5 Redenção

MOSÈS, Stéphane. Système et Révélation: la philosophie de Franz Rosenzweig. Paris: Éditions du Seuil, 1982.

A Redenção é a relação recíproca do homem e do mundo, tem por modo de existência na linguagem o futuro, assim como a Criação tem o passado e a Revelação o presente, e nela homem e mundo se constituem um pelo outro em realidades acabadas, pois a Criação só permite emergir na existência uma parte do mundo elementar, sem retomar o jorrar das realidades particulares, e a Revelação desvela do homem apenas parte de sua realidade originária.

I. CRÍTICA DO MISTICISMO

O homem da fé é em certo sentido menos vivo que o herói trágico, assim como o Deus oculto da Criação é menos vivo que os deuses antigos, pois o herói, embora solitário e mudo, é visível a outrem como num espetáculo, ao passo que o diálogo íntimo da alma com Deus não transparece no exterior, e o homem de fé está sempre ameaçado de recair em sua clausura.

II. TRAGÉDIA MODERNA E SANTIDADE

O místico não possui a realidade, a “facticidade”, do herói trágico, e o homem novo da existência autêntica, em quem se desvelam as virtualidades latentes no herói trágico, é o santo, que, além do místico, enclausurado demais na vida espiritual, reencontra a realidade elementar do herói.

III. ALÉM DO MISTICISMO: O AMOR AO PRÓXIMO

O santo é de certo modo o herói convertido, e a conversão que marca a emergência das realidades elementares no universo da linguagem compõe-se de dois movimentos, um de desvelamento e outro de ruptura: a fé desvela realidade latente no fundo do orgulho originário (afirmação como negação de uma negação originária), mas o Si elementar, para manifestar-se na existência, deve renegar sua outra componente, o caráter ou “daimon”, essência positiva do homem elementar, de modo que o homem total é o que desperta para a fé na Revelação e é capaz de dizer não à substância de sua identidade.

IV. A REDENÇÃO E O MUNDO DAS PESSOAS

Na Redenção o mundo é o outro polo da relação, e o que o homem visa em toda ação é o mundo, mas atingido só numa parte, a mais próxima no instante da ação, o próximo, que é apenas “um representante”, o outro, pelo qual aparece a alteridade radical do mundo.

V. DO MUNDO PAGÃO AO MUNDO MODERNO

Esboça-se uma filosofia da história que completa a da primeira parte, com dois estágios após o paganismo, o primeiro deles o momento histórico que segue o fim do paganismo mas ainda em sua sombra, quando a Revelação não está concluída, correspondente ao momento lógico em que só um dos dois aspectos de uma das três realidades se desvelou, o que as subtrai à separação absoluta do paganismo e as priva de sua realidade elementar.

VI. O PORVIR NO MUNDO

A vida é também essencialmente frágil e ameaçada, sempre prestes a ser engolida de novo pela morte, o que torna seu crescimento sem fim e origina a infinitude do tempo, pois Rosenzweig concebe o tempo natural, ao contrário do vivido, segundo o tempo biológico, evolução feita de tensão permanente entre vida e morte, e o inacabamento é a essência do tempo.

VII. SÍNTESE IDEALISTA E CORRELAÇÃO

No nascimento da vida o mundo vai ao encontro do homem, assim como, no amor ao próximo, o homem vai ao encontro do mundo, de modo que a história do mundo e a iniciativa humana não são movimentos paralelos, e o mundo espera a cada instante que o homem o humanize, transmitindo-lhe a Revelação, enquanto o homem visa, através do próximo, o próprio mundo, e na Redenção as coisas saem do anonimato para receber um nome e o homem, além de todo espiritualismo individual, visa a realidade inteira.

VIII. A DIALÉTICA DO HOMEM E DO MUNDO

A expansão da vida no mundo não se identifica ao progresso, pois a vida orgânica progride segundo devir natural, mas é finita e aspira a tornar-se infinita, durável, eternidade que só pode ser conferida de fora, de modo que o porvir não é desenrolar de temporalidade preexistente, mas espera da irrupção iminente de algo outro, a ação humana que quebra o devir, que do ponto de vista do devir orgânico só pode ser percebida como desordem e sem-sentido.

IX. A REDENÇÃO NA LINGUAGEM: O “NÓS”

A expressão da Redenção na linguagem é a da multiplicidade como encontro de várias vozes, o canto polifônico, o coro, que traduz o encontro da objetividade, instaurada pela Criação no mundo das coisas, e da subjetividade, instaurada pela Revelação na palavra, simbolizado pela frase que une as duas palavras-raiz, bom e eu, pronunciada de fora por todos os que povoam o mundo: “é bom”, a frase verdadeira em si, de qualquer boca, proclamação por todas as criaturas de que é bom ser, de modo que a Redenção seria, num primeiro sentido, o estado em que o mundo se tornou capaz de cantar o louvor de seu próprio ser.