4 Revelação

MOSÈS, Stéphane. Système et Révélation: la philosophie de Franz Rosenzweig. Paris: Éditions du Seuil, 1982.

A NOÇÃO DE REVELAÇÃO

A noção de Revelação na Estrela da Redenção é ambivalente, pois designa por um lado a relação particular de Deus com o homem, que forma um capítulo do segundo livro, e por outro o conjunto do movimento de conversão pelo qual as três realidades elementares acedem à existência manifesta, cobrindo todo o segundo livro, de modo que Criação, Revelação em sentido estrito e Redenção são três aspectos de um processo global em que o elementar se revela, isto é, emerge na realidade vivida.

I. DA CRIAÇÃO À REVELAÇÃO

O estudo da Revelação apoia-se em análise primeiro implícita, depois explícita, do Cântico dos Cânticos, e Rosenzweig comenta o versículo “o amor é forte como a morte” (VIII, 6) para ilustrar a passagem da Criação à Revelação, pois a morte, que dá à Criação a garantia de seu acabamento e o sinal de sua finitude, é já sanção e recomeço, cumprimento e abertura, atestando os limites da ordem natural e uma brecha rumo a outra maneira de ser.

As relações do segundo livro não se dão entre substâncias imutáveis nem são instituídas por terceira instância exterior, pois cada realidade se arranca de dentro à sua gravidade em favor das outras duas, e esse arrancamento, que rompe a simplicidade de substância dada à crença, bouleversa sua identidade e é ato gratuito (grundlos), sem fundamento no sistema originário do ser-dado-à-crença.

II. DO DEUS MÍTICO AO DEUS REVELADO

A Revelação é definida como relação de Deus ao homem e implica antes de tudo a exteriorização, a “saída de si” do Deus mítico, pois quando Deus deixa de ser objeto de intuição pré-reflexiva, que só percebe realidades separadas, para ser apreendido numa experiência, todas as categorias de sua forma elementar se invertem: a substancialidade torna-se relação, a continuidade descontinuidade, o ser acontecimento, vivido pelo homem no instante da Revelação como evento de sua consciência, e Deus confia seu próprio ser à experiência que o homem tem dele.

III. DO SILÊNCIO TRÁGICO À AFIRMAÇÃO DA FÉ

Ao amor de Deus pelo homem corresponde, do lado humano, a recepção desse amor, a afirmação de dependência essencial, que só é possível se fundada na consciência originária da solidão trágica do homem em sua nudez elementar, pois a abertura a uma exterioridade radical implica ter estado emparedado na separação, e o sentimento da ipseidade, percebido como descontinuidade, isto é, solidão sempre renovada, inverte-se em consciência positiva da própria existência, consciência de ser (sempre).

IV. DIÁLOGO DA ALMA E DE DEUS (O “EU” E O “TU”)

Para descrever a experiência da Revelação, Rosenzweig recorre ao meio mesmo em que é vivida, a linguagem, e, se a Criação se lê nas modalidades do relato, a Revelação, como descoberta de alteridade fundamental, decifra-se a partir do exercício da palavra, isto é, das formas do diálogo, pois só nela duas entidades se abrem uma à outra, e a negação de si de Deus, que confia ao homem o cuidado de afirmá-lo, dá-se pelo mandamento de amar, enquanto é a palavra, ouverture de si a outrem, que define o homem desperto para a existência, por oposição ao mutismo do herói trágico.

As etapas do diálogo

O princípio da Revelação é que Deus limita seu ser à afirmação que o homem faz dele na medida em que o homem se apaga afirmando sua dependência, dupla negação não simétrica, movimento de uma origem a um termo, pois para que o homem negue sua autonomia é preciso que ela lhe seja adquirida, e a autonomia não é primeira, já que, se a subjetividade se fundasse a si mesma, como no idealismo, fundaria todo o ser e toda relação se anularia.

A. Estrutura formal do “eu” de Deus

Na ordem da existência as modalidades pelas quais uma realidade elementar se constitui invertem-se em seu contrário, de modo que o ser do deus mítico, identidade e substância, isto é, afirmação, manifesta-se como pura descontinuidade, sucessão de acontecimentos sempre novos, e a afirmação originária do não-nada inverte-se em pura negação do ser indiferenciado: o que se revela é o diferente de tudo, pura individualidade que, por ser diferente de tudo, pode ser ligada a tudo.

B. Gênese do “eu” do homem

1. O monólogo de Deus ou o “tu” implícito.

A Revelação é radicalmente nova em relação à Criação, mas enraíza-se na realidade do mundo, pois o homem só se desperta à existência pessoal porque, como indivíduo, parte do mundo, possui o sentido de sua realidade (Dasein) e de sua finitude, sabe-se criatura, e o que separa e liga os dois momentos é ser mortal, ainda coisa entre as coisas, e sabê-lo, pois a angústia diante da morte o desperta à vocação de ser falante, articulação do impessoal e do pessoal.

2. A pergunta.

Na primeira parte da Estrela o homem era definido como parte do mundo (indivíduo) ou como realidade “metaética” (Si), e nenhum dos dois pode entrar em relação com o que não é ele: o indivíduo, mesmo criatura destinada à morte, permanece encerrado na ordem da natureza, e o Si, figurado pelo herói trágico, tem autonomia que o separa radicalmente das outras realidades, ao passo que o homem como ser falante, interlocutor de um diálogo, está ao mesmo tempo separado e ligado, e a separação, fundamento de toda relação, repousa por sua vez na possibilidade originária da relação, que não é ela mesma relação.

3. O apelo.

Por ser pergunta, “onde estás?” só delimita o espaço em que o “tu” se engendra, sem produzi-lo, e não há “tu” para Deus enquanto o homem não decide definir-se como “eu”, de modo que a pergunta desenha, entre um “eu” e um “tu” que ainda não existem, o espaço de seu encontro possível, espaço sempre vazio, pergunta condenada a permanecer pergunta.

C. Gênese do “eu” de Deus

1. O mandamento.

A resposta de Deus à atenção humana é o mandamento, transmitido pela mediação do texto bíblico, única maneira, do ponto de vista do que não é o homem, de constituir o “tu” como exterioridade radical, pois para que o “eu” do homem se torne “tu” para Deus é preciso que Deus se dirija a ele como transcendência absoluta, e a experiência da Revelação é vivida em sua essência como irrupção no seio da subjetividade de alteridade radical, não a de uma pessoa, mas a de uma injunção: a transcendência não é a de Deus, mas a de seu mandamento.

2. A Revelação.

Só quando a subjetividade humana aceitou o princípio de uma autoridade que a investe de fora é que o mandamento de amar pode especificar-se em mandamentos distintos, referentes a situações particulares, e sobre o fundo de sua abertura à exterioridade a consciência vive a Revelação a cada instante como experiência nova, não repetição, mas descoberta renovada de mesma exigência fundamental sob formas sempre diferentes, tal como no texto bíblico uma multiplicidade de mandamentos particulares especifica o mandamento de amar.

D. O “eu” do homem: da humildade à fé

1. A confissão.

Na experiência do mandamento recebido a consciência vive a presença em si de uma exterioridade como vestígio de um “eu” cuja realidade lhe escapa, e uma experiência que apreendesse nela presença que ao mesmo tempo a excedesse absolutamente anularia a separação originária entre homem e Deus, razão pela qual Rosenzweig não descreve a Revelação como fusão da alma com Deus, mas a evocação dessa presença-ausência pode aprofundar-se, porque a aceitação do mandamento não é a última palavra da vida moral, apenas seu horizonte, já que diante do absoluto do mandamento a resposta do homem é por natureza imperfeita.

2. A profissão de fé.

O sentimento de imperfeição, que só se constitui sobre fundo de Absoluto, confunde-se com a própria vida moral, e por isso a confissão das faltas implica já seu perdão, pois ao confessar sua falibilidade como sempre atual a alma está tão segura da resposta que não precisa ouvi-la em voz alta, ouve-a na própria interioridade, e Deus não precisa purificá-la da falta, pois diante de seu amor ela se purifica a si mesma.

E. Da Revelação pessoal à Revelação histórica

Embora o processo da Revelação seja, em cada etapa, experiência eminentemente pessoal, vivida na presença única do instante, inscreve-se na cadeia irreversível do tempo e, objetivamente, do ponto de vista da Criação, é momento de uma série temporal, culminação dos que a precedem e origem dos que a seguem, sem que a consciência a viva como consequência de série causal: para a pessoa é evento fulgurante, sem passado nem futuro, que rompe por um instante a continuidade temporal e a institui noutra modalidade de ser.

F. A oração como grito

Nesse estágio do diálogo a alma acede à forma suprema de sua linguagem, a oração, pois as referências litúrgicas anteriores, citações bíblicas, confissão das faltas, profissão de fé, eram momentos da descoberta de uma exterioridade radical no seio da consciência, e no vaivém do “eu” e do “tu” os dois interlocutores se isolam numa intimidade que os separa do mundo, sendo a Revelação em essência exclusiva, vivida por cada um para si, no segredo da subjetividade.

V. SEMÂNTICA DO NOME PRÓPRIO

A. A subjetividade na linguagem

A emergência do homem à existência dá-se pelo exercício da linguagem, que, por oposição à simbólica algébrica do primeiro livro, não é sistema de signos exteriores à realidade que representam, mas o lugar em que seu objeto, a existência humana, se constitui, e a noção de existência não se limita à realidade pessoal, embora esta seja seu foco, pois a construção do segundo livro, com o capítulo sobre a Revelação entre os da Criação e da Redenção, situa o homem entre dois estados do mundo, um anterior e outro posterior à sua existência pessoal, dos quais participa por enraizar-se num e projetar-se no outro.

B. O nome próprio

Émile Benveniste distingue o “eu” como instância fundadora da palavra do “eu” como pura categoria linguística, e só há palavra quando o sujeito atualiza essa forma vazia no ato efetivo do discurso, apropriando-se dela, e o “eu” torna-se meu “eu” próprio, que designa e funda minha identidade, sendo a palavra em todos os seus momentos apropriação das formas da língua, mas só se organiza em conjunto coerente a partir do “eu”, origem das coordenadas de meu espaço e meu tempo.

C. Os nomes da origem: o centro e o começo

A partir do momento e do lugar em que fala, cada homem funda um universo coerente de que é o centro, e é notável que Rosenzweig jamais coloque explicitamente a questão de como a comunicação seria possível, havendo tantos universos quantos locutores, pois ao perguntar se a experiência da Revelação, marcada por extrema subjetividade, é compatível com ordem objetiva ele não se pergunta pela comunicação, mas pela verdade: a Revelação é só a experiência em que cada um, descobrindo-se “eu” sobre fundo de alteridade absoluta, funda o universo espaço-temporal de que é centro, ou pode levar a verdade objetiva, a um mundo cujas coordenadas valham para todos?