Essas modificações da perspectiva final trazem mudança e refinamento à prática do ilusionismo do sentido: já não se sugere a presença de um sentido por essa “espécie de feitiçaria” que Koyré atribuía a
Hegel, mas exibe-se um nada, atraindo o olhar do espectador para algo não só invisível, mas reconhecido como invisível, reservando-se sugerir, por essa própria ausência de sentido, a presença de um sentido alhures: vê-se bem que o sentido está alhures, pois se vê que não está aqui.
É ilusionismo de refinados, que não joga mais com os poderes grosseiros da sugestão; o primeiro a praticá-lo, saído de um hegelianismo decepcionado mas persistente, foi Mallarmé, depois, no século XX, Georges Bataille.
A obra de Bataille, descrição do erotismo como experiência de uma superação impossível, jogo de mediações que se transgridem indefinida e vãmente uma após outra na esperança de chegar à coisa mesma, que nunca se dá, é ilustração notável da nostalgia hegeliana e do ilusionismo do sentido, no caso da significação erótica.
A série de deslocamentos metonímicos em História do olho mostra que o desejado nunca é isto ou aquilo, mas sempre ao lado disto, ao lado daquilo: o olhar amoroso, o olho da amante, só se carregam de significação erótica enquanto imediatamente deslocados para outra coisa (“diferidos”), daí a série: do olho passa-se ao ovo, ao ânus, ao testículo, à vulva, onde Simone introduz, no fim do romance, o olho que acabam de arrancar a um padre.
É então, contemplando o sexo de Simone que envolve o olho do padre, que o herói revê de repente o olhar de Marcelle, sua amante: o sentido erótico voltou ao objeto de partida, mas entrementes circulou e não teria ocorrido se não tivesse circulado, pois a significação erótica não está no olho da amante, mas no caminho que o conduz ao olho enucleado de um homem, deslizado na vulva de outra mulher.
Como diz Michel Sardou em sua linguagem, “ela corre, ela corre, a doença de amor”; assim corre o sentido, que não está aqui nem ali, é o que “passa”, e condena-se a perdê-lo quem pretende detê-lo para apoderar-se dele.