Introdução dos “Objetos Eternos”: Uma Distinção Fundamental
No “Esquema Categorial”, Whitehead distingue dois tipos fundamentais de entidades: entidades atuais e objetos eternos.
Objetos eternos possuem uma “finalidade extrema”, estando no mesmo plano fundamental que as entidades atuais.
Risco de leitura: ver nisto um dualismo radical (esferas separadas da realidade), o que violaria os princípios do monismo ontológico e do princípio ontológico até então seguidos.
Função dos objetos eternos: responder à questão do como (the “how”) da individuação.
A Necessidade dos Objetos Eternos: A Fonte da Novidade
Sem objetos eternos, só haveria preensões físicas (unificação de outras entidades atuais).
Neste cenário, a nova entidade seria apenas uma repetição da diversidade disjuntiva anterior. A novidade seria redutível a causas preexistentes (mecanicismo).
O problema: embora uma entidade seja uma “herança” ou “repetição”, ela é uma repetição de um modo particular, de uma maneira (manner, mode, how) irreduzível ao que ela repete.
Este “modo” é a origem e fonte da novidade. Os objetos eternos determinam este “como”: como as entidades atuais incluem outras? Como elas se realizam? Como herdam e deixam herança?
Objetos eternos são, portanto, determinantes da preensão e da individuação. Termo mais adequado: “determinantes eternos”.
O Que São Objetos Eternos? Uma Tipologia do “Como”
Não são “objetos” no sentido comum. Referem-se a formas abstratas, apartadas de nossos modos de percepção.
Incluem:
Sensa qualitativos: “verde”, “azul”, nuances de cor, vermelhidão “sentida com fruição emocional”.
Qualidades de forma e intensidade.
Estados ou convicções: “ser amado”, “alegria”.
Objetos de tipo objetivo: formas matemáticas.
Termos relacionais: “cada”, “exatamente aquilo”.
Padrões (patterns) e relações.
São potencialidades puras, em contraste com a potencialidade real da diversidade disjuntiva.
A Eternidade como Consequência Técnica, não Postulado
Por que “eternos”? Resposta técnica, derivada das restrições do sistema:
O conceito de entidade atual identifica-se com a existência.
Existência é essencialmente um devir (becoming).
Todo devir é gênese de uma entidade atual.
Se objetos eternos fossem sujeitos a um devir, eles viriam de entidades atuais (devires concretos), o que os reduziria a “dados”.
Eternidade refere-se a um regime de ser onde não há nascimento, origem, transformação ou fim – qualidades exclusivas das entidades atuais.
Objetos eternos são “potencialidades puras”, possibilidades puras que não se referem diretamente a nada que exista.
Transformando o Platonismo: Ingressão vs. Participação
Whitehead afirma uma linhagem platônica para seu pensamento, mas se refere às “riquezas de ideias gerais” dispersas nos escritos de Platão, não ao esquema sistemático extraído pelos estudiosos.
Interesse específico no Timeu: dualismo sem hierarquia entre duas ordens irredutíveis:
1. Ordem das “ideias” ou “formas” (que mantêm sua forma imutavelmente, não são geradas, não percebidas pelos sentidos) → equivalente aos objetos eternos.
2. Ordem do sensível (que compartilha o nome e se assemelha ao inteligível, é percebido, gerado, perece) → equivalente às entidades atuais.
Crítica à teoria platônica da participação, que reduz o sensível ao inteligível por semelhança e valoriza excessivamente o modelo matemático/dedutivo, “absorvendo a atualidade na possibilidade”.
Operação alternativa de Whitehead: ingressão (ingression).
Processo pelo qual a potencialidade de um objeto eterno é realizada numa entidade atual particular, contribuindo para a definitude (definiteness) dessa entidade.
A relação é invertida: as potencialidades encontram sua existência nas entidades atuais, através da ingressão, e não o contrário.
Isto fundamenta um empirismo radical: objetos eternos nada nos dizem sobre sua ingressão na experiência. Para vê-la, é preciso aventurar-se no domínio da experiência.
Dualismo mantido (ação vs. potencialidade pura), mas pensado internamente a um monismo onde toda potencialidade está conectada a uma atualidade.
O Modo de Realidade dos Objetos Eternos: Três Proposições Gerais
1. Objetos eternos são abstratos por natureza.
Existem apenas através de suas ingressões, sem jamais serem totalmente adequados ou identificáveis a elas.
Mantêm uma “neutralidade ontológica”, um “sobrevoo” (être-en-survol) da potencialidade, permitindo serem encarnados em várias entidades sem alterar sua natureza.
2. Não há novos objetos eternos.
Consequência lógica da eternidade. O que é eterno não tem começo nem fim.
Inspiração leibniziana: há ideias e princípios que encontramos em nós mesmos sem tê-los formado, sendo os sentidos a ocasião para tomarmos consciência deles.
Como determinantes da individuação, não podem ser produzidos por a individuação.
3. Objetos eternos têm dimensões relacionais.
Cada objeto eterno é um indivíduo, mas não pode ser divorciado de suas relações com todos os outros.
Há um universo relacional de objetos eternos, um tecido de conexões e sistemas que varia continuamente conforme suas ingressões nas entidades atuais.
Em sua essência, há uma determinidade quanto às relações com outros objetos eternos, e uma indeterminação quanto às relações com ocasiões atuais (entidades).
Analogia com o matemático Albert Lautman: dialética de ideias como dinamismo de “potencialidades puras”, relações ideais que se realizam na matemática (e, para Whitehead, na existência concreta).