1.2 Liberdade e transcendência

PAREYSON, Luigi. Ontologia della libertà: il male e la sofferenza. Torino: G. Einaudi, 1995.

1. Retomo este curso de lições no ponto em que o deixara, sem deixar de fazer, porém, algumas precisões sobre o conceito de “hermenêutica do mito” que propus como reflexão filosófica sobre a experiência religiosa. Por “mito”, como dizia, entendo aquele nível profundo da relação ontológica, aquela interpretação originária da verdade, aquele contato com o inobjetivável, que não deve considerar-se contraposto a “realidade”, pois o mito é ele mesmo uma experiência existencial da realidade.

2. Entendida nesse sentido, a hermenêutica do mito não consiste num processo de desmitização que pretenda substituir o logos ao mito, nem que pretenda “traduzir” seu conteúdo numa forma filosófica. Aliás, o conteúdo do mito não se pode “traduzir” numa forma filosófica, pois a transposição filosófica deformaria o mito.

3. No fundo é o próprio mito que, oportunamente interrogado e solicitado, revela seu próprio significado, e nesse sentido, através de uma interpretação que permanece infinita e inesgotável, põem-se em luz seus vários aspectos profundos e seus vários significados num horizonte de sentido.

4. Retomo então o conceito a que havia chegado sobre a liberdade, dizendo que, assim como para o problema do mal não basta a filosofia, sendo preciso recorrer à experiência religiosa (sem contudo renunciar à filosofia, mas concebendo-a justamente como hermenêutica), também para o problema da liberdade a pura filosofia não enfrenta verdadeiramente o problema, ou ao menos não o aprofunda até o fim.

5. Ora, é precisamente na experiência religiosa que o problema central permanece sempre o da liberdade, do princípio ao fim; entendendo por princípio e fim justamente a história do universo: aquela perspectiva do universo que se trata de substituir à possibilidade de concebê-lo como um “sistema” fechado através de momentos lógicos, argumentativos, através de demonstrações e assim por diante.

6. Num primeiro momento, para salvar a liberdade da necessidade, tive de conceber o ato humano como síntese de receptividade e atividade; subi depois a um nível mais alto, no sentido de que cheguei a afirmar que a liberdade só pode ser precedida ou seguida pela liberdade.

7. Nada falta à menor liberdade para ser absoluta. Na liberdade não há um mais ou um menos: ela é ou não é; é sempre arbitrária, absoluta, tanto em sua originariedade quanto em sua derivação. E essa indivisibilidade não é propriamente continuidade e homogeneidade, pois é continuidade, mas com cesuras; é homogeneidade, mas com saltos; é identidade, mas com diferença.

8. Gostaria de começar examinando a liberdade humana como início, como início puro, como começo absoluto, para poder depois definir mais precisamente a liberdade originária em sua ilimitação e em sua absoluta e soberana arbitrariedade.

9. Que coisa extraordinária, um fato, um evento! Há pouco não existia, e de repente ei-lo ali, indelével. Em que sentido indelével? Um evento, um fato, passa, arrastado por outros eventos, por outros fatos. Antes estava ali, daqui a pouco já não está mais: agora já não está mais. E, no entanto, há nele algo de insuprimível: não se pode apagar o fato de ele ter sido. Factum infectum fieri nequit. Ou, como diz Lady Macbeth: “What's done cannot be undone”.

10. Tudo foge e perece, mas há uma coisa indestrutível, definitiva e eterna: que o que foi, foi. Um evento não se deixa nem transportar, nem arrastar, nem apagar pelo fluxo universal. Tem dois caracteres fundamentais: o primeiro, a imprevisibilidade; o segundo, a irrevocabilidade.

11. Para aliviar um pouco o discurso, direi que uma sugestiva representação do caráter imprevisível, inesperado de um evento nos é oferecida por Isaac Bashevis Singer num de seus incomparáveis contos. No relato de um velho judeu, justo e pio, que, convocado pela cunhada, subitamente, sem sequer saber como, é seduzido por ela, com tudo o que disso decorre, caindo depois na mais negra desesperação, devida ao arrependimento, ao remorso, e assim por diante.

12. Um evento, portanto, não é precedido senão pelo nada, e nisso reside sua liberdade, ou antes a liberdade. O caráter da liberdade é justamente este: não ser precedida senão pelo nada. A liberdade não é precedida senão pela própria liberdade. A liberdade é sem aviso prévio.

13. Gostaria de examinar agora brevemente a irrevocabilidade. Um evento, um momento antes não existia, e agora que existe não pode mais deixar de ter existido. Será essa irrevocabilidade uma necessidade? Não, é uma necessidade aparente, tal como antes a possibilidade que teria sido anterior à realização da liberdade.

14. Em sentido positivo, complacência e compromisso são, por exemplo, a lembrança de um ápice alcançado, capaz de sustentar toda uma vida: uma prova excepcional dada de si mesmo, superior ao que o próprio sujeito poderia imaginar, que se torna um ponto fixo, torna-se uma imagem de si que serve de modelo e guia, um modelo de si para si mesmo, uma conquista a não perder, um compromisso, uma linha da qual não se deroga, e assim por diante.

15. As chamadas “consequências incalculáveis” da liberdade residem precisamente na irrevocabilidade do produto da liberdade. Não se podem prever: começada do nada, a série iniciada pela liberdade continua com efeito de avalanche.

16. Com maior razão, puro início é a liberdade divina, da qual — como dizia — com razão a humana é considerada imagem. Se em qualquer ponto da indivisível liberdade pode verificar-se o salto, a interrupção em que se insinua “o nada da liberdade” inicial, se em qualquer ponto pode acender-se essa chama incandescente da liberdade que pega fogo de si mesma, ainda mais aparece esse caráter de originariedade, de primariedade, de inicialidade — no ápice.

17. Costuma-se fazer residir a primeira manifestação da liberdade de Deus na criação, mas, a bem dizer, há outro evento, anterior, que é o primeiro ato da liberdade divina: sua autoposição, sua autooriginação, sua autogênese.

18. “Ego sum qui sum”, “'ehjeh 'ašer 'ehjeh”, “Eu sou quem sou”. Quem tiver lido alguma página minha a esse respeito sabe que não sigo as interpretações que se costumam dar dessa passagem, e por isso não me demoro nela, senão para lembrar que esse princípio divino, essa decisão divina, significa “eu sou quem me apetece”, “eu sou quem quero”, “eu sou quem quero ser”, “eu sou o que quero ser e quero ser o que sou”, “eu sou livre a ponto de ser livre até de meu próprio ser, de minha essência, de minha existência”.

19. Deus é livre não só em relação ao ser em geral — como é evidente —, pois este é uma criação sua, mas antes de tudo em relação a seu próprio ser, a tal ponto que não se pode dizer que Deus é livre, mas que só Deus é liberdade. Ele existe como liberdade, e sua própria existência é fruto de liberdade.

20. Haverá, atrás de Deus, o vazio, o não ser, o nada? Seria essa a resposta? Um modo de evitar essa resposta é conceber Deus como ser necessário, e toda a história da filosofia é percorrida por esse conceito, que Kant tão bem pôs em crise.

21. Perdoem-se-me certas expressões, pois estamos no limite do indizível. Antes de tudo, o que estou dizendo e vou dizer não são senão esforços inteiramente inadequados para poder aludir de algum modo ao inefável, ao indizível, pois estamos no ápice das próprias possibilidades da especulação.

22. Naquele ponto em que Deus é anterior a si mesmo, há também a abissalidade do nada. Peço que se considere uma coisa: quando falo de Deus, gostaria que nos despíssemos um pouco de tudo o que geralmente se entende com essa palavra, pois de outro modo meu discurso se torna um tanto incompreensível.

23. Junto à abissalidade de Deus, que já é um contato com o nada, há justamente a abissalidade desse mesmo nada; aquele vazio da liberdade é também o nada, que Deus, como liberdade, subjuga e derrota, instituindo-se como existente.

24. Poder-se-iam fazer aqui algumas considerações históricas a propósito dessa originariedade da liberdade divina, vista tanto em Plotino quanto em Schelling, mas, como já é bastante tarde, remeto ao que sobre isso escrevi.

25. Assim, ilimitação da liberdade humana, ilimitação da liberdade originária, e sobretudo indivisibilidade das duas. A liberdade humana pressupõe a originária, sem que disso derive limitação alguma. A liberdade divina não é, para a humana, uma necessidade, de modo que a humana não é uma conciliação de liberdade e necessidade.

26. O próprio Deus submeteu a si mesmo e sua criação ao juízo humano. Tudo o que estou dizendo é uma interpretação filosófica do mito do Gênesis; sigo, portanto (segundo o conceito de hermenêutica), o mito, o relato religioso.

27. Do ponto de vista religioso, porém, também não poderá haver determinismo teológico, pois propriamente a presciência não existe (se falo dessas questões, falo delas unicamente porque o assunto é justamente a hermenêutica da experiência religiosa; se entro nessas questões é para demonstrar um pouco sua insubsistência, isto é, as superestruturas que a teologia enquanto tal construiu sobre a experiência religiosa; meu objetivo não é fazer teologia — já o disse desde o início — é fazer a hermenêutica da consciência religiosa).

28. A liberdade tem um poder inicial de escolha diante de possibilidades inauditas, imprevistas e imprevisíveis: o próprio Deus ignora de antemão a previsão. A chamada presciência diz respeito apenas às operações atuais, não é uma pré-ciência, mas é contemporânea às decisões e às escolhas.

29. E, de todo modo, leva a presciência à necessidade? Será ilusória a necessidade como presciência? O que é ilusão, a liberdade ou a necessidade? Do ponto de vista da necessidade, a liberdade parece ilusória (pensemos em Espinosa); é antes uma astúcia da necessidade.

30. Mas a necessidade é uma ilusão. Não é necessidade a liberdade como natureza, não é necessidade a liberdade divina, não existe a presciência. Do ponto de vista da liberdade, a necessidade aparece como uma ilusão.

31. Deus continua a correr o risco da liberdade humana, continua a pedir-lhe colaboração, contando justamente com a indivisibilidade dessa liberdade. E o homem continua a interromper-lhe o curso, seja para recuperar o nada inicial da liberdade em sentido positivo, seja para ser também ele Deus.