DIGNIDADE DO HOMEM

Prefácio de Yves Hersant

No final do ano de 1485, um jovem e rico aristocrata, que já havia se tornado famoso pela amplitude de seus conhecimentos, concebeu um projeto impressionante: reunir, às suas custas, na capital da cristandade e sob a presidência de Inocêncio VIII, os maiores sábios da Itália, para um debate sem precedentes «sobre os sublimes mistérios da teologia cristã, sobre as questões mais profundas da filosofia e sobre doutrinas desconhecidas». O ambicioso organizador (que já havia compilado, oito anos antes, decretos do direito canônico) pretendia submeter à discussão um vasto corpus de Conclusiones: algumas de sua autoria, outras emprestadas dos grandes autores. Setecentas teses no total, logo aumentadas em duzentas, a fim de atingir um número “místico”: aquele que simboliza, para a Cabala, a capacidade de conhecer tudo. Na primeira parte do debate, tratava-se de remontar o curso da história, para submeter a exame uma imensa tradição: da escolástica a Zoroastro, passando pelos árabes, os cabalistas, os comentadores de Aristóteles e de Platão. Em um segundo momento, cabia ao próprio Giovanni Pico submeter à crítica suas próprias interpretações e teses. Essa pacífica disputatio, que uma confrontatio colocava em movimento, deveria expor aos olhos de todos a concordância das sabedorias, a convergência dos métodos, a coesão das doutrinas.