Pensamentos

PASCAL, Blaise. Pensées de M. Pascal sur la religion et sur quelques autres sujets, qui ont esté trouvées après sa mort parmy ses papiers. Paris: Guillaume Desprez, 1670. (Conhecida como Edição de Port-Royal; póstuma).

Apresentação de Dominique Descotes

1. Desde Voltaire, uma longa tradição crítica vê em Pascal ao mesmo tempo um grande clássico e um sedutor perigoso cuja arte se admira sem que se aceitem seus raciocínios, de modo que, diferentemente de Descartes, ele nunca fez escola, sendo seu projeto apologético rejeitado, seus temas mais brilhantes citados fora de contexto e suas teorias mais radicais atenuadas até pelos amigos.

2. Pascal é um autor menos clássico do que se supõe, pois os Pensamentos são conhecidos apenas fragmentariamente e os Escritos sobre a graça e as análises do sentido das Escrituras permanecem na sombra, ignorância que se deve sobretudo à originalidade de uma obra que não é tratado filosófico, autobiografia mística nem mera apologia, mas forma literária sem equivalente, ao mesmo tempo fragmentária e sistemática.

3. É artificial isolar os Pensamentos do restante da obra pascaliana, pois neles ressoam todos os trabalhos científicos, teológicos e filosóficos anteriores e toda a experiência do autor nos meios eruditos, religiosos, burgueses e mundanos, refletida e criticada num movimento de reflexão que sempre retorna sobre si mesma e interroga o sentido do que já foi escrito.

4. Embora seja difícil datar a decisão de escrever uma apologia contra os indiferentes e libertinos, seu princípio já aparece em 1648, quando Pascal sustenta perante o Sr. de Rebours que os princípios do senso comum e o raciocínio bem conduzido levam a crer, e torna-se mais nítido na Conversa com o Sr. de Sacy de 1655, em que Epicteto e Montaigne, em sua contrariedade, servem de introdução ao cristianismo, única doutrina capaz de conciliar grandeza e corrupção humanas pela oposição entre pecado e graça.

5. A noite do Memorial em 1654, que encerra uma crise espiritual e decide Pascal a travar o bom combate pela religião, e sobretudo a cura de sua sobrinha pelo Santo Espinho em 1656, que orienta sua reflexão sobre os milagres, contribuem para o nascimento do grande desígnio apologético, já amplamente realizado em 1658, quando ele expõe o plano da obra em Port-Royal, e interrompido pela morte quando os fragmentos começavam a ser ordenados.

6. Se o grande desígnio data apenas da segunda conversão, os grandes temas dos Pensamentos prolongam as preocupações mais antigas de Pascal, como a separação entre fé e razão aprendida com o pai, a leitura precoce das Escrituras e as reflexões epistemológicas da querela do vazio, de modo que conhecer suas fontes e contexto é indispensável para compreender a partir de que e contra quem escreve esse polemista quase constante.

7. A experiência vivida de Pascal nos meios científicos, mundanos, religiosos e até políticos reaparece nos Pensamentos, das reflexões sobre o espírito de finura inspiradas pelo cavaleiro de Méré à tipologia dos ingênuos, semi-hábeis e hábeis sugerida pela turbulência da Fronda, passando pelas disputas com os jesuítas e pelos problemas da graça e da moral relaxada que atravessam todos os fragmentos.

8. A experiência livresca é igualmente reativada, sobretudo por meio de Epicteto e Montaigne, interlocutores principais em moral e conhecimento do homem, com quem e contra quem Pascal sempre fala, representantes de correntes vivas, o neoestoicismo e o ceticismo epicurizante, percebidas como dupla ameaça ao cristianismo, de modo que os Pensamentos formam uma polifonia de filósofos, eruditos, mundanos e cristãos.

9. Seria equivocado supor que Pascal apenas recolheu ao acaso ideias alheias sem coerência, como sugere a constatação de que temas como o divertimento já haviam sido expostos por Sêneca, pois isso ignora o duplo trabalho crítico e literário que transforma radicalmente o sentido e a natureza dos materiais da Apologia.

10. No trabalho crítico, Pascal retoma suas experiências anteriores de um ponto de vista novo para interpretá-las, como na reflexão sobre a querela das Provinciais, em que, mais do que atacar os jesuítas, procura compreender o conflito mediante a distinção entre cristãos carnais e espirituais, esquema que situa a polêmica na história universal da Igreja e faz dos Pensamentos uma reflexão crítica de Pascal sobre si mesmo.

11. A elaboração literária encerra toda a originalidade do problema pascaliano, pois, contra a ideia voltairiana de anotações feitas ao acaso, a dispersão dos fragmentos revela que Pascal sabia exatamente como cada peça se inseria no conjunto, paradoxo de uma criação ao mesmo tempo rigorosa e lacunar que só se explica pelos seus métodos de trabalho.

12. Ao contrário de Descartes, para quem a dúvida silencia todas as opiniões e resta um único discurso verdadeiro que parte do cogito, Pascal toma como matéria os discursos efetivamente existentes e as condutas humanas observáveis, situando-se, como empirista, na rede de discursos de sua época e tratando-os como fatos de experiência dignos de interpretação, já que cada um tem razão do ponto de vista em que se coloca.

13. Todo discurso é determinado pelo ponto de vista de quem fala e comporta zonas de luz e de sombra, como mostram as perspectivas opostas e parcialmente verdadeiras de Epicteto, que vê a grandeza do homem sem ver sua miséria, e de Montaigne, que vê sua baixeza sem ver os restos de sua dignidade, sendo a grande originalidade pascaliana em relação ao cartesianismo ter tomado pela primeira vez o discurso como matéria da reflexão.

14. Inversamente, os fatos são tratados como discursos, pois a descrição de uma conduta nunca se separa de sua interpretação, como na reconstituição da justificação coerente do divertimento que os próprios divertidos dariam se conhecessem a si mesmos, o que faz de Pascal um empirista do discurso cuja reflexão toca de perto a retórica sem deixar de ser apologia da religião cristã.

15. Esse empirismo não é recepção passiva, mas paixão pela ordenação, apoiada em coletâneas de citações e excertos, como nos Escritos sobre a graça e na Conversa com o Sr. de Sacy, em que extratos literais ou modificados de Epicteto e Montaigne são encadeados para formar um conjunto coerente e homogêneo, procedimento também presente nos Pensamentos.

16. A partir desses extratos constrói-se um discurso ideal, mais denso e rigoroso que o natural, ordenado por um princípio único, como no modelo estrutural do cético em que tudo, da dúvida absoluta à moral epicurista e à indiferença quanto ao próprio fim, decorre quase geometricamente da ideia de corrupção humana, ordenação que empresta a Montaigne e Epicteto mais do que deles toma.

17. Os Pensamentos generalizam esse princípio, tratando Epicteto e Montaigne como modelos ideais de tipos de filósofos e ampliando a tipologia segundo as oposições entre pirrônicos e dogmáticos, epicuristas e estoicos, e segundo a concupiscência secreta, desejo de saber, de gozar ou de dominar, que comanda cada seita, de modo que à dualidade da Conversa se substitui uma constelação diferenciada de discursos filosóficos.

18. Fora da filosofia, a classificação dos homens em ingênuos, semi-hábeis, hábeis, devotos e cristãos perfeitos define cada categoria por um ponto de vista próprio e irredutível sobre a ordem do mundo, compondo uma tipologia complexa que mantém as diferenças específicas, como entre o povo e o hábil que fala como ele mas guarda seu pensamento de trás da cabeça, e ao mesmo tempo marca relações de analogia.

19. Essa tipologia constitui a base da argumentação pascaliana, criando uma rede dos principais discursos possíveis que se opõem, se respondem ou se correspondem, na qual o leitor percebe não só contradições, mas também afinidades secretas, ouvindo em Montaigne todos os céticos e em Descartes todos os dogmáticos.

20. As classificações nunca caem na secura retórica, pois Pascal desenvolve e diversifica os temas essenciais de cada discurso, emprestando sua própria eloquência ao estoico ou ao pirrônico, de modo que cada discurso é ao mesmo tempo rigoroso e vivo, conciliando a maior liberdade de criação com a exigência fundamental de ordem.

21. A matéria dos Pensamentos difere por natureza da das Meditações, pois sua textura é o diálogo e o entrecruzamento de discursos numa rede complexa, e à via linear do encadeamento cartesiano das razões opõe-se uma busca serpentina que transita entre pontos de vista no coração das disputas da época, substituindo a cadeia das razões pelo labirinto dos discursos.

22. Daí a forma fragmentária, que não exprime, como pretende Lucien Goldmann, um pensamento em contradição consigo mesmo, mas a reconstrução de apenas um elo ou orientação argumentativa de discursos cujo lugar na economia da obra é perfeitamente conhecido, de modo que as indicações elípticas ecoam um discurso coerente desenvolvido alhures e manifestam a extrema exigência de ordem.

23. Daí também a frequência da forma dialogada, presente no argumento da aposta e em quase todos os textos desenvolvidos, bem como, de modo elíptico, em fragmentos breves nos quais se passa num relance de um ponto de vista a outro por inversão do pró ao contra, sendo a imagem do caniço pensante o exemplo extremo que reúne numa fórmula as perspectivas opostas de Epicteto e Montaigne.

24. A mestria pascaliana consiste em prender o leitor numa espécie de máquina infernal da qual só se sai vencido e persuadido, verdadeira armadilha literária comparável apenas à de Rousseau, em que uma encenação desenha o lugar do leitor e o vós que o interpela o força progressivamente a identificar-se com o eu, de modo que, imitando a busca, ele acaba por buscar.

25. A partida está ganha porque os tipos de discurso reconstruídos são amplos, formais e variados o bastante para representar todas as opiniões possíveis sobre o homem, de modo que o leitor necessariamente se reconhece em alguma posição, ingênuo, semi-hábil ou devoto, Montaigne ou Descartes, Epicuro ou estoico, e está embarcado, sendo rebaixado se se exalta e exaltado se se rebaixa.

26. A armadilha consiste em que toda opinião é incessantemente criticada em nome de outra em todos os domínios, como os céticos que refutam com razão os dogmáticos e os dogmáticos que com razão confiam na natureza, ou os semi-hábeis que não confundem costume e lei natural e o povo que tem ainda mais razão ao recusar a subversão dos Estados.

27. A crítica pascaliana é fundamentalmente um método de interpretação que busca a razão dos efeitos e o princípio que dá sentido profundo e oculto a cada opinião, revelando, por exemplo, que o ceticismo esconde um dogmatismo larvado e se refuta a si mesmo, que a semi-habilidade equivale à ingenuidade que despreza e que a loucura dos inimigos judeus do cristianismo serve apenas para estabelecê-lo.

28. O nervo da argumentação está em que o sentido verdadeiro de um discurso é sempre o contrário de seu sentido explícito, pois afirmar a grandeza do homem prova sua presunção e miséria, enquanto reconhecer-se miserável prova sua dignidade, de modo que nenhum discurso escapa à inversão e o próprio leitor, identificado ao eu, é arrastado de uma opinião a outra, reconhecendo-se no que lhe é mais contrário, como um eu que é outro.

29. Reduzido ao silêncio por não poder dizer nada sem se refutar, o leitor de boa-fé fica de certo modo convencido e disposto a escutar a palavra de Deus, única capaz de ordenar um caos insuportável, o que mostra que não há em Pascal uma intenção apologética separada de uma filosofia do discurso, pois a reflexão retórica é a própria matéria da Apologia e encontra seu fundamento na palavra divina.

30. A Revelação, contida na ideia do pecado original e na pessoa de Jesus Cristo, torna compreensível o homem, incompreensível a si mesmo sem ela, ao distinguir duas naturezas, uma gloriosa antes da queda e outra decaída e submetida à concupiscência depois dela, distinção que explica todas as contrariedades humanas.

31. A pessoa de Jesus Cristo torna-se o ponto fixo que devolve às opiniões diversas sua verdade e seu sentido, permitindo atribuir a dignidade à natureza anterior à queda e a baixeza à natureza decaída e, assim, falar sem contradição, de modo que a Revelação torna a filosofia inútil, pois esta nunca conduziu à salvação, mas também possível, pois sem aquela todo pensamento recai no caos.

32. A Revelação é a razão de todos os efeitos, pois é por Deus querer se ocultar que existem incrédulos e que os judeus não compreenderam o sentido espiritual das Escrituras, de modo que até os piores inimigos do cristianismo o reforçam e a religião explica tanto o que lhe é contrário quanto o resto, sendo a razão secreta de ser de tudo.

33. Da experiência de físico Pascal conserva o princípio de que uma hipótese, mesmo explicando muitos fatos, pode ser questionada, e por isso exige das Escrituras provas de sua própria verdade, encontradas nos milagres, na perpetuidade da religião cristã ao longo da história e nas profecias.

34. A última e menos lida parte dos Pensamentos dá razão de tudo o que precede, mostrando que a Escritura, regra de todo discurso possível sem a qual tudo é confusão, é o único discurso que traz em si sua própria razão de ser e as marcas de sua verdade, cujo sentido oculto sob o literal se explica pela vontade divina de se ocultar e pela corrupção humana que impede compreendê-lo.

35. Razão de todos os efeitos e razão de si mesmo, o discurso divino é o absoluto que torna possível todo pensamento, de modo que só se fala e se existe por ele e a única atitude razoável é obedecer-lhe e viver como cristão perfeito.

36. Embora só a graça divina possa inspirar o sentimento necessário à verdadeira conversão, a apologia não é inútil, pois ensina que a fé se adquire contra o orgulho e a concupiscência e abre a via da caridade ao mostrar que tudo o que se diz e pensa só tem sentido por Deus, fechando-se novamente a armadilha, já que recusar essas luzes é agir contra a razão e o incrédulo, ao falar, apenas prova sua cegueira e confirma indiretamente a palavra divina.

37. Essa leitura afasta-se do Pascal atormentado dos românticos e do cético de Victor Cousin, que viam no eu dos Pensamentos um substituto do próprio Pascal transcrevendo suas dúvidas e angústias, o que suscita a objeção de que tratar como artifício retórico o que parece confidência comovente faria perder a vida da obra.

38. Pascal de fato fala frequentemente de si mesmo, alimentando o livro com experiências e problemas pessoais, mas é igualmente evidente que muitas vezes empresta a palavra a outros, conhecidos, lidos ou adversários, falando como que por delegação a linguagem dos libertinos ou daquele que busca.

39. Não sendo um filósofo frio, mas alguém que quer antes de tudo persuadir, Pascal faz do eu o lugar vazio do leitor, provocado sem cessar e arrastado para a armadilha da argumentação, sendo o princípio da Apologia esse questionamento perpétuo do leitor e seu envolvimento numa rede de discursos que o perde num nó de contrariedades.

40. O nervo da arte de persuadir dos Pensamentos está em que a obra só existe pela presença do leitor no próprio texto, assim como as Confissões só têm sentido pelos olhos daqueles perante os quais Rousseau quer se justificar.

41. As invectivas mais violentas visam os indiferentes que recusam escutar e discutir, monstros que agem contra a própria razão e interesse, porque sem leitor que se assimile ao eu que busca os Pensamentos perdem sua razão de ser e sua própria matéria, de modo que não se pode refutar Pascal e a única maneira de escapar-lhe é ignorá-lo, calar-se e renunciar a justificar-se.