Helmuth Plessner (1892–1985)
Filósofo, zoólogo, sociólogo e ensaísta alemão, professor nas universidades de Colônia, Groningen e Göttingen (onde ocupou a cátedra de Sociologia e foi reitor nos anos 1960), Helmuth Plessner é, ao lado de Max Scheler e Arnold Gehlen, o fundador e o mais rigoroso formulador da antropologia filosófica contemporânea. Formado em zoologia sob a orientação do embriologista e filósofo vitalista Hans Driesch (na Universidade de Heidelberg) e em filosofia sob a tutela epistemológica de Paul Natorp e Wilhelm Windelband, Plessner doutorou-se em Erlangen e obteve sua livre-docência na Universidade de Colônia com a interlocução direta de Max Scheler. Perseguido pelo regime nacional-socialista a partir de 1933 em razão de sua ascendência judaica paternal, exilou-se nos Países Baixos, sobrevivendo na clandestinidade antes de retornar à cátedra alemã no pós-guerra. A intervenção teórica de Plessner notabilizou-se pela superação categorial do dualismo cartesiano (corpo-extenso versus alma-pensante) mediante uma ontologia comparada dos graus do vivente orgânico (Stufen des Organischen), pela dedução conceitual da posicionalidade excêntrica (exzentrische Positionalität) humana e pela teorização do riso e do choro como rupturas expressivas e corporais nos limites da linguagem e da razão.
1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)
PLESSNER, Helmuth. Die wissenschaftliche Idee eines Systems der Physiognomik: Ein Beitrag zur Theorie der Naturerkenntnis. Heidelberg: Winter, 1913.
PLESSNER, Helmuth. Die Einheit der Sinne: Grundlinien einer Ästhesiologie des Geistes. Bonn: Friedrich Cohen, 1923.
Foco: Tratado fundacional de epistemologia e fenomenologia da percepção sensível; fundação da “estesiologia do espírito”. Plessner recusa o primado hegeliano da razão abstrata e o sensualismo atômico empirista para investigar a correlação imanente entre as formas sensoriais corporais (o tato, o olhar, o ouvido) e as próprias modalidades categorialmente expressivas pelas quais o sentido espiritual se constitui.
PLESSNER, Helmuth. Grenzen der Gemeinschaft: Eine Kritik des sozialen Radikalismus. Bonn: Friedrich Cohen, 1924. (2ª ed.: Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1972).
Foco: Obra seminal de sociologia e filosofia política; desconstrução da oposição romântica e perigosa entre “comunidade” pura (Gemeinschaft, fundada no sangue, na fusão afetiva e na intimidade transparente) e “sociedade” fria (Gesellschaft). Plessner demonstra que a pretensão comunitarista e totalitária de transparência absoluta aniquila a dignidade humana, defendendo a esfera pública formal, a etiqueta, a distância cívica, o tato diplomático e a máscara social como salvaguardas necessárias da liberdade e do pudor ontológico da pessoa.
PLESSNER, Helmuth. Die Stufen des Organischen und der Mensch: Einleitung in die philosophische Anthropologie. Berlin/Leipzig: Walter de Gruyter, 1928. (2ª ed. ampliada com prefácio teórico: Berlin: Walter de Gruyter, 1965).
PLESSNER, Helmuth. Macht und menschliche Natur: Ein Versuch zur Anthropologie der geschichtlichen Weltansicht. Berlin: Junker und Dünnhaupt, 1931.
PLESSNER, Helmuth. Lachen und Weinen: Eine Untersuchung nach den Grenzen menschlichen Verhaltens. Arnhem: Van Loghum Slaterus, 1941. (Edição alemã canônica: Bern: Francke, 1950; tradução para o inglês: Laughing and Crying: A Study of the Limits of Human Behavior. Evanston: Northwestern University Press, 1970).
Foco: Monografia clássica redigida durante o exílio nos Países Baixos; investigação fenomenológica do riso e do choro como fenômenos exclusivamente humanos. Plessner demonstra que o homem ri ou chora nos momentos exatos em que a sua consciência reflexiva e a sua linguagem entram em colapso perante uma situação ambígua, cômica, assustadora ou trágica que não pode ser dominada pelo intelecto: nesses momentos de limite, a unidade entre homem e corpo se fratura e o próprio corpo assume o comando da conduta expressiva de forma autônoma.
PLESSNER, Helmuth. Das Schicksal deutschen Geistes im Ausgang seiner bürgerlichen Epoche. Zürich/New York: Rhein-Verlag, 1935. (Reeditado no pós-guerra sob o célebre título definitivo: Die verspätete Nation: Über die politische Verführbarkeit bürgerlichen Geistes. Stuttgart: Kohlhammer, 1959).
Foco: Obra histórica e sociopolítica de referência sobre a genealogia do fascismo e do totalitarismo na Alemanha; análise da “nação tardia” (verspätete Nation). Plessner diagnostica as raízes estruturais do colapso civilizacional alemão na unificação nacional prussiana artificial, na ausência de uma revolução burguesa emancipatória, na despolitização luterano-romântica da vida espiritual interior e na rejeição cega dos valores universais da civilização iluminista ocidental.
PLESSNER, Helmuth. Conditio Humana. Pfullingen: Neske, 1964.
PLESSNER, Helmuth. Die Frage nach der Conditio humana: Aufsätze zur philosophischen Anthropologie. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1976.
2. A Fixação Filológica: Gesammelte Schriften
PLESSNER, Helmuth. Gesammelte Schriften. Edição organizada e anotada por Günter Dux, Odo Marquard e Elisabeth Ströker, em cooperação com Richard W.
Meyer. 10 volumes. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1980–1985.
3. Recepção Acadêmica e Circulação no Espaço Lusófono
4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica
A Crítica ao Dualismo Cartesiano e a Teoria das Fronteiras Vivas: Plessner recusa o ponto de partida clássico de René
Descartes, que partiu o cosmos entre a matéria inerte extensa (
res extensa) e a mente pensante incorpórea (
res cogitans). Esse dualismo cega a filosofia para a realidade do
ser vivo. Um organismo não é uma máquina física que abriga um fantasma interior, mas um ente caracterizado por uma fronteira dinâmica ativa com o seu meio (
Grenze). Uma pedra inerte tem contornos geométricos passivos que terminam onde o ambiente começa; o vivente, pelo contrário, põe ativamente o seu próprio limite: ele cruza a sua fronteira pela respiração, nutrição e reprodução, e ao mesmo tempo preserva a sua identidade contra o meio exterior. Existir como ser vivo é ter uma relação ativa com a sua própria borda corporal — é possuir
posicionalidade (
Positionalität).
A Posicionalidade Excêntrica e a Dupla Relação Corporal: O núcleo ontológico que separa a espécie humana de todos os animais reside na posicionalidade excêntrica. O animal superior possui um centro de controle (zentrische Positionalität): ele age, percebe e sofre a partir do seu corpo, mas ele é* inteiramente esse centro, vivendo absorvido no seu meio biológico imediato sem conseguir sair de sua própria perspectiva. O ser humano, por outro lado, atinge um patamar reflexivo vertiginoso: ele sabe que é um centro, projeta-se para fora de si mesmo e observa a si próprio a partir de um terceiro ponto exterior. O homem vive, assim, em uma cisão incontornável, expressa no desdobramento de sua experiência corporal:
* 1. O homem é um corpo vivo (*Ich bin mein Leib): a vivência da carne interna imediata, os impulsos biológicos, a vulnerabilidade e a finitude física;
As Três Leis Antropológicas Fundamentais:
1. A Lei da Artificialidade Natural (Das Gesetz der natürlichen Künstlichkeit): Visto que a sua constituição biológica o privou de nichos ecológicos especializados e de instintos fechados, o homem precisa forjar a sua existência mediante a cultura, as ferramentas, os símbolos, a técnica e a linguagem. A cultura não é um verniz superficial imposto à natureza humana, mas o seu meio biológico necessário de sobrevivência. O homem é “por natureza artificial”;
2. A Lei da Imediaticidade Mediada (Das Gesetz der vermittelten Unmittelbarkeit): Toda experiência direta do mundo exterior só chega à consciência humana mediada pelos esquemas simbólicos, linguísticos e culturais da comunidade histórica, embora o sujeito viva essas experiências como se fossem imediatas e puras;
3. A Lei do Lugar Utópico (Das Gesetz des utopischen Standorts): Porque a sua posicionalidade é excêntrica e o arranca de qualquer ancoragem natural fixa, o homem jamais encontra descanso em nenhuma ordem social ou biológica temporal. O ser humano é estruturalmente um sem-pátria ontológico (heimatlos), habitando o “lugar utópico” (o não-lugar), condenado a questionar infinitamente as certezas do presente e a transcender a realidade em busca do Absoluto, da arte e da transcendência.
O Riso e o Choro como Fraturas da Conduta Humana: Em sua clássica fenomenologia do riso e do choro (Lachen und Weinen), Plessner examina as únicas reações psicofísicas que não possuem análogo nos animais nem podem ser desempenhadas voluntariamente pela fala racional. O riso e o choro emergem quando a relação entre o homem e o seu corpo entra em colapso. Diante de uma situação paradoxal que a mente não consegue equacionar nem a linguagem exprimir:
No riso (provocado pelo cômico ou pelo absurdo), a resposta da consciência é subitamente desarmada; o homem recusa o desespero e capitula alegremente perante a ambiguidade, explodindo em espasmos sonoros rítmicos que interrompem o discurso;
No choro (provocado pela perda trágica, pela comoção sublime ou pela dor insuperável), a capacidade de ação e defesa do sujeito é inteiramente aniquilada; o homem rende-se ao desamparo e o corpo assume a cena através das lágrimas e do pranto convulsivo.
Em ambos os casos, a posicionalidade excêntrica é suspensa temporariamente: o homem perde o controle soberano do “ter um corpo” e é reabsorvido pela facticidade pura do “ser corpo”, revelando a vulnerabilidade sublime que demarca as fronteiras ontológicas do humano.