ROSA, Hartmut. Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016. (Tradução inglesa: Resonance: A Sociology of Our Relationship to the World. Cambridge: Polity Press, 2019).
Em vez de um prefácio: a sociologia e a história de Anna e Hannah
1. Se a aceleração é o problema, a ressonância pode ser a solução, o que significa, em primeiro lugar, que a solução não é a desaceleração, jamais proposta como saída individual ou social para a aceleração, mas no máximo como estratégia de enfrentamento dos problemas cotidianos induzidos pelo ritmo, apesar da imagem de guru da desaceleração atribuída pela imprensa.
2. Se a desaceleração não é a solução, o problema precisa ser definido com mais precisão: as sociedades modernas caracterizam-se por mudanças sistemáticas nas estruturas temporais, resumidas no termo aceleração, entendida como crescimento de quantidade por unidade de tempo e como tendência irrevogável à escalada, já que a formação social da modernidade só se estabiliza dinamicamente, devendo a sociedade capitalista expandir-se, crescer e inovar sem cessar para reproduzir-se, o que transforma radicalmente a relação dos seres humanos com o tempo, o espaço, os outros, os objetos, o próprio corpo e as próprias disposições mentais.
3. A aceleração torna-se problema quando uma compulsão à escalada sem fim e sem rumo conduz a relações com o mundo problemáticas, disfuncionais ou patológicas, observáveis nas três grandes crises atuais: a ambiental, perturbação da relação com a natureza; a da democracia, perturbação da relação com o mundo social; e a psicológica, manifesta no aumento dos casos de burnout, perturbação da relação subjetiva consigo mesmo.
4. As relações problemáticas com o mundo são não apenas consequência, mas também causa da aceleração e da compulsão à escalada, num problema circular que se autorreforça e que constitui uma patologia potencial porque o êxito ou o fracasso da vida dependem do modo como os seres humanos se relacionam com o mundo, questão central de uma sociologia da boa vida.
5. Dois jovens pintores talentosos, Gustav e Vincent, têm duas semanas para pintar um quadro num concurso: Gustav dedica quase todo o prazo a adquirir cavalete, iluminação, tela, pincéis e tintas, a ensaiar técnicas e a procurar o tema certo, só começando a pintar ao entardecer do último dia, enquanto Vincent simplesmente arranca uma folha do bloco, pega suas aquarelas e lápis, põe seu disco favorito e começa a pintar, vendo surgir pouco a pouco um mundo coerente de formas e cores.
6. Gustav, orientado e até fixado em recursos, ignora que possuir os ingredientes não basta para produzir boa arte e que sua fixação unilateral em ampliá-los é justamente o que o impede de criar, ao passo que Vincent, movido pelo desejo de expressar-se e obtendo os meios apenas conforme o processo criativo os exige, embora não tenha garantia de sucesso, que depende de talento e inspiração, tem claramente mais chances.
7. Assim como estar bem equipado de recursos não garante grande arte, também não assegura uma vida bem-sucedida, e a fixação exclusiva neles prejudica ambas, mas os manuais de autoajuda, as doutrinas políticas de prosperidade e as definições sociológicas dominantes de bem-estar e qualidade de vida são tão fixados em recursos quanto Gustav, tomando saúde, dinheiro, comunidade, educação e reconhecimento não apenas como meios, mas como a própria encarnação da boa vida.
8. Isso cria um problema fundamental para a pesquisa empírica sobre a felicidade, pois as pessoas costumam responder sobre sua satisfação com a vida referindo-se a seus recursos, a pesquisa sobre desigualdade parte da suposição de que classes com mais recursos vivem melhor, e o resultado é uma cultura em que o objetivo último da vida é otimizar recursos, restando a pergunta sobre quando, afinal, se pinta e se vive.
9. Os recursos são importantes para a boa vida, assim como não se pinta sem tela nem tintas, mas é problemático que o processo de otimização não tenha fim e que o próprio nível de recursos seja avaliado relacionalmente, em comparação com outros membros da sociedade também envolvidos nesse jogo de escalada.
10. A noção de equilíbrio entre trabalho e vida, consolidada na sociologia, nos debates políticos e na autoajuda, implica que a vida é algo distinto do trabalho entendido como busca de recursos e revela a dificuldade de alcançar esse equilíbrio nas décadas intermediárias dominadas pelas exigências de escalada, de modo que a vida é adiada para a aposentadoria, o que explica a resistência encarniçada ao aumento da idade de aposentar-se, vista como roubo de tempo de vida, embora seja duvidoso que se possa viver bem na velhice depois de décadas de orientação fixada em recursos.
11. Cabe objetar se a analogia entre arte e vida é legítima, qual seria na vida o equivalente da obra de arte para além dos meros recursos, se não seria esotérico ou paternalista definir a forma ou o conteúdo de uma vida bem-sucedida e se, aceitando o pluralismo ético da modernidade, a boa vida não se reduziria a mero sentimento de bem-estar subjetivo.
12. A privatização da questão da boa vida tornou-a quase tabu no discurso social, o que acarreta dois problemas: as vidas modernas orientam-se cada vez mais para assegurar e ampliar recursos e horizontes de possibilidades, negligenciando a obra de arte da vida sob pena de piorar a própria posição na competição, e, sem nenhum exemplo de vida bem-sucedida à vista, faltam instrumentos para determinar quais condições sociais minam sua realização, embora haja boas razões para supor que a lógica de escalada orientada pela competição e pela aceleração, capaz de aumentar os recursos, mina estruturalmente as condições da boa vida, hipótese que só pode ser corroborada se for possível dizer sobre a vida bem-sucedida algo mais substancial e sistemático do que sentir-se bem, sem abandonar o terreno empírico das ciências sociais nem o pluralismo ético.
13. A vida é uma questão da qualidade da relação com o mundo, isto é, dos modos como se experimenta o mundo, como se posiciona em relação a ele e como dele se apropria, modos sempre mediados socioeconômica e socioculturalmente, razão pela qual se trata de uma sociologia da relação com o mundo, na qual a questão do que distingue a boa vida da vida menos boa se traduz na questão do que distingue relações bem-sucedidas e fracassadas com o mundo.
14. Duas mulheres na plenitude da vida, Anna e Hannah, cujo objetivo é viver bem, podem ser acompanhadas ao longo de um dia típico.
15. Às sete da manhã, no café com o marido e os dois filhos adolescentes, Anna troca sorrisos com eles e sente quanto os ama e quanto esses momentos juntos significam tudo para ela.
16. Às oito, a caminho do trabalho sob o sol, Anna aprecia o calor, alegra-se por rever os colegas com quem tem histórias a compartilhar, apressa o passo ao lembrar das flores deixadas em sua mesa e sente-se pronta para trabalhar, pois ama o que faz.
17. Às dezoito horas, na academia, Anna fica contente por poder exercitar-se e aprecia os aspectos lúdicos, estéticos, surpreendentes e competitivos do vôlei com seu grupo, que lhe faz bem independentemente de ganhar ou perder.
18. A experiência de Hannah é muito diferente.
19. Às sete da manhã, no mesmo café com marido e filhos, o mau humor de Hannah é evidente, todos se olham com desagrado, e ela se pergunta o que a liga a essas pessoas além da obrigação de sustentá-las.
20. Às oito, a caminho do trabalho, Hannah detesta a luz forte do sol, teme queimar-se e pensa com desânimo no trabalho e nos rostos sombrios e na tagarelice constante dos colegas.
21. Às dezoito horas, na academia, Hannah pergunta-se o que está fazendo ali, ressente-se de ter de esforçar-se depois do trabalho, não suporta o cheiro do lugar, erra a bola, irrita-se com a ambição das colegas de time e, no fim, alegra-se por ter terminado.
22. Embora a sequência factual dos acontecimentos seja a mesma, Anna teve um dia bem-sucedido e Hannah um dia fracassado, e, se essa diferença for um padrão regular e persistente, há boas razões para dizer que Anna tem uma boa vida e Hannah apenas uma vida modesta, ainda que suas opções e recursos sejam exatamente os mesmos.
23. Não se trata de um moralismo barato segundo o qual bastaria contentar-se com o que se tem, nem de um livro de autoajuda sobre autossuficiência, mas de investigar sobriamente, do ponto de vista das ciências sociais, as condições sociais que tornam a vida de Anna feliz e a de Hannah infeliz, já que é improvável que apenas genes ou hormônios expliquem a diferença e que as três situações descritas são sociais, constituídas ou ao menos enquadradas por relações sociais.
24. No plano fenomênico, a vida de Anna é provavelmente marcada pelo riso, pelo canto e talvez pela dança, enquanto a de Hannah é retraída e talvez amarga, numa relação com o mundo marcada por desconfiança, resistência e rigidez, diferença ilustrada por inúmeras descrições literárias, sobretudo em Narciso e Goldmund, de Hermann Hesse, que mostra também quão complexas e multidimensionais são as vidas e relações humanas com o mundo.
25. A sociologia pouco sabe sobre as condições subjetivas e objetivas associadas a cada modo de relacionar-se com o mundo, pois avalia a qualidade de vida por conceitos como riqueza, educação, status e distribuição de recursos, supondo tacitamente que o dia de Anna representa as classes superiores e o de Hannah as inferiores, generalização não de todo implausível, mas presunçosa e paternalista, que revela uma ciência social que evita analisar relações bem-sucedidas e fracassadas com o mundo e cai num fetichismo dos recursos semelhante ao de Gustav.
26. Longe de justificar a desigualdade crescente na distribuição mundial de capital econômico, social e cultural, cabe mostrar que esse esquema capitalista de distribuição só pode parecer justificável numa sociedade surda e cega à questão da boa vida, que toma o aumento ilimitado e a acumulação privada de recursos como epítome do bem-estar, considera Gustav vencedor e Vincent perdedor, e tem na sociologia da desigualdade fixada em recursos uma cúmplice involuntária.
27. É fácil imaginar Anna como simples estivadora e Hannah como executiva bem-sucedida, pois, como intuiu Georg Simmel em A Filosofia do Dinheiro e desenvolveu Richard Sennett, os seres humanos realizam com alegria atividades que contêm em si mesmas seu fim último, como fazer pão ou rachar lenha, ao passo que preparar uma reunião para explorar um pedido conjunto de financiamento quase não suscita alegria intrínseca, por estarem os fins últimos distantes demais, o que concorda com pesquisas segundo as quais, quanto mais aumentam o status e os recursos, menos tempo se dedica a atividades que trazem felicidade, embora ocupações exigentes proporcionem reconhecimento, melhor remuneração e uma satisfação secundária.
28. A vida é boa não necessariamente quando se é rico em recursos e oportunidades, mas, por mais banal e tautológico que pareça, quando se a ama, quando se mantém uma conexão quase libidinal com as pessoas, lugares, tarefas, ideias, objetos e instrumentos com que se interage.
29. Quando se amam essas coisas, surge entre o sujeito e o mundo algo como um fio vibrante, formado por interesses intrínsecos e pela crença na própria autoeficácia, que implica também poder ser tocado e comovido por pessoas, plantas, montanhas, música, histórias e desafios, desenvolvimento correlato da experiência de reconhecimento social, sem a qual os eixos de ressonância permanecem rígidos e mudos, de modo que Anna se sente sustentada por um mundo responsivo e cheio de desafios estimulantes, enquanto Hannah, numa relação muda, rígida e fria, sente-se lançada num mundo de perigos imponderáveis e à sua mercê.
30. A mesma diferença manifesta-se em inúmeros outros contextos, como numa caminhada pelas montanhas, em que Hannah sofre com o terreno, irrita-se com os outros caminhantes e com os preços, enquanto Anna se maravilha com as paisagens, sente pulmões, alma e o próprio eu se expandirem e desfruta até do cansaço crescente, ou ainda num concerto, no cinema, num culto religioso ou numa festa de família.
31. Para a pessoa infeliz ou deprimida, o mundo parece sombrio, hostil e vazio, e o próprio eu frio, rígido e entorpecido, com eixos de ressonância mudos, o que sugere que a vida bem-sucedida se caracteriza por eixos de ressonância abertos e vibrantes que enchem o mundo de cor e som e permitem ao eu ser tocado, eixos que variam conforme pessoas e culturas, como o gelo vivo para o explorador polar ou o ronco de um carro de Fórmula 1 e a guitarra de heavy metal.
32. Cabe investigar a natureza desses eixos de ressonância e defini-los com mais precisão para além das metáforas literárias, esclarecendo também a relação entre momentos individuais de felicidade, ou de fluxo, segundo o termo de Mihaly Csikszentmihalyi, e a relação mais ampla com o mundo desenvolvida ao longo da vida.
33. Outro objetivo consiste em estudar as condições sociais que favorecem ou dificultam esses eixos de ressonância, já que há razões contextuais, institucionais, estruturais e culturais pelas quais uma vida se assemelha à de Anna ou à de Hannah, como ilustram os gêmeos Adrian e Dorian, idênticos em origem, socialização e recursos, mas que atuam em contextos e posições diferentes e desenvolveram estratégias distintas de apropriação do mundo.
34. Adrian, criado numa cidade pequena, estuda direito e torna-se promotor, frequenta a academia para manter-se em forma, é ateu convicto que aceita a própria mortalidade e prefere a explicação científica do mundo, acompanha e especula moderadamente na bolsa, fascinado por sua racionalidade imprevisível, viaja preferencialmente para cidades e excursões culturais e, no cotidiano, opta pela eficiência dos caixas de autoatendimento, das compras online e dos trens sem condutor.
35. Dorian demora a encontrar seu caminho, estuda arte, história e literatura alemã e torna-se professor, joga futebol até a exaustão, é católico praticante apesar das brincadeiras dos colegas, trabalha como voluntário num grupo de teatro local, passa as férias em longas caminhadas pelas montanhas, pelo mar ou pelo deserto e, no cotidiano, prefere instintivamente o contato pessoal no caixa do supermercado, na agência bancária e na pequena livraria da esquina.
36. Adrian e Dorian diferem não tanto na experiência do mundo, como Anna e Hannah, mas no modo como respondem ativamente a ele e dele se apropriam, pois Adrian segue a estratégia de ampliar seu alcance e dominar instrumental e racionalmente o mundo, enquanto Dorian busca segmentos do mundo voltados a interações criativas e recíprocas e a conexões sociais e extrassociais, diferenciando-se ambos em suas respostas práticas, emocionais, físicas e mentais.
37. Fatores institucionais respondem em primeiro lugar pela intensificação quase autopoiética dessas diferenças biográficas, pois o tribunal é a zona livre de ressonância por excelência, onde não há lugar para empatia ou compaixão e se age de modo estratégico e instrumental, assim como a bolsa, com seus preços que seguem uma racionalidade econômica fria, ao passo que os processos educativos exigem encontro, simpatia genuína e a capacidade de tocar e ser tocado, de modo que, embora ambas as salas possam crepitar em momentos críticos, a natureza desse crepitar difere.
38. Na academia raramente há crepitar, pois nela predomina a otimização instrumental e quantificável dos movimentos e músculos, enquanto o futebol pode produzir uma relação com o mundo que inclui momentos estéticos, lúdicos, comunitários e de experiência compartilhada, momentos mágicos e inquantificáveis de qualidade distinta da satisfação obtida nos aparelhos de ginástica, mesmo considerando as intensas ressonâncias corporais do treino sistemático.
39. Fatores culturais, no sentido de representações cognitivas e emocionais do mundo, também contribuem para a diferença entre Adrian e Dorian, já que católicos e ateus diferem num sentimento básico do mundo que precede suas crenças conscientemente formuladas, como exprime William James em seu livro sobre as variedades da experiência religiosa.
40. A religião é a reação total do homem à vida, distinta das reações casuais e das atitudes habituais ou profissionais, e só se alcança indo além do primeiro plano da existência até aquele sentimento singular do cosmos inteiro como presença eterna, íntima ou estranha, terrível ou divertida, amável ou odiosa, que torna cada um zeloso ou descuidado, devoto ou blasfemo, sombrio ou exultante, constituindo a resposta mais completa, involuntária e semiconsciente à pergunta sobre o caráter do universo em que se vive.
41. Permanece em aberto em que medida as diferenças cognitivas e teológicas entre católicos e ateus, diferentes seitas protestantes ou religiões mundiais são causa ou resultado de diferenças emocionais e existenciais em sua situação no mundo, pois, como observa James, o que separa os estoicos dos cristãos é mais uma diferença de disposição emocional que de doutrina, e se é razoável supor que a crença molda a experiência e a apropriação do mundo, há igualmente boas razões para supor que o fundamento emocional inacessível da relação com o mundo determina quais crenças parecem razoáveis.
42. A escolha entre o caixa de autoatendimento silencioso e a interação pessoal com o caixa, ou entre a compra online e a loja física, ou ainda entre a bolsa e o voluntariado no teatro, parece mera questão de estratégia individual de ação modelável pela teoria da escolha racional, que privilegia ora a eficiência no uso do tempo e do dinheiro, ora o encontro pessoal, mas essa teoria não explica, por si só, as diferenças resultantes na relação entre sujeito e mundo.
43. A relação com o mundo é influenciada ainda por fatores como a paisagem e o clima, pois no cume de uma montanha ou à beira-mar se está situado no mundo de modo diferente que numa grande cidade, e o mundo literalmente se sente diferente no Mediterrâneo, na tundra ou nos subtrópicos, sendo a escolha dos ambientes preferidos ao mesmo tempo causa e consequência da relação primária com o mundo, que, no entanto, não é fixa, mas mutável ao longo da vida dentro de certos limites e dependente de fatores contextuais, como a estranheza ou familiaridade do ambiente social.
44. Reduzida a um denominador comum com base em Herbert Marcuse, a diferença entre Adrian e Dorian opõe o Logos ocidental, que marca a relação antagônica de Adrian com o mundo, em que os objetos são pontos de agressão, a ação é dominação e a realidade é resistência, voltada à determinação, à conquista e à ampliação de conhecimento, opções e alcance, ao Eros de Dorian, orientado para a receptividade criativa, as interações bem-sucedidas e a adaptação do mundo a si em vez de seu domínio, diferença que se manifestaria até no modo de tratar o corpo, os filhos, as leituras e os gestos mais cotidianos, como no aperfeiçoamento constante do equipamento de som por Adrian e na escuta efetiva de música por Dorian, e que uma sociologia plenamente desenvolvida da relação com o mundo deveria identificar até no respirar, rir, andar, falar, dormir e dançar.
45. Associar Dorian, como artista da ressonância, a Anna, e Adrian, como experiência instrumental e fria do mundo, a Hannah seria prematuro, pois Anna e Hannah representam modos de experimentar o mundo e Adrian e Dorian modos de apropriar-se dele, numa relação complexa, historicamente mutável e variável entre indivíduos, de modo que se pode imaginar Dorian sem ressonância, diante de alunos indiferentes e de um catolicismo ossificado, e Adrian em ressonância duradoura com a ordem do tribunal, com o próprio corpo na academia ou com a sinfonia mundial das cotações, sendo as relações com o mundo em grande parte coletivas, enraizadas em práticas, instituições e dispositivos no sentido de Foucault, de modo que o predomínio do Logos ou do Eros depende da formação social como um todo e o êxito de uma vida depende tanto das condições socioculturais quanto de sua compatibilidade com a própria disposição.
46. Apesar dessas ressalvas, há inegavelmente uma afinidade eletiva entre Gustav, Hannah e Adrian, de um lado, e Vincent, Anna e Dorian, de outro, cuja análise sistemática constitui a tarefa proposta, servindo essas personagens como pontos de referência recorrentes: Gustav encarna a maximização de recursos, Vincent o artista orientado pelo processo e conhecedor da vida, Anna os eixos de ressonância intensos e duradouros, Hannah a experiência alienada e fracassada do mundo, Adrian a apropriação do mundo pelo domínio e pela ampliação de opções e Dorian a apropriação do mundo pela adaptação mimética.
47. As diferenças de atitude perante o mundo e de modos de apropriação podem ser compreendidas como diferenças de estratégias para buscar ressonância e evitar alienação, pois todos os sujeitos experimentam ao longo da vida momentos constitutivos de ressonância em que o fio que os liga ao mundo vibra intensamente e a relação com o mundo começa a respirar.
48. Todos conhecem momentos em que a vida universal parece envolver o ser humano com amizade, como na juventude e na saúde, no verão, nos bosques ou nas montanhas, quando o tempo parece sussurrar paz e a bondade e a beleza da existência o envolvem como um clima quente e seco ou ressoam nele como se seus ouvidos interiores tilintassem com a segurança do mundo.
49. Inversamente, todos experimentam também momentos de extremo desamparo em que o mundo se apresenta hostil e frio e o sujeito se sente, como no Livro das Horas de Rilke, um órfão excluído para quem tudo o que antes o abrigava se tornou clausura, de modo que as escolhas de vida derivam da busca daqueles oásis constitutivos de ressonância e do esforço complementar para não repetir as experiências do deserto.
50. A relação com o mundo não se define pelos campos de atuação ou tipos de atividade, mas pela análise da atitude e da experiência perante o mundo, e a capacidade de desenvolver e manter eixos constitutivos de ressonância depende da disposição física, biográfica, emocional, psicológica e social do sujeito, da configuração institucional, cultural, contextual e física dos segmentos de mundo em que atua e da relação entre ambos, de modo que até desertos, paisagens nevadas e postos de gasolina podem tornar-se oásis de ressonância, e a alienação, como relação muda, fria, rígida ou fracassada com o mundo, resulta de uma subjetividade danificada, de configurações sociais e objetais hostis à ressonância ou de incompatibilidade entre sujeito e segmento de mundo, dispensando pressupostos substancialistas sobre a essência humana, já que as relações com o mundo são configurações totais histórica e culturalmente variáveis que geram os próprios sujeitos e objetos, e sua sociologia constitui também uma crítica das relações de ressonância historicamente realizadas e, assim, uma forma modificada e renovada de Teoria Crítica.