere proíbe ao homem o contato cegante com o real da primeira vez, como em A vida é sonho de Calderón, tragédia da recusa do imediato; a realidade humana só parece poder começar com a “segunda vez”.
Uma medida por nada (une mesure pour rien) é a divisa dessa vida em segundo grau, que leva o agricultor a sacrificar o primeiro alqueire da colheita, os jovens romanos a oferecer a Júpiter a primeira barba, os esposos cartagineses a sacrificar o primeiro filho a Baal; o real só começa no segundo golpe, marcado pelo duplo, enquanto o primeiro, que nada duplica, é golpe por nada.
Para ser real, segundo a definição da realidade daqui de baixo, duplo de um Real inacessível, é preciso copiar algo, o que nunca é o caso do primeiro, que nada copia, restando abandoná-lo aos deuses, únicos dignos de viver sob o signo do único e capazes de conhecer a alegria do primeiro; Talleyrand tem razão: o primeiro era o bom, tão bom que só é bom para os deuses, de que define a parte.
Privada de imediatez, a realidade humana é privada de presente, e portanto de realidade tout court, se se crê nos estoicos, que afirmavam que a realidade se conjuga só no presente; mas o presente seria inquietante demais se fosse só imediato e primeiro, abordável apenas pela representação, numa estrutura iterativa que o assimila a um passado ou futuro por leve defasagem que lhe erode o vigor insustentável.
Daí a necessidade de certo coeficiente de “desatenção à vida” na própria percepção atenta e útil, e é só quando essa parte se exagera que ocorrem os fenômenos de paramnésia (falso reconhecimento, déjà-vu) descritos por
Bergson: de repente, assistindo a um espetáculo ou participando de uma conversa, surge a convicção de já ter visto o que se vê, já ter ouvido o que se ouve, já ter pronunciado as frases que se pronuncia, de reviver até o menor detalhe alguns instantes da vida passada.
A ilusão é por vezes tão completa que a todo momento se crê prestes a predizer o que vai acontecer (como não o saber, se se sente que se vai tê-lo sabido?); vê-se o mundo exterior sob aspecto singular, como em sonho, tornando-se estranho a si mesmo, quase se desdobrando e assistindo como simples espectador ao que se diz e faz.
Bergson vê nelas “lembranças do presente” que redobram anormalmente a percepção atual: a lembrança evocada é suspensa no ar, sem ponto de apoio no passado, sem correspondência com experiência anterior, e a convicção é imediata, confundindo-se com o sentimento de que deve ser simples duplicatum da percepção atual; F. Gregh diz ter sentido “uma espécie de deflagração que suprimiu todo o passado entre aquele minuto de outrora e o minuto em que estava”.
Bergson faz da ilusão um fenômeno de desconexão semimórbida, abandono a esse “lembrança de luxo”, mas há provavelmente algo mais geral e normal: não só distração momentânea, “a forma mais inofensiva da desatenção à vida”, mas uma denegação do presente, já sensível em toda percepção normal, que intervém até quando a hora é grave e o presente se torna abertamente inassimilável.
O sujeito fascinado pela coisa presente da qual tenta desesperadamente distrair-se só o consegue relegando-a, como por mágica, a um passado ou futuro próximo, não importa onde nem quando, contanto que já não seja presente nem aqui: anywhere out of the world, como diz Baudelaire; um duplo, por piedade, parece procurar o sujeito que o presente sufoca, e encontra seu lugar natural um pouco antes ou um pouco depois.
Um romance de Robbe-Grillet, As borrachas (Les Gommes), que retoma o tema sofocliano da identidade do detetive e do assassino, exprime esse rechaço do presente e seu desdobramento errático, apresentando o evento como já ocorrido e como por ocorrer: enquanto o detetive raciocina sobre o assassinato da véspera, o assassino, que é o próprio detetive, representa antecipadamente o que vai cometer.
O verdadeiro “herói”, nem detetive nem assassino (ainda não detetive, já não assassino, ou vice-versa), dará o lugar temporal no fim do romance, seco como o tiro que o encerra: o presente; mas o presente é justamente o não percebido, invisível, insuportável, e é de boa-fé que o assassino assegura à polícia que não matou, pois o crime se deu no presente e ele não estava lá.
Passado ou futuro estarão sempre ali para apagar o imperceptível e insuportável brilho do presente, e é nesse sentido que certa filosofia ajuda a viver, apagando o real em proveito da representação;
Montaigne descreve o caráter indigesto do real, que faz o benefício das lembranças como das previsões: notável exemplo da forcenada curiosidade de nossa natureza, que se diverte em preocupar-se com as coisas futuras, como se não tivesse já bastante que fazer para digerir as presentes.
Pôr a imediatez de lado, remetê-la a outro mundo que lhe detém a chave, quanto ao sentido e quanto à realidade, é o principal objetivo da empresa metafísica; as versões desse outro mundo variam, a função, afastar o imediato, permanece a oracular, que duplica o evento e faz dele imagem de outro evento de que é imitação mais ou menos bem-sucedida, por mais ou menos viciada.
Ocorre, como no exemplo dos dois Crátilos, que a imitação seja tão bem-sucedida que já não se distingue do original, de modo que o outro mundo é este mundo, sem que se renuncie à ideia de que este é cópia daquele, do qual em nada difere; essa versão define a estrutura da metafísica de
Hegel, cuja novidade é fazer coincidir este mundo e aquele, obtendo, ao preço de uma reiteração tautológica, um “concreto” aparentemente liberto da ilusão metafísica.
Analisando o conceito de força,
Hegel distingue a ilusão grosseira, que toma as coisas pelo que aparentam, e a ilusão metafísica, que relega o real a outro mundo totalmente distinto do da aparência; há assim três mundos: o das aparências sensíveis, o suprassensível como diferente do sensível (“primeiro mundo suprassensível”) e o mesmo suprassensível como coincidindo com o mundo das aparências (“segundo mundo suprassensível”).
Esse terceiro mundo, que toma o contrapé do segundo por anular a diferença que este pretendia instituir, mas sem confundir-se com o mundo imediato (incapaz de “pensar-se” por não ter percorrido o itinerário de sua dúvida radical e do retorno a si), é o que
Hegel chama “mundo invertido”: um duplo do único que seria o próprio único, mas só ao cabo de uma cambalhota que cumpriu o tour metafísico para melhor reconduzir ao ponto de partida.
O truque não é sem benefício: parte-se das aparências sensíveis, simples casca do real, e, terminada a cambalhota, cai-se no “interior ou fundo das coisas”, descobrindo-se que o sensível é a concretização progressiva do além suprassensível, de que constitui o “preenchimento” (remplissement), como o duplo, na estrutura oracular, pode ser considerado o preenchimento do único;
Hegel: o suprassensível nasceu do fenômeno, que é sua mediação, sua essência e de fato seu preenchimento, e é assim o fenômeno como fenômeno.
Hyppolite explica que é porque o primeiro mundo suprassensível se inverte em si mesmo que o movimento nele se introduz e ele rejeita o fenômeno, que assim se medeia a si mesmo em si mesmo e se torna manifestação da essência; ou seja, este mundo é o outro de um outro mundo que é justamente o mesmo que este, pois o itinerário que leva o fenômeno a tornar-se manifestação da essência é o caminho que conduz de A a A passando por A.
Hegel vê nessa coincidência o último termo do mistério filosófico, o que faz as coisas serem justamente o que são e não outras, daí a ideia abertamente aberrante de que a coincidência do real com o real é efeito de um ardil: “a grande astúcia é que as coisas sejam como são; a essência da essência é manifestar-se, e a manifestação é manifestação da essência”.
Essa identidade da aparência com o real que oculta é ao mesmo tempo ardil do destino e achado de
Hegel, pois fornece explicação satisfatória do caráter invisível do outro mundo: é invisível por ser duplicado por este mundo, que interdita vê-lo, pois, se este diferisse um pouco do suprassensível, este seria mais tangível, localizável no desvio, mas o desvio não existe; não se poderia sonhar melhor esconderijo.
A filosofia hegeliana é assim a essência do pensamento oracular: anuncia no real a manifestação de um Real outro de que não se pode duvidar, pois já está inteiro presente no real imediatamente percebido, e pouco importa que em
Hegel real e Real sejam um só, pois a duplicação rigorosa acompanha mais de perto a estrutura oracular, cujo fim é fazer coincidir, num evento único, a surpresa e a satisfação da expectativa.
Tal estrutura caracteriza todas as filosofias do século XIX, com eco evocativo em
Fichte que, segundo
Schopenhauer, repetia obstinadamente aos estudantes que é justamente porque as coisas são assim que são assim (“Es ist,
weil es so ist, wie es ist”).
Essa estrutura oracular manifesta-se também nas filosofias do século XX, notadamente em algumas tidas por vanguardistas por não terem sido ainda aproximadas dos pensamentos de outrora, de que só diferem pela forma: a estrutura hegeliana do real reencontra-se em toda letra na de J.
Lacan.
Pouco importa que em
Lacan o real seja garantido não por outro real, mas por um “significante” que “é por natureza símbolo apenas de uma ausência”; o que conta é a igual insuficiência do real para dar conta de si e assegurar a própria significação, a igual necessidade de buscar “alhures”, ainda que numa “ausência” e não num “além”, a chave que decifra a realidade imediata, e o sentido está assim ali fora, o que duplica o evento em manifestação imediata e o que ela manifesta, o sentido.
O sentido é o que é fornecido não por si mesmo, mas pelo outro; por isso a metafísica, que busca sentido além das aparências, sempre foi metafísica do outro: é o outro do sensível que explica o sensível em
Hegel, como é o outro do pênis (o “falo”) que lhe dá sentido em
Lacan; e reforça-se a analogia com a estranha intuição, em ambos, de que o outro procurado nada é senão o mesmo.
Hegel: sem o suprassensível o sensível não tem sentido, logo o suprassensível existe, e é o próprio sensível;
Lacan: sem o falo o pênis não tem sentido, logo o falo existe, e o falo é justamente o pênis, como todos sabem; a estrutura oracular da ambiguidade é a que
Lacan privilegia, como anuncia o Seminário sobre “A carta roubada”, pois o real só é “significante” enquanto “falta em seu lugar”, como o evento anunciado pelo oráculo só é esperado enquanto outro.
Assim se deve entender os enigmáticos esquemas “L”, “que para alguns dão dor de cabeça”, de que resulta que o eu não é o eu e que o outro difere do outro; reencontra-se a estrutura hegeliana da iteração tautológica, complicada pela rejeição do significante num eterno ao lado da coisa que significa (ao passo que a significação hegeliana vem por fim “preencher” o real e coincidir com ele).
Daí, em
Lacan, incessante vaivém entre o único e seu duplo: o pênis é o falo enquanto não o é, e vice-versa; o ser não é o ser, ou só o é enquanto não o é; o branco só é o preto enquanto não o é, ou só o é na medida em que o preto é justamente o branco.
Essas considerações lançam luz sobre a estrutura psicológica do que, desde a segunda metade do século XIX, se chama na França o chichi (frescura, afetação): caracteriza-se primeiro pelo gosto da complicação, que traduz um desgosto do simples, cujo duplo sentido convém compreender.
Em primeiro sentido, o desgosto do simples exprime só gosto da complicação: prefere-se à atitude simples a manobra complicada, mesmo com o mesmo fim e com o risco de errá-lo por excesso de complicação; em segundo, que aprofunda o primeiro, designa pavor diante do único, afastamento da coisa mesma: o gosto da complicação exprime necessidade de duplicação, necessária à assunção, como esquiva, de um real cuja unicidade crua se pressente instintivamente como indigesta.
Assim se compreende por que as “preciosas” fazem “chichis”: menos para brilhar no mundo que para atenuar o brilho do real, cujo esplendor as fere por sua intolerável unicidade; a coisa só é tolerável mediatizada e desdobrada, nada aqui se pode tomar “de but en blanc” (de chofre, direto ao alvo).
Magdelon, em Molière, declara ao pai que não saberia “chegar de chofre à união conjugal” e que tem “mal-estar só com a visão que isso lhe causa”; a expressão francesa, confirmada pela etimologia, significa ir direto ao alvo, visar diretamente o único sem o socorro do duplo, e a complicação é apenas paliativo, atitude de proteção contra a inelutabilidade do único.
O chichi, precioso ou metafísico, só traz obstáculo provisório ou ilusório: provisório se passageiro, ilusório mesmo se obstinado e definitivo, pois a recusa do único nunca se acompanhará da preensão de um duplo, e a busca do duplo a que se sacrificou o único está votada ao fracasso, por ser busca do “nada” de que se imagina loucamente que o real seja o “outro”.
O chichi liga-se a uma angústia muito profunda: a inquietação diante da ideia de que, aceitando ser o que se é, concede-se ao mesmo tempo que não se é senão isso; a unicidade implica triunfo (ser o único no mundo) e humilhação (ser só esse mesmo, isto é, quase nada e logo nada), e a preciosidade quer triunfo sem humilhação, traduzindo não só gosto da complicação, mas desgosto de si como único.
Essa profundidade dá sal a célebre passagem de La Bruyère: “Que diz? Como? Não estou entendendo; poderia recomeçar? Entendo ainda menos. Enfim adivinho: quer dizer, Acis, que faz frio; por que não dizia 'faz frio'? Quer me informar que chove ou neva; diga 'chove, neva'. (…) — Mas, responde, isso é muito simples e muito claro.”
Observe-se, antes de concluir, que o tema da duplicação não está forçosamente ligado a estrutura de pensamento metafísica: ao lado da estrutura metafísica do duplo, que deprecia o real (privando o imediato de todas as outras realidades, esvaziando o presente de todos os fatos passados e possibilidades futuras), concebe-se uma estrutura não metafísica que enriquece o presente de todas as potencialidades, futuras e passadas.
É o tema, ao mesmo tempo estoico e nietzschiano, do eterno retorno, que vem paradoxalmente preencher o presente de todos os bens de que o priva a duplicação metafísica, de modo que o presente, o aqui, tornam-se o pleno e o outro tempo, o alhures, o vazio a que estava condenada a imediatez na perspectiva inversa; por uma “deflagração” semelhante à que evoca F. Gregh.
Tal deflagração, pela qual o presente se reabilita enriquecendo-se de repente de todos os bens de que era privado, aparece mais claramente na poesia que na filosofia, ainda que de afinidade poética como a de
Nietzsche: As quimeras de Gérard de Nerval sugerem a duplicação do presente em todo passado e todo futuro, mas para a só glória e celebração do presente.
A reiteração, tema geral d'As quimeras, volta-se em proveito de si mesma e não do reiterado: o que conta é que tudo é para sempre primeiro, e a décima terceira vez será sempre a primeira e a única, como dizem os dois primeiros versos de Artémis; o itinerário nervaliano é o inverso do metafísico, pois risca o passado e o futuro em benefício do presente, “preenchido” de tudo o que teve e terá lugar.
Esse sentido da duplicação leva não a uma fuga do aqui para o alhures, mas a uma convergência quase mágica de todo alhures para o aqui, entrevista por Nerval no fim da vida e que define o estado de graça; daí o caráter bem-aventurado da duplicação nas Quimeras, que, longe de privar o presente da realidade própria, acrescenta-lhe a série infinita das realidades outras.
O presente é, a cada instante, a soma de todos os presentes, entendendo-se “presente” em duplo sentido, dom do instante (dom deste presente) e oferenda absoluta (dom de todo “presente”, isto é, de toda duração); e o retorno final à imobilidade, a esse único que sela no fim de Delfica a série de todos os instantes passados no só instante presente, não esquece nenhuma realidade, afirma-as todas de uma vez, dotando cada instante da vida de toda a riqueza da eternidade.
O soneto de Delfica pergunta a Dafne se ela conhece a antiga romança, o templo de peristilo imenso, os limões amargos onde se imprimiam seus dentes, a gruta fatal aos hóspedes imprudentes onde dorme a antiga semente do dragão vencido; anuncia que os deuses que ela chora sempre voltarão, que o tempo trará de volta a ordem dos dias antigos e que a terra estremeceu com um sopro profético, enquanto a sibila de rosto latino dorme ainda sob o arco de Constantino, e nada perturbou o severo pórtico.
Fecha o texto a sentença: sê amigo do presente que passa, e o futuro e o passado te serão dados por acréscimo.