A outra proposição, a de que é da essência da música ser alegre, parece escabrosa (scabreuse), pois a opinião contrária é a mais corrente: admite-se que a música possa ser alegre, mas apenas por uma alegria acidental, acessória e sobreposta a sua vocação própria, que seria evocar a melancolia e a tristeza para “sublimá-las”.
A frase de Rachmaninov, “a música é filha da mágoa”, resume um diagnóstico ancestral: a música não é mágoa, mas efeito e remédio da mágoa; em si mesma é felicidade, na medida em que remedeia a mágoa, felicidade negativa e compensatória, feita de subtração parcial e momentânea dos sofrimentos da existência, como um “tempo de respirar” diante da urgência do real.
Essa concepção da música como trégua indica certo sofrimento quanto ao real e é própria de quem sente insuficiência e falta diante da realidade e da própria existência. O aforismo 370 de A Gaia Ciência, “O que é o romantismo?”, define esse sentimento de falta como a essência do “romantismo”, por oposição ao sentimento de plenitude do artista “clássico”.
A música pode servir à expressão dessa falta, como mostram ilustres compositores, mas não se segue que tal música seja eminentemente musical: se a eminência da música está na aprovação do real, no “poder de dizer sim ao mundo”, a expressão musical da mágoa, ainda que superada pelo efeito apaziguador, é uma espécie de traição, um desvio do efeito musical para fins diversos da alegria sem reticência e sem falta.
Esse desvio se percebe em Schumann, cuja música, segundo o aforismo 161 de O Viajante e sua Sombra, quer evocar “o eterno rapaz” e acaba lembrando “a eterna solteirona”.
Percebe-se também na ruptura entre Mozart e Beethoven, muitas vezes lida como passagem do menos profundo ao mais profundo, de uma alegria superficial a uma felicidade refletida e duramente conquistada, logo mais sólida. Ouvidos mais finos julgam o inverso: deterioração da alegria, que deixa de ser júbilo incondicional para tornar-se felicidade raciocinada, menos confiável e menos profunda.
Segundo esses intérpretes, há em Beethoven, além do desvio do efeito musical, uma virada geral da arte contra si mesma, como sugere Roland-Manuel ao ver nele o “príncipe dos rebeldes da arte”; talvez seja demais injuriar Beethoven ao honrar Mozart com a passagem do Zaratustra sobre as fontes envenenadas pela ralé.
O próprio
Nietzsche, no aforismo 245 de Para Além do Bem e do Mal, declara que o “bom tempo antigo” fez ouvir seu último canto em Mozart, cujo rococó, polidez do coração, gosto da graça, da ternura e da dança ainda nos tocam, enquanto Beethoven foi apenas a última expressão de uma ruptura e transição de estilo, produto híbrido de uma alma velha agonizante e de uma alma nova ainda por nascer, cuja música banha-se no claro-escuro de um luto eterno.