1.4 Liberdade e dialética

PAREYSON, Luigi. Ontologia della libertà: il male e la sofferenza. Torino: G. Einaudi, 1995.

1. A originariedade da escolha: eis o princípio fundamental da ontologia da liberdade. A liberdade é autooriginação e escolha originária: no princípio era a escolha. Dizer “Deus existe” significa dizer: “foi escolhido o bem”; a existência de Deus não é outra coisa senão isso: o bem foi escolhido ab aeterno, o mal e o nada foram vencidos ab aeterno, para sempre, definitivamente.

2. Dir-se-á: como é isso possível, se nós, homens, vivemos na luta contínua e sem fim entre bem e mal? Este é o mundo em que vivemos, e no qual somos atores, espectadores, vítimas dessa luta, sem saber como acabará, quem terá a última palavra — luta incerta e indecisa até o fim.

3. É com o ato livre da queda que tem lugar o início da história temporal humana e portanto do conflito e do contraste sem fim. Com a queda, o homem, por assim dizer, rachou a eternidade, nela inseriu uma cunha que, de um lado, empurrou para trás e, de outro, projetou para a frente a vitória sobre o mal, perspectivando-a ao mesmo tempo como um passado e como um futuro, e no meio colocou o tempo humano, a história humana.

4. Na eternidade, o nada, o mal, é uma carta que já foi jogada, mas perdida para sempre: é isso que significa a existência de Deus. Com a queda, porém, o mal que estava vencido em Deus, isto é, possibilidade descartada e latente, procura levantar de novo a cabeça, despertado pelo homem já desde o início da história temporal, e procura aproveitar essa nova ocasião.

5. Estamos tão imersos no mal que nem sequer conseguimos imaginar como será essa reviravolta das eras, esse cumprimento das estações, esse cataclisma final. Já nos é difícil imaginar como no início foi ab aeterno realizada a vitória sobre o nada e sobre o mal, que Deus seja a escolha positiva como irreversível, o bem escolhido como definitivo.

6. Trata-se aqui de estabelecer dois pontos: primeiro, ver um tempo considerado como marcado pela presença da eternidade, isto é, a história que os teólogos chamam da salvação, que percorre a história temporal humana desde a queda até o fim dos tempos.

7. A eternidade não é a intemporalidade de um mundo ideal, nem é o nunc stans, isto é, a totalidade pontual (tota simul), a simultaneidade completa que não se limita a ser apenas a pontualidade de um nunc, nem tampouco é uma duração infinita, ou perpétua ou eviterna. Não, a eternidade não é, não se pode conceber classicamente dessa maneira; ao menos, a religião não vê a eternidade sob esse ponto de vista — e estamos aqui no plano da hermenêutica da experiência religiosa.

8. O tempo histórico humano tem em si uma presença da eternidade: tanto o humano, temporal, sem a ideia da salvação, quanto o que traz consigo a história da salvação. Do ponto de vista da experiência religiosa de que estamos fazendo a hermenêutica, as duas coisas se confundem: no estado dos fatos, a história temporal humana é a história da salvação.

9. Em suma, o universo é uma história que tem duas faces: de um lado é temporal, de outro é eterno. Mas o aspecto temporal não é só isso: precisa ter uma presença de eternidade, pois o tempo sem eternidade cai no nada; e o aspecto eterno não é só isso: precisa necessariamente escandir-se “temporalmente”, pois a eternidade sem tempo é estática, é inerte, e certamente não é a do “Deus vivo”.

10. É na eternidade e no tempo assim concebidos, como intersectando-se um ao outro, que opera a dialética, e opera de modo muito complexo, que gostaria de tentar simplificar do modo menos redutor possível a seguir, falando apenas da dialética eterna proto-escatológica e da dialética temporal da tensão e da luta.

11. Comecemos pela dialética eterna proto-escatológica da vitória sobre o mal. A positividade é, por si mesma, afirmação que supera e vence a negatividade. Não é uma contrariedade lógica, esta, mas é uma oposição real, e portanto é uma dialética não meramente lógica, nem sequer lógico-metafísica (o que seria uma dialética da necessidade), mas é uma dialética real e viva da liberdade.

12. A dialética temporal como luta entre bem e mal é a que há na história temporal humana, na qual positivo e negativo, bem e mal, estão sempre em luta, sempre em tensão, sempre juntos, sempre com troca recíproca, com mútua confusão, com mútuo disfarce.

13. O que solda essas duas dialéticas é a história da salvação, que, através da luta mediante a expiação e a redenção, procura restabelecer escatologicamente a situação protológica. Escatologicamente: isto é, até a apocatástase, que é o aniquilamento do mal e a confirmação do bem, e o triunfo da liberdade.

14. Há a dialética no coração da realidade: é a dialética que dá sentido à positividade. Não há positividade sem negatividade, é preciso a inseparabilidade dos dois termos; a positividade não tem sentido se não estiver envolta nessa duplicidade e nessa ambiguidade.

15. Em primeiro lugar, confundiu a história eterna e divina com a história temporal e humana; em segundo lugar: fez dela uma dialética da necessidade, em vez de uma dialética da liberdade. A dialética hegeliana faz coincidir a autoafirmação divina e a história temporal humana.

16. Em segundo lugar, em Hegel a dialética é uma dialética da necessidade, na qual os momentos e o desfecho são necessários, unívocos, inevitáveis. A negatividade é um momento necessário de um desenvolvimento, que, para alcançar um desfecho positivo, requer sua superação; não é, ao contrário, uma alternativa oferecida à livre escolha e livremente rejeitada para alcançar livremente a positividade.

17. Não insisto mais nesse ponto, senão para observar que Hegel sublinhou oportunamente a “potência do negativo”, no sentido de que a mola do movimento da história temporal e eterna é justamente o negativo, mas anulou o mal e o negativo dando-lhe uma função necessária, e, ao sublinhar no negativo o mal, não distinguiu suficientemente dele o sofrimento.

18. No fundo, há a concepção bíblica de que o homem é pecador e sobre todos pesa um destino de expiação; todos estamos unidos por uma fundamental solidariedade na culpa e na dor, todos estamos ligados pela onticulpabilidade e pela onisofrimento, que cria vínculos indestrutíveis de responsabilidade recíproca.

19. Diferentemente do pagão, que vê no sofrimento um evento natural e um fado, para o cristão é muito mais difícil suportar o sofrimento — embora pareça exatamente o contrário —, pois o cristão vê no sofrimento a pena do pecado, e portanto a memória do pecado do qual ele mesmo é responsável, e não a natureza ou o fado.

20. Essa participação divina na solidariedade humana na dor é a única coisa capaz de tornar não só suportável, mas também redentor o sofrimento do homem. É só a consciência do compartilhamento do sofrimento humano por parte de Deus que pode impedir que o sofrimento seja um aumento da negatividade do homem, como infelizmente muitas vezes se vê quando o sofrimento se torna princípio de embrutecimento ou ocasião de revolta.

21. Há, por outro lado, um fato inaudito: que precisamente o que assinala o máximo da negatividade no universo, isto é, o fato de que o homem obrigou Deus a compartilhar seu sofrimento, e que o sofrimento em Deus chega ao ponto de fazê-lo morrer, e até o ponto em que, no grito da cruz, o próprio Deus se volta contra si mesmo ao abandonar Cristo — essa espécie de momento ateu da divindade em que Deus parece negar a si mesmo, o ponto máximo da negatividade, do triunfo da negatividade do universo — é também o ponto de partida para a reação.

22. Aqui começa a reviravolta. A negatividade tem dois aspectos: como pecado é destruição, como sofrimento é redenção. Isso porque o sofrimento penetrou em Deus até ameaçá-lo; mas Deus, assumindo-o, transformou-o em resgate da negatividade do mal, em salvação da criação e do homem.

23. Vejamos agora brevemente quais são as épocas eternas e quais suas correspondências.

24. De um lado temos a autooriginação divina (sobre a qual já insisti muito); ainda desse lado, depois, o segundo ato divino é o da criação, que é a liberdade como liberalidade, diria, na qual Deus manifesta sua própria generosidade, sua própria condescendência.

25. Primeiramente, a relação entre o juízo e a apocatástase, entre a separação entre mal e bem (vulgarmente ditos inferno e paraíso) e o aniquilamento do mal, a vitória definitiva do bem, o triunfo da liberdade, tal como se dá na apocatástase.

26. Certamente, a superação completa do mal exige um passo ulterior, isto é, o desaparecimento do mal separado, com tudo o que disso se diz, ou seja, vulgarmente dito, o desaparecimento do inferno.

27. Passo a outro ponto, a saber examinar algumas correspondências entre as épocas da eternidade. Há uma correspondência entre a criação e a separação de bem e de mal.

28. Mas é mais interessante examinar, a meu ver, a correspondência que há de modo especial entre a autooriginação divina de um lado, que é princípio primeiro, e a apocatástase de outro, que é o desfecho último: isto é, o ato com que Deus origina a si mesmo e o ato com que Deus restaura todas as coisas.

29. Uma reflexão sobre a escatologia. Por um lado, o conteúdo da escatologia é indizível: não podemos imaginar nada da escatologia. Podemos dizer algo sobre a sobrevivência do homem, se existe ou não, e, caso exista, como será? Absolutamente não.

30. Todos os maiores problemas se encontram na escatologia. Não à toa foi sempre fonte de renovação a que recorreram os grandes inovadores, os grandes reformadores e também os grandes revolucionários. Todos os grandes filósofos se interessaram pelo fim das coisas.

31. Limitar-me-ei a alguns apontamentos sobre os problemas que gostaria de ter enfrentado, sobre os quais não posso agora demorar-me. Antes de tudo, a questão de que não pode haver intervalo nem entre a criação e a queda nem entre a morte e o juízo.

32. Aqui é preciso fazer absolutamente uma distinção entre o juízo que o homem dá de si mesmo e o juízo que dele dá Deus, no sentido de que é muito mais severo o juízo que o homem dá de si quando se deixa inspirar pelos termos rigorosos de uma moral autônoma, racional, do que o juízo divino, que se inspira não só na ira, mas também na misericórdia.

33. Disse várias vezes que o universo não é uma realidade, mas uma história, uma grande história narrável apenas num relato, não teorizável num sistema nem filosófico nem teológico. Pois bem, que é esse relato, essa história? É o relato da liberdade. É a história da vitória do ser sobre o nada, do bem sobre o mal. História nem mais divina que humana, nem mais protológica que escatológica.

34. Outro ponto no qual gostaria de me deter é que, do ponto de vista do homem na história, a história da eternidade aparece por um lado como sucessiva, por outro como simultânea.

35. Concluo com o fato de que Deus é um ser desconcertante. Seja porque dele só se pode falar em termos simbólicos, míticos, dialéticos, seja porque escapa sempre a toda tentativa de capturá-lo, seja porque permanece sempre na ambiguidade, e tem sempre em si as duas forças do mundo: o sim e o não, a positividade e a negatividade, a criação e a destruição.