ROSSET, Clément. Logique du pire: éléments d'une philosophie tragique. Paris: Presses Universitaires de France, 1971.
** 1 — POSSIBILIDADE DE UMA « FILOSOFIA » TRÁGICA? **
A história da filosofia ocidental começa com o luto do acaso, da desordem e do caos, e só readmite o acaso em segundo plano, subordinado a uma ordem que lhe serve de horizonte.
A frase de Anaxagoras, segundo a qual no começo era o caos e depois veio a inteligência que tudo ordenou, expulsa do campo filosófico a ideia de um acaso originário e gerador de existência.
O acaso é depois readmitido apenas como derivado e enquadrado por uma ordem, concepção sistematizada na tese de Cournot.
Isso torna possível a “tarefa filosófica”, entendida como revelação de uma ordem: desembaraçar a desordem aparente, descobrir relações constantes e inteligíveis e assegurar à humanidade um bem-estar em relação à errância no ininteligível, programa comum a Descartes e a Freud.
Torna-se possível também o fantasma dos “intelectuais”: a esperança de que, à força de inteligência e astúcia, o infortúnio se dissolva e a felicidade seja obtida.
Esse otimismo é ontológico, por supor que a ordem dos pensamentos alcança a “ordem” dos seres, e teleológico, por supor que revelar essa ordem conduz a um bem-estar.
Nessa perspectiva, filosofar é um ato sério, construtor e salvador, que traz serenidade.
Na margem dessa filosofia surgiram, de longe em longe, pensadores que se atribuíram a tarefa inversa: os filósofos trágicos.
Sua meta é dissolver a ordem aparente para reencontrar o caos enterrado por Anaxagoras e dissipar a ideia de toda felicidade virtual, afirmando o infortúnio e, na medida de seu gênio, o pior dos infortúnios.
Esse terrorismo filosófico faz do pensamento uma lógica do pior: parte da ordem aparente e da felicidade virtual e chega, pela impossibilidade de toda felicidade, ao desordenamento, ao acaso, ao silêncio e, no limite, à negação de todo pensamento.
A filosofia torna-se ato destrutivo e catastrófico, que priva o homem das provisões e remédios intelectuais contra o infortúnio e, como o navio de Artaud no início de O Teatro e seu Duplo, traz a peste em lugar da cura.
Sofistas, Lucrécio, Montaigne, Pascal e Nietzsche são os exemplos: a angústia do filósofo terrorista é omitir algum aspecto absurdo do sentido admitido ou esquecer uma circunstância agravante, oferecendo do trágico um quadro incompleto e superficial.
Pensar o pior é o objetivo geral da filosofia terrorista, reconhecido por esses pensadores como tarefa única e necessária.
O discurso segundo o pior é visto de saída como o único possível, pois a hipótese do pior exclui qualquer outra.
Esse discurso se ordena a partir de uma problemática do pior tomada como ponto de partida necessário: a convenção nos Sofistas, a natureza em Lucrécio, o homem sem Deus em Pascal e o homem dionisíaco em Nietzsche.
A filosofia trágica é “lógica do pior” porque considera a destruição, de antemão, como sua única e específica necessidade.
A presente Lógica do pior investiga a natureza dessa “necessidade”, não para contestá-la, mas para encená-la, mostrando as circunstâncias que a tornam necessária aos olhos do filósofo trágico.
Nenhuma filosofia é necessária em si, como lembra Bergson ao dizer que ninguém é jamais obrigado a fazer um livro; a necessidade da saída trágica só vale uma vez admitida a existência de pensamento, sob o postulado de que todo pensamento é necessariamente desastroso.
Essa necessidade é subjetiva, pois consiste nas razões que o filósofo dá à sua própria démarche, mas é uma necessidade lógica, apoiada em considerações ordenadas, e portanto livre dos fundamentos emotivos ou sentimentais presentes em pensadores tidos por angustiados.
Ela não se encontra na angústia moral ou religiosa de Kierkegaard, no desamparo diante da morte de Chestov ou Max Scheler, nem na solidão e agonia espiritual de Unamuno.
É provavelmente a esse tipo de pensamento trágico que Maritain alude ao dizer que nada é mais fácil para uma filosofia do que ser trágica, bastando abandonar-se ao seu peso humano.
Os ensaios sobre o trágico de autores como Chestov e Unamuno levam a duas constatações.
Desde Nietzsche, o pensamento trágico quase não encontrou intérprete filósofo.
A existência desses ensaios reforça a resistência dos filósofos a admitir que o pensamento trágico possa constituir-se em filosofia: escrever sobre o trágico é fácil, e admite-se sem dificuldade que há “algo de trágico” na existência, na literatura e na arte, mas não que uma filosofia seja ela mesma trágica.
A razão confessada é a incapacidade da pensamento trágico de erigir-se em filosofia; a inconfessada é que uma filosofia trágica implicaria a negação prévia de toda outra filosofia.
Daí o contraste, pouco notado, entre a literatura, brilhante pelo trágico, e a filosofia, hábil em pôr o trágico fora de circuito, como no século XVII francês, em que só Pascal destoa, e dele se diz com Bréhier que não é filósofo.
A maioria dos filósofos foi lógica da ordem, da razão e da reparação, enquanto alguns poucos foram lógicos do pior, sistematizando o trágico da literatura; foram relegados a um lugar à parte, como Lucrécio, abandonado aos latinistas, e Pascal, aos teólogos e moralistas.
O motivo do banimento é não terem sido filósofos trágicos, e não simplesmente não terem sido filósofos.
A noção de “filosofia trágica” está no centro do debate, contestada por uma exclusão recíproca: o trágico só é admitido como não filosófico e o filosófico como não trágico.
Em Montaigne e Pascal, o trágico é declarado não propriamente filosofia, e a “filosofia” é buscada em regiões sem ressonância trágica, como a educação, a arte de viver ou o espírito de geometria e de finura.
Está em jogo saber se o exercício do pensamento pode desqualificar-se a si mesmo, ponto que é precisamente o não admitido.
Desqualificar o pensamento pelo pensamento, como no esquema pascaliano de que nada é mais conforme à razão do que o desaval da razão, foi tido por empresa não filosófica, nascida de imperativos como o coração, a afetividade e a angústia.
Esse desaval apoia-se no grande número de filosofias pseudotrágicas nascidas de exigências afetivas e, mais profundamente, no desaparecimento do acaso do horizonte da afetividade filosófica.
Se existe uma filosofia trágica, ela não é mais ilógica do que qualquer outra forma de filosofia.
O título Lógica do pior designa o caráter filosófico do discurso trágico, e nada além disso.
Não se trata de encadear logicamente os males, de mal em pior, até a evidência filosófica do pior, como no encadeamento de eventos usado por Zola em cada romance a partir da falha que ameaça o edifício.
Tal lógica pressupõe eventos já dados, existência que a filosofia trágica contesta, pois busca seu terreno aquém dela.
“Lógica do pior” significa, pois, a filosofia trágica considerada como possível.