Como ilustração concreta do homem do ressentimento serve Rigoletto, bufão na corte do duque de Mântua na ópera de Verdi, ou Triboulet, a serviço de Francisco I em O Rei se Diverte, de Victor Hugo, que inspirou o libretista.
Rigoletto está fadado ao ressentimento por sua situação objetiva: feio, deforme, não amado, sem poder nem dinheiro, entre homens e mulheres belos, amados, cortejados, poderosos e ricos. Seu ressentimento, porém, não é ódio ou reação negativa à vida, mas ausência de reação negativa, incapacidade de exprimir seu ódio.
No ato I, ele renunciou a contrariar os que o contrariam e se resignou, à falta de melhor, a aprovar tacitamente os que reprova, cortejando os cortesãos; a adulação “enquanto se espera” é o grau zero da reação.
No ato II, primeira tentativa parcial de reação: clama seu ódio aos cortesãos que sempre lisonjeou, mas ela aborta por vir a destempo, tarde demais, e a contrassenso, pois os acusa de raptar sua filha quando fizeram só uma brincadeira ao crer raptar a suposta amante. Arrepende-se logo da imprecação e termina implorando perdão e piedade; o entorno comenta cruelmente que não se responde a crianças e loucos (fanciulli e dementi), os que ainda não têm ou perderam a fala.
No ato III, nova tentativa, total e radical: manda assassinar o duque, homem absolutamente rico, poderoso e belo, em favor de quem a filha foi raptada, tripla vingança após a qual se daria por quite. O evento decepciona toda a expectativa: a vingança falha, o duque sai ileso e a filha querida morre. O evento desejado torna-se um não evento, complicado por um “antievento” terrível e irrisório que priva a vingança de seu próprio objeto.
Nada aconteceu, ou menos e pior que nada, e nisso reside todo o sofrimento de Rigoletto: nesse nada se resume sua faculdade de reagir; o que quer que diga, nada dirá, o que quer que faça, nada fará. Só pode escolher entre o mesmo e o pior, que logo se confundem. Tudo indica que retomará o serviço na corte já no dia seguinte, de novo à falta de melhor, talvez com novas desculpas.