Erwin Panofsky — SATURNO E A MELANCOLIA
O DESENVOLVIMENTO DA IDEIA DE MELANCOLIA DEPOIS DOS PERIPATÉTICOS
1. A concepção do Problema XXX, 1 não podia desenvolver-se satisfatoriamente de imediato, pois só seria realmente compreendida quando o fenômeno do gênio, nela anunciado, se tornasse realidade na consciência que os homens tinham de si, o que ocorreu primeiro no Renascimento italiano do século XV, que, ao captá-la, a transformou, enquanto os escritores antigos registraram a tese de que todos os grandes homens são melancólicos com assombro distante ou ironia franca, simpatizando cada vez menos com a trágica anomalia do homem eminente sacudido entre exaltação e depressão, e perdeu-se também a base dessa simpatia, o humor melancólico como instrumento de precisão sensível a qualquer influência, pois uma doutrina dos elementos e qualidades alheia à ambivalência termodinâmica fazia da bílis negra apenas substância fria, seca e terrosa.
2. Da nova concepção sobreviveram apenas a impressão de uma conexão especial entre melancolia e vida intelectual e a necessidade de distinguir nitidamente o natural do doentio, que levaria à conclusão de que os humores, em predomínio natural, determinavam também a condição mental do homem, ambas fecundas, a primeira para o desenvolvimento da ideia de melancolia patológica e a segunda para a criação de um tipo de caráter, que antes do fim da Antiguidade se fundiria com a doutrina dos quatro temperamentos como tipos de disposição.
a) A melancolia como doença
3. No desenvolvimento da ideia patológica de melancolia, distingue-se o juízo moral dos filósofos, representado pelos estoicos, do enfoque curativo dos médicos, representado sobretudo por Rufo de Éfeso, cujo papel na história da concepção médica da melancolia foi tão importante quanto o do autor do Problema XXX, 1 na história da concepção filosófica e psicológica do gênio.
I. A visão estoica
4. Os estoicos afirmavam que o sábio nunca podia sucumbir à loucura, sendo sabedoria e loucura mutuamente excludentes, a ponto de todo não sábio poder ser chamado louco, mas curiosamente o Sábio podia sucumbir de vez em quando à melancolia, sofrer delírios e até perder sua virtude, normalmente tida por imperecível, doutrina estoica corrente, adotada por Cícero e explorada com prazer malicioso pelos adversários da ética estoica.
5. Na doutrina estoica, a melancolia volta a inserir-se na ideia de doença pura e gravíssima, em sentido pré-aristotélico, que Cícero chama cegueira geral da mente, distinta da insania nascida da simples depressão, cujas vítimas ainda cuidavam razoavelmente de suas vidas, e aparece sempre como privilégio negativo do Sábio, deixando de ser requisito dos dons eminentes para tornar-se o principal perigo de quem os possuía, o único capaz de retirar ao homem o que, para os peripatéticos, tinha o poder de lhe conferir, e Posidônio parece ter sido o primeiro a reconhecer de novo o dom profético do melancólico doente, redescobrindo uma base científica para a profecia, tão importante aos estoicos, base contra a qual se voltaria um místico como Jâmblico justamente por seu caráter científico.
II. Asclepíades, Arquígenes e Sorano
6. Galeno, na introdução de sua monografia sobre a bílis negra, atacava com certa malícia os que se opuseram à doutrina verdadeira por puro espírito de contradição, sobretudo erasistratianos, asclepiadianos e metódicos, hereges cujo vício comum era terem rompido, seguindo a escola médica de Cnido, com o humoralismo de Cós e, ao ocupar-se da melancolia, o que o próprio Erasístrato não ousara fazer, terem-lhe dado nova definição.
7. Asclepíades de Bitínia, chegado a Roma em 91 a.C. e amigo de Cícero e de nobres romanos, deu prestígio à medicina grega na Itália, e seus ensinamentos, transmitidos sobretudo por Aulo Cornélio Celso, na época de Tibério, apresentam a primeira divisão sistemática da doença mental em três categorias, das quais a segunda e a terceira entram no que antes e depois se chamou melancolia, e seu tratamento baseava-se menos em medicamentos e cirurgia que em remédios dietéticos e sobretudo psicológicos, com destaque para a música, cujo emprego psiquiátrico, sugerido por Teofrasto, Asclepíades sistematizou, enquanto seu discípulo Tito recomendava terapia de choque e medidas de força para os loucos violentos.
8. No polo quase oposto estava Arquígenes de Apameia, da época de Trajano, um dos últimos grandes representantes da escola pneumática, que reconhecia apenas melancolia e mania, tratando a melancolia como independente da bílis negra e como forma inicial ou sintoma da mania, uma depressão sem febre devida a uma obsessão, e que, ao contrário de Asclepíades, descuidou dos métodos psicológicos e concentrou-se nos sintomas, com análise de penetração e sutileza ainda hoje insuperadas.
9. A escola dos metódicos, desprezada por Galeno e influenciada por Temisão, discípulo de Asclepíades, teve em Sorano de Éfeso, na primeira metade do século II, um representante que pouco inovou no diagnóstico, mas criticou duramente a terapia de seus predecessores, preconizando tratamento mais suave, com remédios psicológicos em primeiro plano, e tentou distinguir mais nitidamente loucura, localizada na cabeça, e melancolia, localizada no corpo, negando explicitamente que a bílis negra fosse sua origem, pois o nome viria dos vômitos negros frequentes nos doentes, e não da causa da afecção, opinião da maioria que ele julgava mais suposição que observação, ou antes falsa.
III. Rufo de Éfeso
10. Os médicos citados só tiveram influência parcial e indireta, pois o futuro pertenceu ao ecletismo de Galeno, que se propôs restabelecer o humoralismo antigo modificado segundo o espírito da época, aproveitando às vezes descobertas diagnósticas e terapêuticas dos asclepiadianos e metódicos, mas sem reconhecer autoridade a seus conceitos etiológicos, enquanto apreciava muito Rufo de Éfeso, da primeira metade do século II d.C., cuja obra Da melancolia, parcialmente reconstruível por citações, considerava a melhor e impecável exposição do tema.
11. Os ensinamentos de Rufo prevaleceram nas escolas de medicina até o limiar da época moderna, apoiados por Galeno e pelos grandes autores árabes do século IX, como Ishaq ibn Imran, que chamava o texto de Rufo a única obra antiga satisfatória e cujo tratamento da melancolia, baseado em Rufo, parece ter sido fonte direta da monografia de Constantino Africano, ligado à escola de Salerno e decisivo para a medicina ocidental medieval, de modo que Rufo esteve na vanguarda da concepção médica da melancolia por mais de mil e quinhentos anos.
12. Rufo refez o elo, rompido pelos outros médicos, entre melancolia e intelecto estabelecido no Problema XXX, 1, mas, aproximando-se da visão estoica, fez dele uma armadilha perigosa, pois via sobretudo o homem intelectual, de amplo entendimento e engenho vivo, ameaçado de melancolia, já que os de engenho sutil e grande perspicácia caem facilmente nela por serem de movimento veloz e de muita premeditação e imaginação.
13. Rufo avançava um passo além dos filósofos da natureza: para o autor do Problema, a eminência intelectual era consequência direta da melancolia natural, para os estoicos mera predisposição à melancolia patológica, e para Rufo a atividade da mente era causa direta da doença, pois muita cogitação e tristeza fazem sobrevir a melancolia.
14. Essa formulação inverte totalmente a relação de causa e efeito do Problema XXX, 1, e o destino trágico do homem genial torna-se mero spleen de um erudito sobrecarregado, revelando uma antítese que determinaria por muito tempo a concepção da melancolia, entre definições e fins especificamente clínicos e os dos filósofos da natureza ou da moral.
15. No diagnóstico e na etiologia, Rufo reafirmou as observações peripatéticas abandonadas pelos médicos heterodoxos, descrevendo o melancólico como inchado, de pele escura, acossado por desejos, deprimido, olhando para o chão, acovardado, misantropo, geralmente triste sem motivo mas às vezes desmedidamente alegre, dado a excentricidades, fobias e obsessões, incluindo gagueira, ceceio e dom de profecia, e voltando à opinião hipocrática e peripatética sobre a causa, excesso de pneuma e predomínio da bílis negra, embora, no ponto do método e do princípio, tenha dado à tese principal do Problema um giro clínico de consequências significativas e duradouras.
16. O Problema aristotélico distinguia um predomínio transitório do humor melancólico pela alimentação diária, sem efeito sobre o caráter, e uma preponderância permanente e constitucional, formadora do caráter, com efeitos diversos segundo a temperatura, e Rufo adotou a distinção entre melancolia pela alimentação e melancolia constitucional, mas o que para o filósofo era diferença entre doença aguda e disposição habitual, entre sofrimento físico e caráter moral, adquiriu para o médico matiz etiológico e terapêutico, pois importa ao tratamento saber a origem da doença, que é de duas espécies: natural, por combinação inata de humores, ou adquirida depois por má dieta.
17. Não havia, pois, divórcio entre doença temporária e constituição natural, mas distinção, dentro da doença, entre forma inata e adquirida, e, o que foi talvez ainda mais importante para o futuro, Rufo retomou as noções de calor e frio excessivos aplicando-as de modo novo, pois, se para Aristóteles a bílis negra podia manifestar grande calor e grande frio sem alterar sua natureza material, para Rufo ela se originava do aquecimento ou resfriamento imoderados de outros elementos do corpo, podendo o sangue converter-se em bílis negra por resfriamento ou a bílis amarela por superaquecimento, hyperoptesis, já que o negro resulta tanto do resfriamento, como nos carvões apagados, quanto do aquecimento, como na fruta seca ao sol.
18. O médico, pensando em termos de matéria e não de função, preferiu reconhecer duas substâncias a atribuir efeitos diferentes à mesma, distinguindo a bílis negra nascida do resfriamento do sangue de uma melancholia combusta ou adusta, muito mais nociva, nascida da combustão da bílis amarela, diferença nunca mais esquecida e formulada claramente por Galeno, sobretudo no De locis affectis, que distingue um humor espesso como a borra do sangue ou do vinho, chamado humor ou sangue melancólico, e outro muito mais líquido e ácido, que corrói o solo e faz bolhas, nascido da bílis amarela superaquecida.
19. A ideia de melancolia não se simplificou com essa transformação, pois o humor melancólico, um dos quatro humores primários, passou a ser sangue espessado e resfriado, e a verdadeira bílis negra, corrupção por combustão da bílis amarela, deixou de contar entre os humores, mas a teoria dava base firme aos diferentes tipos de perturbação mental e ligava a distinção do Problema entre melancolia natural e doentia a uma diferença entre substâncias tangíveis, lançando as bases da teoria clínica da melancolia, à qual Galeno, os romanos e bizantinos posteriores e os primeiros árabes pouco acrescentaram, desaparecendo todo vestígio do nimbo heroico do melancólico, perdendo-se sua conexão com a profunda cogitatio, só de novo sublinhada por Ishaq ibn Imran, e passando seu dom de profecia a mera ilusão de doente.
20. No terreno prático, os escritores posteriores acrescentaram muitos elementos, como Alexandre de Trales, que mencionou um espasmo dos dedos, talvez rigidez mórbida do dedo médio, mas interpretado depois, pela ambiguidade da tradução latina, como fechamento involuntário do punho, sintoma que teria papel na tradição pictórica, relatando o caso de uma mulher que apertava o polegar com tanta força que ninguém conseguia endireitá-lo, afirmando sustentar o mundo inteiro.
21. Paulo de Egina aconselhou tratar a melancolia com cautérios, prática a que se deve a inclusão do retrato do melancólico na série medieval de diagramas zodiacais da cauterização.
b) A melancolia no sistema dos quatro temperamentos
22. Já Hipócrates tentara relacionar características físicas e comportamento mental, vendo até no pulso sinal da disposição moral, e, pela cooperação entre observações clínicas, biológicas e etnológicas e especulações da filosofia da natureza, surgiu a fisiognomonia, relativa às idiossincrasias das pessoas sãs, contrapartida da semiologia clínica, cujo texto mais antigo, atribuído a Aristóteles, nasceu em seu círculo, impulsionada pela doutrina da alma como enteléquia do corpo, pela análise ética das emoções e do caráter, pelo gosto helenístico da observação minuciosa, visível nos Caracteres de Teofrasto, na poesia e na arte helenísticas, e pela tese filosófica crescente de que a mistura dos elementos produz a variedade dos costumes, sendo talvez Posidônio quem deu o impulso definitivo, ao sublinhar a função dinâmica dos elementos cósmicos, intermediários entre matéria e espírito.
23. Persistiu sempre a opinião de que os humores, com suas qualidades, eram também fatores determinantes da constituição dos homens, e Sexto Empírico dava por certo que a constituição de cada ser vivo era determinada por um dos quatro humores, já usando sanguíneo e fleumático, polyaimos e phlegmatodes, e descrevendo os outros tipos por perífrase, de modo que, com o crescente interesse pela fisiognomonia e pela caracterologia, era inevitável atribuir a todos os humores o poder formador do caráter que o Problema XXX, 1 reservava à bílis negra, convergindo na nova psicologia dos tipos a patologia humoral, a fisiognomonia e a caracterologia, com o Problema como poste indicador na encruzilhada.
24. Mesmo nos círculos clínicos se desenvolveu esse interesse, descrevendo-se características fisionômicas, como membros emagrecidos, torso relativamente grande e movimentos rápidos, e sintomas psicológicos com a sensibilidade das artes menores helenísticas, e, à medida que a doutrina de Cós deslocava as heterodoxas, tornou-se necessário sistematizar essas observações, o que Galeno fez, sobretudo no comentário ao Da natureza do homem e no Peri kraseon, estabelecendo que o calor torna o homem alto, o frio baixo, a umidade obeso e a secura magro, que os moles, louros e obesos têm menos humor melancólico e os magros, morenos, hirsutos e de veias salientes mais, e afirmando que a disposição espiritual depende da crase do corpo, com um sistema ainda incompleto que negava à fleuma poder formador do caráter, atribuindo agudeza e inteligência aos humores biliosos, constância e solidez aos atrabiliosos e simplicidade vizinha da estupidez ao sangue, sendo a fleuma subproduto da primeira etapa do metabolismo.
25. O sangue tornava o homem simples e néscio, a bílis amarela agudo e hábil e a bílis negra firme e constante, afirmação carregada de especulação cosmológica antiga, e, à medida que a nova teoria do caráter se entrelaçava com o velho sistema dos quatro elementos, surgiu no século II ou III d.C. um esquema completo dos quatro temperamentos como tipos de constituição física e mental, cujo maior desenvolvimento se encontra no opúsculo Da constituição do universo e do homem, que correlaciona elementos, humores, estações, idades, órgãos e vias de saída, e atribui aos humores as diferenças de caráter: os governados pelo sangue mais puro são sociáveis, riem e brincam, com corpo rosado; os governados pela bílis amarela irritáveis, violentos e ousados, com corpo louro e amarelado; os governados pela bílis negra indolentes, acanhados e enfermiços, morenos de tez e cabelo; e os governados pela fleuma tristes, esquecidos e muito pálidos.
26. Nesse exemplo detalhado e esquemático da Antiguidade tardia destacam-se nitidamente os fatores da nova doutrina dos temperamentos, com a linha cosmológica engrenada nas descobertas da terapia e nas observações da fisiognomonia, de modo que os sinais do sanguíneo, cuja disposição seria quase sempre tida por melhor e mais nobre, coincidem com os do euphyes, o bene natus, de compleição rosada e branca e natureza sociável, enquanto os do melancólico coincidem com os do pikros, de cabelo negro e pele morena, sinal já encontrado como sintoma em Arquígenes e Rufo, e a cabeça baixa e a magreza, tidas por outros fisionomistas como características dos avaros e covardes, aproximavam-se do retrato do melancólico, em que timor e avaritia eram traços constantes.
27. O Peri kataskeues não pode ser datado com precisão, mas nada indica que seja produto da Alta Idade Média influenciado por ideias islâmicas, e, embora os equivalentes de melancholicus, cholericus, sanguineus e phlegmaticus pareçam firmemente estabelecidos entre os astrólogos árabes do século IX, importa menos saber quando esses termos se tornaram usuais do que saber se os antigos conceberam os quatro tipos, dividindo sistematicamente as pessoas sãs em quatro categorias físicas e mentais atribuídas ao predomínio de um humor, ao que se responde afirmativamente sem reservas, pois há vários outros testemunhos, uns posteriores e outros mais antigos, que mostram o desenvolvimento do esquema ainda incompleto de Galeno.
28. O pseudogalênico Peri chymon não pode ter sido composto sob influência árabe e deve ser do fim do século VI ou do século VII, pois algumas de suas afirmações, combinadas com o comentário autêntico ao Da natureza do homem e sobretudo com a carta a Pentádio, entraram no De temporum ratione de Beda.
29. As afirmações dessas obras relevantes ao tema podem ser organizadas em quadro.
30. O interesse particular desse desenvolvimento está na aceitação crescente da ideia de que os humores determinam tipos de homens, pois no comentário ao Da natureza do homem ainda se diz neutramente que o engenho agudo é elevado ou aumentado pela bílis amarela, sendo duvidoso que Galeno tenha acreditado que um humor determinasse todo um tipo, enquanto mais tarde se usa verbo transitivo, a bílis amarela produz homens de engenho vivo, com a fórmula do Peri chymon, a bílis amarela torna a alma mais irritável, como degrau intermediário, e, entre vacilações e incongruências, aparece um claro deslocamento de valores que anuncia as concepções medieval e moderna dos temperamentos, tornando-se o sanguíneo, mero tolo nos escritos galênicos autênticos, pessoa alegre, animada, de bom caráter e agraciada, e, embora o predomínio do sangue ainda fosse discrasia no sistema galênico estrito, adiantou-se tanto aos demais que no século XII se pôde descrever os outros três temperamentos como formas degeneradas do sanguíneo.
31. O colérico, cujo humor produzia segundo Galeno agudeza de percepção e engenho, tornou-se apenas violento, brusco e exaltado, e o humor terroso do melancólico, fonte de firmeza e constância para Galeno, carregou-se cada vez mais de propriedades desfavoráveis, ao mesmo tempo que suas características se fundiam com as do fleumático, até se tornarem intercambiáveis, de modo que nas ilustrações dos séculos XV e XVI as efígies de melancólico e fleumático trocam de lugar na terceira posição, enquanto o sanguíneo aparece sempre primeiro e o colérico segundo, e a confusão entre as duas ideias rebaixou o estatuto da disposição melancólica até quase nada restar de bom a dizer dela.
32. Essa transposição de valores deveu-se a dois fatores: a inclinação, historicamente compreensível, a atribuir ao sangue, que não era humor excedente, influência cada vez mais favorável na formação do caráter, à custa dos outros três humores e sobretudo da bílis negra, e o efeito da doutrina galênica das crases.
33. Galeno dava grande significação aos quatro humores, mas os verdadeiros princípios de divisão de sua doutrina das constituições eram as qualidades simples, quente, frio, seco e úmido, opondo à combinação perfeita, jamais alcançável, oito combinações imperfeitas, quatro simples e quatro compostas, determinadas não pelos humores, mas pelas qualidades, das quais as compostas se relacionavam com os humores por terem as mesmas qualidades compostas, e por isso o que Galeno disse dos temperamentos compostos foi depois transferido automaticamente aos humores por seus sucessores, que aplicaram aos humores as definições de caráter emparelhadas por Galeno apenas às crases, tanto mais de bom grado por não terem outra para a fleuma, criando certa confusão, pois nem o pseudo-Sorano nem Vindiciano poderiam ter composto seus quadros das disposições humorais sem a doutrina galênica das disposições determinadas pelas crases.
34. O ponto mais importante é que, depois do pseudo-Sorano, a imagem do melancólico por temperamento ficou em geral tingida pela ideia da doença de mesmo nome e desfigurada por traços tomados diretamente dos tratados de psiquiatria, sendo mesmo como tipo astuto, avarento, triste, misantropo e acanhado, como se vê em Isidoro de Sevilha, em quem coexistem sem conciliação a antiga teoria fisiológica da saúde como equilíbrio dos humores e da doença como predomínio de um deles e a nova teoria dos quatro tipos de caráter, emparelhando sanguis com suavis, sendo doces e brandos aqueles em que predomina o sangue, e ligando melancholia a malus, que pretende derivar do nome grego da bílis negra, chamando melancólicos os homens que fogem ao convívio humano e desconfiam dos amigos queridos.