Afastadas as falsas soluções do divertimento e da cegueira voluntária, uma única noção parece dar conta desse paradoxo da perpetuação da vida no seio da morte, da vontade de viver apesar do conhecimento da morte: a noção de graça, em todos os sentidos do termo.
Graça no sentido jurídico: a graça penal, a remissão da pena; um réu cuja causa estava perdida de antemão, condenado à morte sem apelação, permanece vivo e livre por decisão de uma graça real, que não se funda em motivo nem premissa alguma e conclui, de modo inesperado, a favor do que os juízes reconheceram como sanção impossível.
Graça no sentido mágico: o levantamento final do malefício, tema de inúmeros contos, óperas e balés, por intervenção feérica análoga à do deus ex machina que permite à tragédia mais bem atada achar saída favorável; a sorte que votava ao infortúnio é apagada por encantamento, e tudo se passa como se nada tivesse acontecido.
O poder mágico de aniquilar o malefício é semelhante ao da consciência ao despertar, quando elimina o conteúdo de um pesadelo, ou ao que Pedro Damião atribuía a Deus: anulação pura e simples do fato de o passado ter acontecido; reviravolta mágica em que a fórmula do supremo malefício, “nada terá tido lugar”, torna-se a fórmula mesma da salvação, e o poder de Deus se mostra semelhante ao do Diabo, porque o poder do Diabo é também, e primeiro, o de Deus.
Graça no sentido estético: o encanto que cura pelo só poder de sua capacidade sedutora; não cura nada no fundo, mas age milagrosamente ao levar a considerar tolerável, ou até desejável, um conjunto de dados que o conhecimento rejeitou e continua a rejeitar no momento em que outra instância, subjugada por uma graça todo-poderosa, os aceita.
A graça musical, por exemplo a mozartiana, pode ser descrita como uma jubilação unida ao conhecimento da catástrofe, aliança contra toda razão que faz a potência do efeito musical, como a aproximação de duas realidades distantes faz a fortuna da imagem poética, segundo Pierre Reverdy.
Que a capacidade sedutora do belo tenha por desfecho essencial fazer aceitar a morte é o que ensina a lenda persa que inspirou Paul Dukas em seu poema sinfônico La Péri: o rei Iskender, sentindo a morte chegar, vai buscar na mão de uma deusa adormecida, a Péri, uma flor que dá a seu possuidor a imortalidade e o contato com os deuses; a Péri desperta e procura seduzi-lo para reaver a flor, e Iskender, cativado por sua graça, devolve-a de bom grado, sem arrependimento; a deusa desaparece num círculo de luz, enquanto Iskender, só, vê espessarem-se em torno as trevas da morte.
Que importa, se se provou o encantamento: “Abri-vos, portas terríveis da morte, não temo mais vosso malefício”, cantava antes dele Tamino, possuidor da Flauta mágica.
Graça no sentido teológico: assistência extraordinária de Deus, que salva o homem no último momento, quando há todas as razões para desesperar de sua causa, descrita pela teologia cristã e, antes dela, pela filosofia platônica; O Banquete apresenta o amor como remédio milagroso, ardil simbolizado pelo deus Poros que permite ao homem triunfar in extremis de sua pobreza ontológica, de sua falta de participação no ser, personificada por Pênia, a pobre desprovida de tudo, cujo acoplamento ocasional com Poros engendra o amor.
O amor, que tem da mãe uma pobreza sem recurso e do pai um recurso supremo, o ardil, capaz de tirar qualquer um de apuros e de arrancar por um tempo o homem apaixonado ao quase nada de sua existência; como em toda graça, o amor vem remitir uma pena que permanece paradoxalmente real, presente e devida, mas um ardil de origem divina tomou o real de surpresa e deu a vitória ao impossível.
Esse golpe de astúcia, que como tudo o que decorre da métis grega faz triunfar por ardil a causa fraca sobre a forte, prefigura as dialéticas cristãs do resgate e da salvação; ardil ou redenção, faz em ambos os casos que o perdedor ganhe, o último a chegar entre primeiro, como os operários da décima primeira hora.
A noção comum a todas essas graças aparece em seu sentido etimológico primeiro, o de presente, de gratuidade (o adjetivo “gratuito” deriva do latim gratia): tudo isso, dizem os evangelistas, será dado por acréscimo; a graça é um presente-surpresa, para o qual nada se fez e do qual, mesmo cumulado, não se pode produzir argumento que funde a remissão da pena.
É a definição paradoxal da graça apagar a pena mantendo-lhe a materialidade integral: não suprimi-la, mas fazer como se não fosse, fazer senti-la como nada; tudo continua pensando, mas tudo deixa de pesar, e por isso a graça, como a do amor, é fundamentalmente um ardil, como diz Platão, que age como em fraude, sem jamais ter os meios reais de obter o resultado que consegue produzir.