1.1 Liberdade e situação

PAREYSON, Luigi. Ontologia della libertà: il male e la sofferenza. Torino: G. Einaudi, 1995.

1. O problema da liberdade é problema central, e eu diria característico da filosofia moderna a partir de Descartes; a filosofia moderna se caracteriza justamente por enfrentar, pela primeira vez, verdadeiramente o problema da liberdade. É preciso dizer, porém, que ela ainda não realizou completamente o conceito de liberdade, pois foi impedida pela vertente necessitarista que a percorre desde o início até hoje.

2. O neoplatonismo, em seu aspecto monístico, foi desenvolvido sobretudo por Espinosa, e de modo muito mais completo, muito mais moderno, por Hegel. Ambos possuíam um conceito de Liberdade, e o colocavam certamente no centro de sua filosofia; essa liberdade, porém, tanto em Espinosa quanto em Hegel, era concebida no fundo como libera necessitas, portanto estreitamente ligada ao conceito de necessidade.

3. Era natural que, tendo-se formado no existencialismo, se considerasse central o problema da liberdade. Lembra-se que uma das leituras feitas no período de estudos universitários foi Martinetti, que justamente escrevera um livro sobre a liberdade, livro muito importante.

4. Encontrou-se isso sobretudo numa figura decisiva que une essas duas vertentes, essas duas possibilidades delineadas há pouco: Schelling. Schelling pode ser considerado, por um lado, pré-hegeliano, mas, por outro, pós-hegeliano, e mesmo, como se veio a dizer, até pós-heideggeriano.

5. Essas aulas serão, portanto, para quem as segue, contato não apenas com o próprio conferencista, que é pouca coisa, mas sobretudo com esses autores, sob a insígnia de uma filosofia da liberdade: Plotino, Pascal, Fichte, Kierkegaard, Schelling, o existencialismo. É todo um programa, tanto teórico quanto histórico, pois é toda uma nova historiografia filosófica que se desenha desse ponto de vista, e toda uma nova problemática em que os conceitos centrais são os de existência, pessoa, interpretação, e sobretudo liberdade.

6. Liberdade e Situação é o título desta primeira lição, de caráter introdutório, pois nas lições seguintes se entrará mais a fundo no vivo do argumento. Por “situação” entende-se die Stellung des Menschen im Kosmos, como dizia Max Scheler, o lugar do homem no cosmo, não apenas sua colocação histórica, mas também sua colocação ontológica.

7. Num primeiro momento concebeu-se essa relação como relação entre dois termos, um dos quais está na relação enquanto, sendo irrelativo, a institui; e o outro termo só está na relação enquanto é a própria relação, isto é, é relativo.

8. Como irrelativo, o ser se subtrai à relação, é irredutível, e no entanto está presente na relação no sentido de que a institui. Não pode oferecer-se senão dentro daquela relação ontológica que o homem é. É termo irrelativo de uma relação, presente na relação como irredutível e inconfigurável.

9. Em suma, o ser está em relação com o homem apenas enquanto o homem é relação com o ser. O ser se dá ao homem apenas dentro daquela relação com o ser que o homem é. A inobjetivabilidade do ser não impede a ontologicidade do homem — antes coincide com ela, e vice-versa.

10. Dizer que o homem é uma relação significa dizer que ele é inicialmente uma consciência real, isto é, muda, originária, uma interpretação da verdade. O discurso filosófico que se pode fazer sobre ela não incide diretamente sobre o ser, sobre a origem, sobre a verdade; não se pode escrever um tratado De veritate, como se a verdade fosse objeto de tratamento objetivo.

11. No longo itinerário especulativo, qualquer que tenha sido, que se procurou desenvolver na atividade filosófica, encontraram-se dois modos de interpretar, dois modos de definir esse conceito de existência como coincidência de autorrelação e heterorrelação: um, concebendo o ato humano como passividade e atividade juntas; outro, concebendo o ato humano como aceitação de um dom.

12. Primeiro ponto (passividade e atividade). Princípio geral: no homem não há passividade que não se resolva em atividade. A liberdade tem certamente limites: limites externos, que são a própria situação; limites internos, que são a própria natureza da liberdade; limites originários, decorrentes do fato de o homem não ter dado a liberdade a si mesmo.

13. A liberdade, porém, se considerada como atividade, faz com que a situação se qualifique no próprio ato em que a liberdade nela se insere e reage. E também o exercício concreto da liberdade, embora seja ele mesmo uma dadidade, se faz atividade. Eis a autorrelação como liberdade.

14. Por outro lado, a liberdade em exercício, como se dizia, se faz exercício concreto de atividade. É preciso, neste ponto, aprofundar a passividade da situação e a passividade da liberdade, pois só aprofundando essas duas passividades, só indagando o que há por trás delas, é possível encontrar a chave pela qual a passividade se presta a resolver-se em atividade.

15. O mesmo se pode dizer da passividade que está “por trás”, que está na origem da liberdade. A liberdade, em sua origem, tem justamente a necessidade do fato de que ela própria é dada, não começa com o homem: é dada ao homem.

16. Do que se disse resulta que, se a passividade no exercício da liberdade se converte em atividade, é sinal de que a atividade humana é síntese de receptividade e atividade. Entre receptividade e atividade não há gradualidade, continuidade, contiguidade, pois uma é a forma da outra.

17. Isso quanto à configuração de uma dialética de atividade e passividade. Outra dialética é a da iniciativa iniciada, aprofundamento da autorrelação, destinado a mostrar que a necessidade inicial não compromete nem aniquila a liberdade, mas a encaminha e a sustenta.

18. O homem é principiado: sinal disso é a necessidade inicial pela qual ele não pode deixar de agir. A própria liberdade é dada: não pode ser iniciativa senão como iniciada, mas seu ser iniciada deve ser iniciativa.

19. Isso se traduz nos termos de uma dialética de dom e consentimento: a dialética da liberdade dada é a dialética de dom e consentimento. Pois um dar que não existe sem um receber, um dar em que o dado só se realiza no acolhimento, é um dom; e um receber que só se realiza como ação, um agir que se apresenta como um receber, é um consentimento.

20. O homem, portanto, enquanto se encontra como liberdade e identidade de dom e consentimento, não é senão liberdade. Que, porém, sendo dada, só começa a ser no momento em que primeiro se exerce como livre ato de acolhimento e consentimento.

21. Mas, por outro lado, com essa teoria do dom-consentimento se abre uma fresta rumo à liberdade pura, cuja teoria se aspira ao falar de “ontologia da liberdade” (que deveria ser o título do próximo livro, ainda não pronto).

22. Creio que, de um ponto de vista filosófico, não se possa dizer sobre a liberdade, como se disse, nada mais profundo que o princípio fundamental da síntese de receptividade e atividade. É sempre um tratar da liberdade em relação com a necessidade, mas num ponto de elaboração tal que a relação ontológica que o homem é resulta dele extremamente esclarecida.

23. A liberdade não é tal sem o ser. A liberdade que seja atividade e nada mais que atividade, a atividade que paira sobre si mesma, a atividade abandonada a si mesma, não é, propriamente, liberdade.

24. Dois são os aspectos fundamentais da atividade humana: a fidelidade ao ser e o compromisso da liberdade, e nisso se concretiza a inseparabilidade de ser e liberdade de que se falou, na qual são compatíveis tanto a perenidade da inovação quanto a permanência da norma.

25. Reivindico a ilimitação da liberdade. A liberdade é ilimitada ou não é. Melhor o mal livre que o bem imposto. Melhor a chamada licença que uma lei racional interna à liberdade entendida como garantia, como segurança de seu exercício.

26. A liberdade, longe de aceitar por si mesma sua lei, como se tivesse uma lei que faz parte de sua essência, submete-a sempre à sua problematização e à sua contestação. Só então, depois dessa prova de fogo, depois dessa chama que a liberdade é, se poderá ver se a lei que ela adotou a reafirma e confirma, se é justamente aquela que a liberdade reconhece e adota. O problema não é a relação entre a liberdade e sua lei, mas entre a liberdade e o ser, aquele ser que ela é sempre livre de aceitar ou repudiar.

27. Com isso a liberdade ainda não está suficientemente aprofundada, ainda não se esgotou, e pode-se dar um passo adiante.

28. A relação liberdade-ser é vínculo essencial e indissolúvel: não há liberdade sem o ser, que ela pode afirmar ou renegar e assim por diante; não há o ser sem liberdade, mas no sentido de que o ser é um apelo à liberdade, na medida em que a reclama e a suscita — e não só, mas também na medida em que o próprio ser é liberdade.

29. Se a liberdade não é tal sem o ser, também o ser não é tal sem a liberdade. Sustentar que o próprio ser é liberdade não significa abandonar o ser à liberdade, mas significa aprofundar o princípio da inseparabilidade de ser e liberdade no princípio da convertibilidade e identidade de ambos.

30. A liberdade, nessa continuidade sem solução, é o próprio coração do real, sua insondável profundidade. Certamente, a liberdade vista aqui em sua abissalidade já é, por si mesma, por sua ilimitação, um abismo, mas, à luz desse novo princípio, é um duplo abismo: não só sem limite, mas também sem fundamento.

31. Chegados a este ponto, todo aprofundamento ulterior só é possível recorrendo à experiência religiosa, não pela trama dos conteúdos, mas pela trama dos sentidos, dos significados.