VIRGÍLIO

28/01/2026 07:58

Esse processo de degeneração das elites foi admiravelmente analisado por Arnold J. Toynbee e por J. Leclercq, cujas obras mencionamos acima; e O Jogo das Contas de Vidro contém a esse respeito muitas reflexões de notável lucidez. O que é preciso destacar claramente é que uma elite sempre se corrompe por dentro, por uma grave deficiência de sua Memória, de sua Vontade, de seu Intelecto, ou de qualquer outra qualidade fundamental. Se uma só delas faltar, o colapso não tardará. Deve-se então falar em suicídio das elites·, elas se destroem a si mesmas, e sua responsabilidade, em seu naufrágio, é total.

É possível estabelecer, como fizeram os romanos com paciente clareza, uma fenomenologia exaustiva da decadência das minorias criadoras·, contentemo-nos aqui em apresentar alguns traços particularmente importantes. Há primeiro o fato, observável em toda parte, que é a degradação da energia, ou o aumento da entropia. O dinamismo original, a potência dos fundadores, o ímpeto inicial tendem “naturalmente” a se reduzir; a intensidade da consciência e da arte tendem a diminuir (aspecto involutivo do tempo). E se não se reverte esse curso “natural” das coisas, chega-se mais ou menos rapidamente a um estado de desordem, ou de esterilidade, ou mesmo de imobilidade. Há a força de atração das psiques e dos corpos, dos elementos rajásicos e tamásicos, que buscam, como a água ou a terra, sufocar o “fogo sagrado”. A isso é preciso acrescentar o peso dos privilégios, das riquezas, do poder, que rapidamente transformam uma elite em oligarquia opressiva. Se reformas, purificações não intervêm a tempo (cf. a história das grandes ordens religiosas), o espírito criador se apaga sob o domínio dos fatores passionais e materiais.

Deve-se notar também a frequente transformação da criação em tradição, se é verdade que uma disciplina tradicional é útil para preservar os princípios e formar os homens (ver O. Spengler, op. cit., II, pp. 409-410), ela se torna nociva quando substitui totalmente a liberdade inventiva, o contato pessoal com o Divino e a Vida universal, a inspiração (cf. J. Leclercq, op. cit., p. 379); o que deveria ser um instrumento de poder levou a uma ruptura com a fonte transcendente de energia. É bem conhecido que a esclerose das “formas”, a petrificação das instituições, o reinado da “letra” sucedem rapidamente, se não se tomar cuidado, à espontaneidade da Imaginação criadora, e até mesmo a obstruem quando eventualmente quer se manifestar (ver, a esse respeito, a obra de G. Durand, A imaginação simbólica).

Além disso, as altas qualidades indispensáveis à sobrevivência das elites, o elevado nível do Conhecimento e do Amor, a força de renúncia e de coesão, difíceis conquistas de homens excepcionais, tornam-se mais raras à medida que decresce o vigor da comunidade, que se enfraquece a vontade coletiva, que predominam os interesses elementares e as massas; e os grandes homens acabam por desaparecer. Fenômeno igualmente temível, a inclinação para baixo do “fiat” primordial, a perda da memória das origens, o obscurecimento da revelação e da missão: o que, na linguagem de Israel, se chama infidelidade (ao imperativo divino) ou prostituição, e o que, na ideologia romana (cf. Tito Lívio), constitui essa falta imperdoável que é o “desprezo dos deuses” (contemnere, ne pegere deos). Há finalmente, mais cedo ou mais tarde, no seio da elite, o aparecimento de vontades de poder individuais, a virtus anexada pela paixão, o encadeamento dos conflitos: isso corresponde ao esgotamento da raça dos heróis desinteressados, ao abandono da dedicação “pela glória”, e ao desvio das energias (exemplo: as lutas civis em Roma).

Esse processo de degeneração das elites, apesar de uma aparente complexidade, obedece de fato a um mecanismo relativamente simples. Trata-se de uma perda progressiva de contato com uma “fonte criadora” superior — divina ou demoníaca, supratemporal, supraindividual —, fonte primeiro descoberta e metodicamente explorada, depois, com o declínio das forças, de acesso cada vez mais difícil, e finalmente abandonada ou temida — em todo caso tornada estranha aos homens. Fonte divina perdida pelos romanos do século I a.C., e que Virgílio desejará lhes fazer reencontrar…

*PS: Yves Albert Dauge. Virgile. Maître de Sagesse. Essai d’ésotérisme comparé. Milano: Archè, 1983*

17/02/2026 17:23

A literatura antiga nos propõe vários exemplos característicos deste processo de corrupção das elites, que chamou ainda mais a sua atenção por tocar no princípio de hierarquia próprio às sociedades de tipo tradicional.

Citemos em primeiro lugar este esquema “mito-histórico” que se chama o ciclo das quatro idades e que corresponde precisamente ao fenômeno de involução que nos ocupa. Tudo se passa como se a instauração de um novo ciclo (idade de ouro) coincidisse com o aparecimento de uma nova autoridade divina (cf. Saturno), ou melhor, de uma nova raça teândrica (cf. 4ª Bucólica: noua progenies, gens aurea) capaz de fazer reinar a paz na aliança com os deuses. Depois, pouco a pouco, à medida que a elite original se enfraquece e declina, ou diminui, a sociedade humana é cada vez mais atraída pelos elementos inferiores do ser. O movimento vai se acelerando, e o ciclo “desce” assim até a idade do ferro, a da subversão total e da negatividade, onde o que ainda pode restar da antiga elite é seja oprimido, seja forçado a se exilar. Eis, aliás, um quadro que relaciona este ciclo involutivo com o processo de degenerescência das elites:

1. OURO. Dominante: Sol.

Contato direto, pessoal e estendido com a Fonte divina (cf. 4ª Bucólica: Assyrium uolgo na — etur amomum).

Elite de reis teândricos. Reino de Saturno.

Dii. Divinitas.

2. PRATA. Dominante: Lua.

Contato mediado e restrito com a Fonte divina.

Elite de sacerdotes. Reino de Juno.

Templa. Humanitas.

3. BRONZE. Dominante: Marte.

Contato obscurecido e rarefeito com a Fonte divina.

Elite de chefes, de guerreiros. Reino de Marte.

Virtus. Ferocia/feritas.

4. FERRO. Dominante: Plutão.

Perda de contato com a Fonte divina (exceto por um “pequeno resto”).

“Elite” de possuidores. Reino de Fortuna.

Opes. Feritas/vanitas.

Quatro versos da Eneida (VIII, 324-7) o resumem:

Aurea quae perhibent, illo sub rege (Saturne) fuere saecula: sic placida populos in pace regebat (OURO), deterior donec paulatim ac decolor aetas (PRATA; deterior et decolor marcam a involução) et belli rabies (BRONZE) et amor successit habendi (FERRO).

Outro exemplo bem conhecido dos Romanos: a decadência dos reis da Atlântida evocada por Platão em seu Crítias (120e a 121c). “Durante muitas gerações, e enquanto dominou neles a natureza do Deus”, os sacerdotes-reis oriundos de Poseidon reinaram sabiamente “e permaneceram apegados ao princípio divino ao qual eram aparentados” (120e). Domínio de si, lucidez, grandeza de alma, desapego, bondade, concórdia: qualidades de uma elite verdadeiramente real e divina. Enquanto se beneficiaram da “presença persistente do princípio divino neles” (121a), eles se mantiveram acima de todas as tentações, unindo o poder à sabedoria. “Mas, quando a parte do Deus veio a diminuir neles, pelo efeito do cruzamento repetido com muitos elementos mortais, quando dominou o caráter humano” (ib.), eles se deixaram progressivamente levar à imoralidade, à avidez, à injustiça, e esta degradação de sua natureza acabou por atrair sobre eles o castigo do alto. A notar que Platão atribui a erosão do princípio divino, nesta elite, ao influxo crescente de elementos humanos, a uma espécie de “mestiçagem” fracassada, de “encarnação” falhada: na verdade, não se trata de defender uma qualquer segregação da elite, mas de insistir nas dificuldades de viver ao mesmo tempo acima e dentro do mundo, evitando estes dois excessos opostos, o isolamento e a dissolução.

Em nosso contexto virgiliano, há sobretudo o tema da decadência da elite troiana (à parte, naturalmente, um “pequeno resto”), tema que se desenvolve no início do poema como uma explicação da transferência da herança para uma Troia melior (cf. VIII, 36 sq.) e como um solene aviso a Roma. O II livro da Eneida sugere que antes de sua destruição pelo fogo Troia já estava morta espiritualmente, e que sua desaparição material foi a consequência lógica deste suicídio moral. A falta essencial de sua elite é ter feito mau uso das energias divinas que lhes foram oferecidas — falta que arruinou também a Atlântida ou o Egito. Orgulho, desmedida, desprezo dos deuses (cf. V, 811), desvio de poderes iniciáticos, materialismo, paixão pelo ouro bárbaro (II, 504; 763 sq.), cegueira (II, 54: mens laeua; 244: immemores caecique furore), selaram então o destino da cidade construída pelos deuses. O fim atroz de Laocoonte e de seus filhos, sinal precursor da noite fatal, traduz por assim dizer a autodestruição desta elite troiana. Pois ela perdeu o conhecimento (Apolo), a imaginação criadora e mágica (Pallas), o domínio sobre as forças cósmicas (Netuno), o benefício da simpatia universal e do amor (Vênus, substituída por Helena), a soberania radiante (Júpiter). E os Gregos, descendência por outro lado demoníaca, são neste caso apenas os simples instrumentos da Rigidez divina, a forma tomada atualmente pelo karma?

*PS: Yves Albert Dauge. Virgile. Maître de Sagesse. Essai d’ésotérisme comparé. Milano: Archè, 1983*

17/02/2026 17:23

Os romanos, por sua vez, tinham uma consciência aguda desse papel das elites, tanto por sua mentalidade de tipo aristocrático quanto por sua lucidez e realismo políticos: de Ênio a Rutílio Namaciano, seus escritos nunca variaram nesse ponto. Isso é demonstrado, entre outros, pelo estudo fundamental de Pietro de Francisci, Spirito della civiltà romana, e é o que procuramos ilustrar em nossa obra O Bárbaro. Roma sempre atribuiu sua grandeza a uma sucessão ininterrupta de homens superiores, a uma elite coesa e constantemente renovada, que soube criar e desenvolver um império arquitetônico, que soube adaptar seu ideal às vicissitudes da história. Lembremos apenas a célebre reflexão de Salústio (Cat. 53,4): “Ao meditar sobre essas questões, cheguei à convicção de que foi o valor eminente de alguns cidadãos que fez tudo…” — fórmula talvez paradoxal na aparência, mas profundamente justa. Aliás, na mesma linha de pensamento, ao interpretar a história universal, o romano colocava naturalmente na origem das sociedades e civilizações “grandes Instrutores da humanidade” — como Cronos/Saturno, Apolo, Dionísio/Baco, Mercúrio/Hermes/Thoth ou Orfeu — cujos benefícios os faziam reconhecer como “deuses” ou “divinos” (cf. o sucesso do evemerismo a partir do século II a.C.), e cuja ação se perpetuava graças a elites de inspiração tradicional.

Sobre o caráter e as particularidades dessas elites, é preciso dizer algumas palavras. Deve-se admitir que certos homens, por suas próprias capacidades, entram em contato com energias psicoespirituais não utilizadas pelo comum dos mortais; inserem-se então em circuitos de forças cuja intensidade podem suportar e cujo dinamismo transformam em criações benéficas. Eles se ligam assim a uma fonte de sabedoria e poder que é supraindividual e supratemporal. Esses homens têm, efetivamente, algo a mais que os outros: mais vontade, imaginação, conhecimento, amor, espírito de sacrifício, autoridade; seu “capital divino” é mais importante, seus “talentos” pesam mais, seu grau de evolução é mais avançado. Estas são, expressas em linguagem moderna, as mesmas ideias que os antigos tinham sobre esses heróis. Estes insistiam, para explicar tal superioridade, em seus laços privilegiados com o Divino (parentesco, educação, iniciação) e na qualidade excepcional do fogo que os animava (igneus ou aetherius vigor, ardens virtus) — o que permite relacionar a atividade dessas elites com a “teurgia do fogo”, tema essencial na Eneida. É preciso esclarecer que esses seres não constituem, propriamente falando, uma espécie à parte, uma raça separada: em relação ao resto da humanidade, apresentam uma diferença de estatura, não de natureza. Isso é fundamental na perspectiva romana.

O problema crucial, para essas elites, é o da duração, do desenvolvimento e da transmissão dos “poderes” recebidos. Como fazer frutificar o dinamismo original? Como manter um alto nível de criatividade? Como permanecer fiel à missão e adaptar-se, sem trair, às variações da história? Como vencer o desgaste do tempo e perpetuar-se através das gerações? O fato é que as elites não podem subsistir em circuito fechado: sua decadência seria então rápida. Precisam constantemente de novos aportes, para realizar a “circulação” de energias indispensável à sua permanência (cf. V. Pareto). Em todos os momentos importantes de sua evolução, Roma teve plena consciência dessa necessidade, a de uma regeneração contínua na mesma orientação — o que supõe tanto um vínculo constante com uma fonte superior de criação, que transcende as flutuações históricas, quanto a capacidade inata de refundir, de reconstituir a minoria dirigente conforme as necessidades. Trabalho tanto mais difícil quanto é essa própria minoria que deve decidir e efetuar suas próprias mutações.

A antropologia criacional enumera sete qualidades (ou faculdades) complementares que permitem assegurar o progresso ou a manutenção das elites — e Roma o sabia. Há 1) a Memória, ou seja, o “relembrar de si e de Deus” (cf. as técnicas do sufismo), a firme consciência de seu papel e responsabilidade, a constante ressonância íntima do Imperativo criador; 2) a Vontade, a concentração rigorosa da energia (cf. a Ekagrata no Yoga clássico), o desejo ardente de cooperar com os “deuses” (aliança) para “fazer o que deve ser feito” (cf. J. Evola, A Doutrina do Despertar, p. 441); 3) a Vocação sacrificial, ou Kenose, força de purificação e libertação que visa rejeitar as formas inferiores do ser (o ego) e da ação (os comportamentos ditos tamasicos e rajásicos); 4) o Intelecto, que é aptidão para o conhecimento, uno e indivisível, da Lei cósmica, das “realidades humanas e divinas”; 5) o Amor, que é aptidão para dar e receber, para deixar circular sem obstáculos a Vida universal; 6) a Criatividade, que consiste em encarnar sem cessar neste mundo móvel e rebelde as Ideias, os Arquétipos contemplados no nível do mundus imaginalis; enfim 7) a Sabedoria unificadora, a capacidade de fusão, que visa trazer o complexo ao simples, o múltiplo ao uno, no seio de um circuito energético sem falhas. Essas sete faculdades, enquanto permanecem ativas, conferem a qualquer elite que as detenha o poder de satisfazer as exigências de sua mais alta missão, ou seja, trabalhar simultaneamente para sua própria metamorfose e para a de seu universo. Os romanos sempre as conheceram, e os melhores dentre eles se esforçaram por exercê-las plenamente, fazendo seu, por assim dizer, este desejo expresso no Avesta (Yasna 30, estrofe 9): “Que sejamos aqueles que operarão a transfiguração da Terra!” Mas houve mesmo assim na história romana períodos perigosos, em que as forças já não correspondiam aos ideais perseguidos. É raro, de fato, que uma mesma elite permaneça suficientemente evoluída e numerosa, suficientemente senhora de seu destino e de sua perpetuação, para evitar por muito tempo o enfraquecimento ou a queda. A posse das sete qualidades salvadoras só pode ser obra de personalidades fora do comum. Inexoravelmente, as forças de baixo alteram as comunidades que parecem mais sólidas e as arrastam para a decadência; o peso da matéria e as agitações da psique acabam por vencer as virtudes do Coração e do Espírito, e a “minoria dominante”, que vê escapar sua própria identidade junto com seu poder criador, barbariza-se, enquanto sua obra ameaça ruína.

*PS: Yves Albert Dauge. Virgile. Maître de Sagesse. Essai d’ésotérisme comparé. Milano: Archè, 1983*

17/02/2026 17:23

Este problema é um elemento essencial do que se pode chamar de antropologia criacional, na medida em que diz respeito à dinâmica das sociedades e civilizações.

Sobre o papel necessário dos grandes homens e das elites na criação, desenvolvimento, manutenção ou transformação de toda comunidade importante de vida e cultura, os testemunhos são abundantes: os da experiência, os dos filósofos da história, os dos pensadores e poetas. Deixando os primeiros à apreciação do leitor, mencionemos entre os filósofos da história (época moderna e contemporânea): J.-B. Vico, Hegel, O. Spengler (O Declínio do Ocidente), José Ortega y Gasset (A Rebelião das Massas), Arnold J. Toynbee (Um Estudo da História), Gonzague de Reynold (A Formação da Europa), Raymond Aron (Dimensões da Consciência Histórica), Karl Jaspers (Origem e Sentido da História), Lucien Duplessy (O Espírito das Civilizações), Paul Rostenne (Deus e César: Filosofia da Civilização Ocidental), Luis Diez del Corral (O Rapto da Europa), Jacques Leclercq (Nós, as Civilizações…), Guy Dingemans (Psicanálise dos Povos e Civilizações). Vale destacar especialmente as brilhantes exposições de Toynbee sobre a natureza e evolução das “minorias criadoras”, assim como os juízos equilibrados de J. Leclercq sobre a função das elites e a contribuição das massas (op. cit., pp. 375 e seguintes).

Entre os que refletiram sobre a condição humana e as transformações das sociedades, citemos Nietzsche, V. Pareto, R. Guénon, Bergson, P. Valéry, H. de Keyserling, Max Scheler (O Santo, o Gênio, o Herói), N. Berdiaeff, C.G. Jung (Presente e Futuro), Ernst Jünger (Heliópolis), R. Abellio (Rumo a um Novo Profetismo), Shrî Aurobindo, G. Friedmann (O Poder e a Sabedoria), H. Corbin, G. Durand, etc. Hermann Hesse, cujo esplêndido romance O Jogo das Contas de Vidro — sobre o qual voltaremos — é inteiramente dedicado ao problema das elites, faz esta observação, de ressonância tipicamente romana: “A história social tem sempre como motor a tentativa de constituir uma aristocracia. Esse é seu ápice e coroamento, e parece que uma espécie de aristocracia qualquer, um governo dos melhores (sublinhado por nós), seja sempre o objetivo e ideal verdadeiros, se não sempre confessados, de todas as tentativas de constituir uma sociedade”.

Entre os poetas, no sentido mais amplo do termo, citemos Hölderlin, Novalis, Victor Hugo, A. de Vigny, Baudelaire, Milosz, Stefan George, Rilke, Patrice de la Tour du Pin (Suma de Poesia), Pierre Emmanuel…

Em seu romance A Serpente Emplumada, D.H. Lawrence, de maneira eminentemente poética, faz seu herói, Ramon, expor sua concepção de uma “aristocracia universal”, concepção que não deixa de lembrar as ideias de Cícero, Horácio, Virgílio e Sêneca: “Precisamos de uma aristocracia, não é verdade? (…) As folhas de uma árvore, por maior que seja, não podem pendurar dos galhos de outra árvore; e da mesma forma, as raças deste mundo não podem se misturar nem se confundir. (…) Apenas as flores podem se misturar entre si, e a flor de cada raça é a aristocracia natural, a elite dessa raça. O espírito do mundo pode voar de flor em flor como um beija-flor e fertilizar lentamente as florações das grandes árvores. Somente a aristocracia natural pode elevar-se acima de sua raça, somente ela pode ser internacional, ou cosmopolita, ou cósmica. (…) Então, como flores, compartilhamos o mesmo mistério com as outras flores, um mistério além do conhecimento das folhas, dos galhos e das raízes”.

*PS: Yves Albert Dauge. Virgile. Maître de Sagesse. Essai d’ésotérisme comparé. Milano: Archè, 1983*

17/02/2026 17:23

É assim que as elites degeneram e se suicidam.

Mas, em momentos cruciais da história, sob o impulso dos “deuses” e dos “heróis”, elas se reconstituem. No final do ciclo involutivo aparece a “raça de diamante” que sobe a corrente da degradação para se libertar — o que nos permite completar o quadro precedente (p. 12) da seguinte maneira:

5. DIAMANTE. Dominante: Júpiter.

Reprise do contato com a Fonte divina; interiorização progressiva desta Fonte, no coração da nova raça.

Elite de heróis, de sábios, de Filhos de Deus. Reino do Olimpo.

Ver a virtus Deificatio.

Tipos: Hércules, Eneias.

Eneias, de fato, representando esta raça de DIAMANTE, superará o FERRO (cf. VIII, 364: Aude contemnere opes), o BRONZE (cf. VIII, 621: fatiferum ensem; 704-5), a PRATA (cf. VIII, 533: Ego poscor Olympo; 615-6: contato pessoal com a Fonte divina, e arma radiantia. Vitória sobre Juno: I, 281; VIII, 59-61, etc.), refundirá um novo OURO (cf. VI, 851-2: regere imperio populos, pacique imponere morem), e sairá do determinismo cíclico pela deificação (cf. VIII, 364-5; XII, 167; 794-5: tema da heliomorfose).

Para que se forme e que se imponha uma nova minoria criativa, as “elites” precedentes devem, em grande parte, desaparecer. No poema virgiliano, a morte de Príamo, de Rifeu, de Creúsa, de Palinuro, de Miseno, de Niso e de Euríalo, de Palante, de Amata, de Turno, e de tantos troianos e italianos — encarnando as antigas mentalidades, as estruturas de outrora, o apego a um mundo passado — é necessária ao nascimento de algo mais importante que Troia e que a Itália original. Subsiste apenas um “pequeno resto” (cf. III, 87), em quem sobrevive a verdadeira Troia (cf. II, 241: diuom domus Ilium) — imortal enquanto “forma” do Espírito divino (cf. VIII, 37) —, mas vivificada por uma inspiração e um dinamismo novos. São eles que, detentores do fogo eterno de Vesta — simbolizando a potência soberana da Tradição, a luz do Sol supremo, e a capacidade indefinida de ressurreição —, são destinados a instaurar um novo ciclo e a fundar um novo centro espiritual (cf. I, 206; III, 462, etc.).

Para que este princípio-germe de grandeza se atualize, dois fatores devem intervir: o impulso criativo e o desenraizamento. Estes são, na Eneida, temas fundamentais. O imperativo transmutador se desdobra como um motivo musical incessantemente retomado, através das interpelações divinas, dos sinais celestes (cf. o meteoro de II, 692 sq.), dos prodígios, das tentações e das conversões humanas, dos sonhos, das provas, dos encontros. Preciso e fulgurante como a flecha de Aceste (V, 525 sq.) — que figura aliás o sucesso da teurgia do fogo —, irresistível e paciente como a ação de Vênus, este imperativo visa a junção do aqui-em-baixo e do além, à transfiguração do real, ao retorno entre os homens da presença divina (Pax = Schekhinah). Quanto ao desenraizamento, de tipo quase abraâmico, ele se traduz principalmente por uma série de partidas que são outros tantos despertares, e nesta “ascese do mar” imposta a Eneias por Júpiter como a prova libertadora por excelência (IV, 237: Nauiget!). Mas, fato capital, este desenraizamento, esta passagem através do fogo, das tempestades, dos “infernos”, das guerras, é no fundo um novo enraizamento no céu e na terra, segundo o belo verso I, 380 (Italiam quaero patriam et genus ab Iove summo), ou seja, a chave de uma nova manifestação de uma herança ancestral, de uma reconstituição, sobre melhores bases, de uma muito antiga elite com vocação universal.

*PS: Yves Albert Dauge. Virgile. Maître de Sagesse. Essai d’ésotérisme comparé. Milano: Archè, 1983*

17/02/2026 17:23