O sítio da insignificância, onde coexistem e se confundem todos os caminhos, não pode ser descrito como um estado, por ser a negação de todo estado, mas pode igualmente ser descrito como o estado por excelência, por possuir a virtude que falta à mais tenaz das estabilidades: não ser suscetível de nenhuma modificação.
Há aqui segurança total quanto ao futuro: nada ocorrerá que possa contradizer o princípio de insignificância, pois o que ocorrer será sempre algo, ao mesmo tempo determinado e qualquer; os caminhos do futuro já pertencem à confusão presente dos caminhos.
Há antinomia insuperável entre as noções de acaso e de modificação: se o que existe é essencialmente acaso, não pode ser modificado por nenhum aleatório, nenhum “evento” (no sentido de algo que irrompe como exceção num campo de acaso); mudando de modo imprevisível, o real só se confirma em seu estado, e o acaso nunca será mudado pelo acaso.
Por isso todo evento, por agradável ou desejável que seja, é irrisório quando interpretado em filósofo (e não em historiador ou político); em termos mais filosóficos, ou mais sibilinos: algo pode modificar algo, mas nada pode modificar nada, e o real não é nada, isto é, nada de sólido, constituído ou decidido, portanto em si não modificável.
Por isso Sófocles, depois de dizer em Antígona que o homem “marcha para nada”, acrescenta que esse nada concerne também a tò méllon, o futuro, a série infinita dos tempos por vir: tendo todos os caminhos, sem caminho ele marcha para nada, o que quer que possa acontecer.
Lucrécio propõe de modo semelhante uma teoria da monotonia, eadem sunt semper omnia, que não se opõe à sua teoria da modificação perpétua, mas a confirma e precisa: o que só existe mudando não se modifica pelo fato de mudar, e que tudo seja sempre igual significa que tudo é sempre igualmente fortuito, efêmero e mutável; tal é a razão da uniformidade do mundo em Lucrécio, que não pode mudar de forma nem de constituição por ser constitucionalmente sem forma.
Malcolm Lowry exprime belamente essa não modificação inerente ao estado mutável: o Cônsul, ébrio, sentado a uma mesa do restaurante do salão Ofélia com o meio-irmão e Yvonne, medita sobre as condições de seu “ser-no-mundo” e se pergunta por que estava sempre, mais ou menos, aqui (Why was he always more or less, here).
Por mais que se mexa e vá aonde quiser, reencontra-se sempre, mais ou menos, no mesmo lugar, e está à beira de uma grande revelação ontológica: a faculdade de existir em qualquer lugar não dispensa a necessidade de existir, a cada vez, em algum lugar, sempre aqui, portanto, mais ou menos; em inglês “sempre” se diz always, isto é, “by all ways”, por todos os caminhos: qualquer que seja o caminho.