3 Criação

MOSÈS, Stéphane. Système et Révélation: la philosophie de Franz Rosenzweig. Paris: Éditions du Seuil, 1982.

I. DO ELEMENTAR À EXISTÊNCIA: O SISTEMA DAS INVERSÕES

A passagem do primeiro ao segundo livro da Estrela da Redenção representa inversão total de perspectiva, pois os três capítulos do segundo livro, Criação, Revelação e Redenção, não prolongam o que fora descrito nem constituem momentos lógicos de um sistema em desdobramento contínuo, e tudo recomeça de outro modo: o primeiro livro descreve a totalidade do real em seu nível elementar, tal como se dá originariamente à crença, ao passo que o segundo instala-se no coração da experiência vivida.

A passagem do conceito à existência, ou do paganismo ao judeu-cristianismo, constitui verdadeira inversão semântica em que todas as entidades do primeiro livro reaparecem como realidades de sentido rigorosamente oposto, e toda afirmação se volta em negação e toda negação em afirmação, pois a ordem da existência é a negação radical do mundo do elementar.

O formalismo das inversões traduz o movimento pelo qual as três substâncias elementares se exteriorizam, rompem o solipsismo e se dirigem ao que não são, aparecendo Deus, mundo e homem como transitividades: de Deus ao mundo, a Criação; de Deus ao homem, a Revelação; do homem ao mundo, a Redenção.

II. CRIAÇÃO E RELATO

Rosenzweig distingue três modalidades da linguagem, o diálogo, o coro e o relato, cada qual revelando uma dimensão do tempo: o diálogo é face a face com uma presença, o coro une vozes particulares para pré-dizer uma harmonia sempre por vir, e o relato evoca a ausência do passado, visando sempre um “ele” ou um “isso”, e são três modos de conhecimento que alargam em duas direções novas o domínio do conhecimento conceitual.

III. O PROBLEMA TEOLÓGICO DA CRIAÇÃO

O pensamento novo, que busca superar a oposição entre filosofia e teologia, estuda a Criação como relação de Deus com o mundo, do ponto de vista de Deus, do mundo e da própria relação, mas, por se tratar de realidade que faz corpo com a experiência vivida, não pelo método do pensamento conceitual e sim pelas categorias do pensamento falante, o que significa que a significação interna de cada substância se inverteu.

IV. UMA TEOLOGIA CONCEITUAL: O ISLÃ

Como no primeiro livro as religiões orientais se opõem ao pensamento helênico, a teologia islâmica encarna aqui o tipo de pensamento puramente abstrato, concepção meramente especulativa da religião oposta ao pensamento novo, embora a oposição não seja entre religião “razoável” e religião do coração, pois no pensamento novo a própria noção de religião ganha significação nova.

V. SIGNIFICAÇÃO DA CRIAÇÃO: ANÁLISE LINGUÍSTICA DO DASEIN

Descritos Deus como criador e o mundo como criatura, cumpre descrever o vínculo da Criação, o que exige mudança de método, pois só no horizonte da Revelação se estuda o Criador e a criatura, já que para o pensamento especulativo um conceito não pode sair de si, e a teologia, expressão do movimento das realidades elementares umas para as outras, é linguagem da existência que se volta sobre seus fundamentos, ao passo que a existência mesma se exprime pela linguagem, Revelação vista de dentro.

VI. A REFUTAÇÃO DO IDEALISMO

A. A teoria do conhecimento

O idealismo é também tentativa de superar a visão metalógica: em Platão e Aristóteles o mundo é realidade autônoma mas fechada, sistema clausurado sem relação entre Deus e o mundo, a filosofia grega fundou a objetividade do mundo, sua transparência ao conhecimento, sem situá-lo num sistema geral da Verdade, e a ambição idealista foi conservar o mundo objetivo situando-o no Absoluto, isto é, no pensamento, afirmando ao mesmo tempo sua autonomia e sua dependência, o que talvez a distinção kantiana entre entendimento e Razão tenha oferecido a Fichte e Hegel.

B. A moral

A dedução idealista assemelha-se a emanação, descida do Uno ao múltiplo, e a subida ao Absoluto é a moral, submissão à Razão, ascensão por patamares em que a liberdade se submete a uma ordem superior sem alienar-se, pois nesse “sacrifício” reencontra-se mais pura para submeter-se a racionalidade ainda superior, subordinando-se cada vez a “máxima da vontade” ao “princípio de uma legalidade geral”, por sua vez máxima em relação a princípio superior.

VII. ANÁLISE DO PRIMEIRO CAPÍTULO DO GÊNESIS

O primeiro capítulo do Gênesis narra a Criação do mundo a partir da linguagem, pois as palavras criadoras são também as categorias originárias da linguagem humana, e, pontuado pelo sétuplo “bom” que exprime a aprovação primordial do real, descreve a emergência progressiva do ser-aí do mundo pelas categorias do relato, a terceira pessoa do singular e o passado do indicativo, formas que evocam realidade objetiva.