Luigi Pareyson
Prefácio de GIUSEPPE RICONDA e GIANNI VATTIMO a “Ontologia da Liberdade”
1. Encontram-se, entre os papéis deixados por Pareyson, as indicações para a compilação de dois livros. Reservou a um o título de Ontologia da Liberdade (e o subtítulo O Mal e o Sofrimento), devendo este, em suas intenções, ser o opus maius de seus últimos anos, e, pelas temáticas tratadas, referentes a aspectos constantemente emergentes em sua meditação filosófica, o coroamento de toda a sua especulação, obtido através de um aprofundamento último.
2. Contém o volume aqui apresentado ambos, no respeito mais escrupuloso, porém, das estruturas que o autor pretendia conferir a cada um.
3. Expressara Pareyson claramente o que para ele era a problemática da ontologia da liberdade num ensaio de 1975, Retificações sobre o Existencialismo, dizendo-se ali, entre outras coisas, que o existencialismo até então insistira com razão sobre a responsabilidade e o risco, sobre o compromisso e a insecuritas, sobre a aposta e a precariedade, sobre a audácia e a escolha, sendo esse discurso necessário contra o otimismo idealista e espiritualista.
4. É essa passagem significativa por muitas razões. Aparece antes de tudo claramente a ideia cara a Pareyson e tantas vezes repetida de que uma filosofia da liberdade constitui a vocação mais profunda da filosofia moderna.
5. Assume a leitura que dá do existencialismo — toda apoiada na ideia de uma relação problemática entre homem e ser, existência singular e verdade, problemática porque passa pela liberdade, que pode vivê-la na aceitação ou na recusa — no que diz respeito a sua gênese, o pano de fundo da dissolução do hegelianismo e sua referência a Schelling.
6. Deve ser vista, portanto, a matriz existencialista do pensamento pareysoniano nesse contexto mais amplo, que, de um lado, pode dar conta de seus desenvolvimentos no campo da hermenêutica — sabendo-se que sobre o tronco do existencialismo foi elaborada por Pareyson uma das teorias hermenêuticas mais robustas do pensamento contemporâneo, que se coloca como paralela e, sob certos aspectos, alternativa às de Gadamer e Ricoeur —, e, de outro, explica certos movimentos dessa última fase de sua especulação, que Pareyson designou não apenas como ontologia da liberdade, mas também como pensamento trágico.
7. Quanto ao pensamento trágico, deve dizer-se que é essencial a uma filosofia da liberdade (e a uma filosofia da interpretação desenvolvida em termos de filosofia da liberdade). A relação do homem com a verdade passa pela liberdade, e a liberdade se exerce por um ato que pode ser de consentimento e acolhimento, mas também de recusa e negação: bastando isso para demonstrar que o clima da interpretação é o da escolha e do risco, portanto da angústia e da dúvida, elementos característicos do pensamento trágico.
8. Devia a Ontologia da Liberdade, segundo as indicações de Pareyson, constar de duas partes. Devia a primeira, com o título A Caminho da Liberdade, conter as lições que proferiu no Instituto Italiano para os Estudos Filosóficos de Nápoles, nos dias 26, 27, 29 e 30 de abril de 1988.
9. É essa explicação importante para captar-lhes o caráter: certamente contêm a exposição mais orgânica de toda a filosofia da liberdade de Pareyson, tocando todos os temas que sob esse título se propunha tocar, de modo que o leitor tem diante de si imediatamente o desenho completo.
10. Evidenciam-se aqui os traços típicos do filosofar de Pareyson: sua profunda veia especulativa, aquele seu característico modo de colocar os problemas filosóficos, fazendo emergir todas as dificuldades intrínsecas num movimento de pensamento que, longe de atenuá-las, as exaspera; aquele seu vivê-los, por mais singulares e peculiares que sejam, sempre num horizonte de extrema e definitiva generalidade, ali onde a pergunta filosófica emerge de modo tormentoso, obrigando a escolhas inelutáveis; a clara consciência, feita valer contra todo fácil ecletismo, do inevitável caráter exclusivo, além de inclusivo, das escolhas especulativas, dos custos e renúncias que sustentá-las e desenvolvê-las necessariamente acarreta.
11. Reencontram-se esses traços típicos de seu filosofar também nos ensaios que constituem o resto do livro, e antes de tudo naqueles reunidos na segunda parte, sob o título A Liberdade Originária, já publicados no “Annuario filosofico”, por ele fundado e dirigido até o ano de seu desaparecimento.
12. Bastará aqui lembrar os laços que os unem. No primeiro, A Experiência Religiosa e a Filosofia, avança Pareyson sua ideia de uma hermenêutica filosófica da experiência religiosa, dilatando e desenvolvendo nesse sentido o discurso sobre a hermenêutica contido em Verdade e Interpretação (1971), e dando ao mesmo tempo as primeiras linhas da ontologia da liberdade.
13. No segundo, Deus e o Problema do Mal, retomam-se e aprofundam-se essas questões, sublinhando-se o caráter “dialético”, além de simbólico, da linguagem religiosa, que precisamente a consideração do problema do mal faz emergir; cumprem-se os aprofundamentos da ontologia da liberdade que ela impõe, chegando-se enfim a definir o pensamento trágico diante da atualidade histórica.
14. No terceiro, Um “Discurso Temerário”: o Mal em Deus, defende-se Pareyson, com êxito a nosso ver, da acusação que lhe foi feita de “demonizar a divindade ou de nela reconhecer uma reduplicação da condição humana”, sendo porém, em geral, todo o ensaio grandioso esforço de esclarecimento voltado a afastar falsas interpretações dessa expressão, por ele introduzida no desenvolvimento de suas teses sobre a positividade e a ambiguidade originária, sobre a autooriginação divina e sobre a liberdade divina entendida não apenas como início, mas também como escolha.
15. Não pôde Pareyson, infelizmente, concluir essa pesquisa: resta porém a última das quatro lições de Nápoles, dedicada à escatologia, e resta uma série de fragmentos que, poucos dias antes de morrer, confiou a seus alunos, tendo um deles, que os recebeu, Aldo Magris, cuidado da transcrição.
16. Como se disse, além da Ontologia da Liberdade, planejara Pareyson outro livro, com o título A Liberdade e o Nada. Dedicado especialmente a sublinhar as novas aquisições sobre o caráter abissal da liberdade que seguem as Retificações sobre o Existencialismo, pretendia nele reunir três ensaios: Estupor da Razão e Angústia Diante do Ser (reelaboração de uma conferência proferida em 17 de dezembro de 1978 no Instituto Italiano para os Estudos Filosóficos de Nápoles, com o título Schelling e o Estupor da Razão), O Nada e a Liberdade como Início (originariamente também desenvolvido como conferência inaugural de um Seminário Internacional dedicado a Heidegger pelo Instituto Suor Orsola Benincasa de Nápoles, em março de 1989, com o título Heidegger: a Liberdade e o Nada), e Filosofia da Liberdade (aula de despedida proferida na Universidade de Turim em 27 de outubro de 1988).
17. É evidente o laço que une os três ensaios, se se lembra que aquela filosofia da liberdade — traçada no último, pequena obra-prima que, em poucas páginas, dá as articulações fundamentais do complexo pensamento pareysoniano — é definida, diante de Schelling e Heidegger, como resultado do esforço de “libertar Schelling de toda residual preocupação com a ideia de necessidade e Heidegger do espinhoso problema das relações entre o nada, o ser e os entes, de modo que do primeiro nos chegue o claro eco da liberdade em sua pureza e do segundo a nítida e genuína imagem do nada”; isso na consciência de “que só se pode fazer da liberdade um problema autêntico se a relacionarmos não com a necessidade, como infrutiferamente fez a filosofia moderna, mas com o nada, tão oportunamente evocado por Heidegger”.
18. Antepôs-se a esses três ensaios um quarto (A Pergunta Fundamental: “Por que o ser e não antes o nada?”), transcrito de apontamentos manuscritos por Francesco Tomatis, que traça em linhas gerais a história dessa pergunta, de onde partem tanto Schelling quanto Heidegger, e que, embora em estado de esboço, alcançando porém quase sempre a polidez de forma praticamente definitiva, pode ser considerado excelente introdução aos demais, alguns de cujos pontos resultam dele singularmente iluminados.
19. Permitiu a identidade temática desses ensaios com o resto do livro acolher a sugestão do editor de imprimi-los como terceira parte deste volume, oferecendo assim ao leitor uma summa completa dos escritos sobre a ontologia da liberdade que Pareyson havia preparado para publicação.
GIUSEPPE RICONDA e GIANNI VATTIMO