6 Do tempo à eternidade

MOSÈS, Stéphane. Système et Révélation: la philosophie de Franz Rosenzweig. Paris: Éditions du Seuil, 1982.

I. O ORGANON DO CONHECIMENTO: OS TRÊS SISTEMAS DE SIGNOS

No limiar do terceiro livro da Estrela da Redenção impõe-se retomar a epistemologia geral do sistema, cuja base é a crítica da teoria idealista do conhecimento, que pressupõe a identidade entre ser e saber, pois o fato de o mundo ser dado à intuição originária como realidade metalógica (métalogique) significa que existe de imediato, independentemente do saber e antes dele, como dado elementar dotado de evidência própria, de modo que o conhecimento racional nada constitui e se reduz a decifrar a posteriori as implicações da apreensão intuitiva da facticidade do mundo.

II. ORAÇÃO E UTOPIA

Diferentemente da Criação e da Revelação, a Redenção é categoria essencialmente problemática, jamais realidade atual e sempre vivida no modo do irreal, pois o que permanece incerto não é que ela virá, ideia que sustenta a relação do homem com o mundo, mas quando virá, e por poder vir a qualquer instante está sempre em suspenso, vivida como utopia, caráter que decorre da irrealidade inerente à própria ideia de porvir.

III. AS TRÊS FORMAS DA ORAÇÃO

A oração projeta o homem além da experiência imediata e desvela segmento mais longo da evolução objetiva do mundo, mas essa projeção ainda é aproximativa demais para fazer coincidir exatamente os desejos com as possibilidades do instante, e a Redenção, para Rosenzweig, não é arbitrária nem pode sobrevir em momento qualquer: o tempo em jogo não é o histórico hegeliano, mas o do crescimento da vida no mundo, cuja lei secreta difere da que dá inteligibilidade racional à história manifesta.

IV. O HOMEM NO MUNDO: GOETHE E O ACABAMENTO DO PAGANISMO

No movimento que o projeta ao mundo o homem se apresenta como ser essencialmente separado, exterior a uma realidade que lhe faz face como algo irredutivelmente estranho, separação que é condição de toda relação e da saída do “daimon”, mas, como ser natural e social, é também parte do mundo: ao eu metaético, que rompe a solidão numa dupla abertura a Deus e ao próximo, opõe-se o indivíduo, que só se distingue do todo por dele fazer parte e é em larga medida coisa entre coisas, com seu destino de emergir da espécie, nela se reconfundir no engendramento, sobreviver como personalidade e ser reintegrado à natureza pela morte.

V. OS POVOS NA HISTÓRIA: A “ERA JOÂNICA” E O ACABAMENTO DA TEMPORALIDADE

A dualidade de pessoa e personalidade repete-se, simetricamente, no plano das coletividades e de sua relação com a história, e Rosenzweig, fiel à concepção hegeliana dos povos como individualidades coletivas, distingue radicalmente os povos-na-história do povo, único, fora-da-história, distinção que domina o terceiro livro e explica a oposição e a relação entre judaísmo e cristianismo: o cristianismo, entendido menos como religião que como forma de civilização, encarna a presença dos povos no mundo e no tempo, e o judaísmo é o paradigma único de existência coletiva inteiramente arrancada à história, sendo os dois necessários entre si e ambos à Redenção.

VI. DO TEMPO NATURAL AO TEMPO SAGRADO: AS FORMAS SOCIAIS DA ETERNIDADE

Judaísmo e cristianismo opõem-se, em sua relação com o mundo e o tempo, como pessoa e personalidade, vivendo o primeiro sua existência coletiva fora dos ritmos do tempo histórico e o segundo acompanhando os povos em sua marcha pela história, mas o cristianismo, para estar sempre presente à história, deve preservar sua parcela de intemporalidade, e o judaísmo, em sua existência empírica, participa da realidade da história, de modo que ambos têm em comum uma mesma relação de presença-ausência ao tempo histórico, embora a vocação do cristianismo o incline à história e a do judaísmo ao intemporal, articulação de tempo e eternidade que vivem numa experiência específica, a do tempo ritual.