0.2 Vida pessoal

ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.

Introdução

II. A VIDA PESSOAL

1. Uma vez mais o homem se perdeu, o que não é novo nem acidental, pois ao longo da história ele se perdeu muitas vezes e é constitutivo dele, ao contrário de todos os demais seres, ser capaz de perder-se na selva da existência e dentro de si mesmo e, graças a essa atroz sensação de perdição, reagir energicamente para reencontrar-se, sendo a capacidade e a inquietação de sentir-se perdido seu trágico destino e seu ilustre privilégio.

2. Para encontrar de forma irrecusável e plenamente evidente fatos de fisionomia tão característica que só possam chamar-se em sentido estrito fenômenos sociais, isto é, irredutíveis sem dúvida nem erro possível a qualquer outro tipo de fatos, é preciso retroceder a uma ordem de realidade última e radical, que não deixe nenhuma outra abaixo de si e sobre a qual todas as demais tenham forçosamente de aparecer.

3. Essa realidade radical, em cuja estrita contemplação se deve fundar e assegurar em última instância todo conhecimento, é a vida humana.

4. Vida humana como realidade radical é apenas a de cada um, e não a de outro nem uma suposta vida plural e comum, pois a vida alheia, mesmo a do mais próximo e íntimo, já aparece no cenário da própria vida como mero espetáculo, como a árvore ou a nuvem, que se vê sem ser vivido, de modo que a dor de dente do próximo é apenas suposição ou presunção baseada em sinais externos, contrações musculares, olhar vago, a mão no rosto, cuja relação com o sinalizado é sempre questionável e pode ser fingida, ao passo que a própria vida não tolera ficções, pois quem finge para si sabe que finge e não consegue enganar-se de todo, e essa genuinidade inexorável, evidente e indubitável é a primeira razão para chamá-la realidade radical.

5. Chamá-la realidade radical não significa que seja a única nem a mais elevada ou sublime, mas que é a raiz de todas as demais, que para serem realidade têm de fazer-se presentes ou anunciar-se nos âmbitos da vida de cada um, de modo que essa realidade é tão pouco egoísta e solipsista que constitui por essência o cenário aberto para que toda outra realidade se manifeste e celebre seu Pentecostes, e até Deus, para ser Deus para o homem, precisa denunciar sua existência, fulminando no Sinai, ardendo numa sarça à beira do caminho, açoitando os cambistas no átrio do templo e navegando sobre o Gólgota com três mastros como as fragatas.

6. Nenhum conhecimento é suficientemente profundo se não começa por descobrir o lugar e o modo em que algo aparece e surge dentro do orbe da vida, isto é, existe, vocábulo de origem provavelmente bélica que designa a situação em que algo brota como um inimigo que fecha o passo, resiste e se afirma diante e contra nós, de modo que o existente é realidade, aquilo com que, queira-se ou não, é preciso contar, sendo intolerável a arbitrariedade terminológica que há alguns anos emprega existir e existência num sentido abstruso, inverso ao que a palavra milenar diz por si mesma.

7. Alguns querem hoje designar assim o modo de ser do homem, mas o homem, que é sempre o eu de cada um, é justamente o único que não existe, mas vive ou é vivendo, enquanto todas as outras coisas existem porque aparecem, surgem, resistem e se afirmam dentro do âmbito da vida de cada um.

8. Dessa estranha e dramática realidade radical que é a vida podem dizer-se inúmeros atributos, mas cabe destacar apenas os mais imprescindíveis para o tema.

9. A vida não é dada pelo próprio homem, que a encontra quando encontra a si mesmo, descobrindo-se de repente, sem saber como nem por quê, tendo de ser num âmbito impremeditado e imprevisto, numa conjuntura de circunstâncias determinadíssimas, tese base dessa filosofia já enunciada no primeiro livro, de 1914, e esse âmbito, provisoriamente chamado mundo, permite escolher dentro dele este ou aquele lugar, mas ninguém escolhe o mundo, o século ou o dia em que vive, pois ser homem não admite preparação nem ensaio prévio, e a vida é disparada à queima-roupa.

10. Onde e quando se nasce é preciso, queira-se ou não, sair nadando, como quem agora se encontra submerso no ambiente abstruso de uma lição de filosofia, sem saber se lhe interessa ou se a entende, consumindo uma hora insubstituível de sua vida contada, e tendo de fazer algo sem remédio, atender ou desatender para pensar em seus negócios ou em sua amada, levantar-se e ir embora ou ficar, levando essa hora ao matadouro das horas perdidas.

11. Sempre é preciso estar fazendo algo, pois a vida não é dada feita, mas vazia, e cada um tem de ir preenchendo-a com ocupações, ao contrário da pedra, da planta e do animal, cujo ser e comportamento são prefixados, a pedra gravitando para o centro da terra e o animal governado pelos instintos, enquanto ao homem é dada a necessidade de fazer sempre algo sob pena de sucumbir, sem lhe ser dado de antemão o que fazer, porque a circunstância apresenta sempre várias possibilidades de ação diante das quais é preciso escolher e exercer a liberdade e a responsabilidade, desde a direção a tomar ao sair à rua até a escolha solene de uma carreira, como na nota juvenil de Descartes que copia o verso de Ausônio sobre que caminho seguir na vida, de modo que o homem é a única realidade que não consiste simplesmente em ser, mas tem de escolher o próprio ser, e em cada escolha mínima intervém por inteiro a escolha secreta de um tipo de humanidade que se procura realizar.

12. Vida em sentido biográfico e não biológico é encontrar-se alguém chamado homem, que talvez devesse chamar-se X, tendo de ser na circunstância, não de modo quieto e passivo, mas fazendo sempre algo que não lhe é imposto, e sim escolhido e decidido intransferivelmente sob sua exclusiva responsabilidade, pois até entregar-se à vontade alheia ele precisa decidir, e essa condenação a ser livre provém de que a circunstância é sempre multilateral e convida a diferentes possibilidades, razão pela qual a vida é permanente encruzilhada e constante perplexidade, como diz o velho livro indiano sobre os cem caminhos que o homem pisa onde quer que ponha o pé, e por isso o título filosófico mais certeiro é o da obra de Maimônides, Guia dos perplexos.

13. Mesmo na situação extrema que parece não deixar opção, quando se está entre a espada e a parede e a morte é certa, ainda se escolhe entre a espada e a parede, pois o homem goza e sofre o tremendo privilégio de escolher a figura da própria morte, a do covarde ou a do herói, a morte feia ou a bela morte.

14. De toda circunstância, mesmo extrema, há evasão, mas não de ter de fazer algo e sobretudo de escolher e preferir, o mais penoso, a ponto de muitas vezes se preferir não preferir, de modo que o que é dado com a vida é afazer, e o mais grave é conseguir que o fazer escolhido seja o que há que fazer aqui e agora, a verdadeira vocação, o autêntico afazer.

15. Entre os caracteres da vida cabe sublinhar o truísmo de que ela é intransferível, de que ninguém pode substituir outro na faina de viver, nem sentir sua dor de dente, nem escolher ou decidir por delegação o que ele fará e será, nem sentir e querer por ele, nem pensar em seu lugar os pensamentos de que precisa para orientar-se no mundo das coisas e dos homens, pois repetir mecanicamente que dois e dois são quatro é possível por tê-lo ouvido, mas adquirir a evidência disso só se consegue sozinho, na própria solidão, e como o mesmo ocorre com decisões, vontades e sentimentos, a vida humana em sentido estrito é essencialmente solidão radical.

16. Isso não significa que o eu seja a única coisa existente, razão pela qual se evitou ao máximo o possessivo e o pronome pessoal, preferindo-se dizer o homem ou cada um, pois o que se chama realidade radical não é o eu, mas sua vida, que inclui uma enormidade de coisas, e o pensamento europeu já abandonou o idealismo filosófico dominante desde 1640, quando Descartes o proclamou, para o qual só há as ideias de um eu que é apenas coisa pensante, sendo as coisas, o mundo e o próprio corpo fantasmagoria segregada pela mente, concepção que faria da vida a coisa mais cômoda, um flutuar no oceano das próprias ideias sem tropeçar em nada, como Deus, ao mesmo tempo nadador e mar, e que foi superada por esta geração.

17. A vida não é a existência apenas da mente e de suas ideias, mas o contrário, pois, se desde Descartes o homem ocidental ficara sem mundo, viver significa ter de ser fora de si, no absoluto fora que é a circunstância, chocando incessantemente com minerais, plantas, animais e outros homens e tendo de arranjar-se com tudo isso, algo que, no plano decisivo, acontece só a cada um e deve ser feito solitariamente, sem que ninguém possa dar uma mão.

18. Isso significa estar já muito longe de Descartes, de Kant e de seus sucessores românticos, Schelling e Hegel, daquilo que Carlyle chamava o luar transcendental, e mais longe ainda de Aristóteles.

19. Estando longe de Descartes e Kant e ainda mais de Aristóteles e santo Tomás, fica a pergunta, sem resposta por ora nem indicação do que seria preciso afastar-se, sobre se é dever e destino de todos continuar se afastando, enorme ponto de interrogação que cada um pode usar como laço de gaúcho para capturar o porvir ou simplesmente para enforcar-se.

20. A solidão radical da vida humana não consiste em que só haja o homem, pois há nada menos que o universo com todo o seu conteúdo, mas em que, no meio das coisas e dos outros seres humanos, ele está só com eles, já que a unicidade nada tem a ver com a solidão, que é sempre solidão de alguém, ficar só e sentir falta, como mostram a saudade galaico-lusitana, derivada de solitudinem, o grego monos, ligado a moné, ficar sem os outros, que se foram, morreram ou foram abandonados por quem se retira ao deserto, de onde vêm monge e mosteiro, e o latim solus, que Meillet supõe vir de sed-lus, o que fica sentado quando os outros se foram.

21. Nossa Senhora da Soledade é a Virgem que fica só de Jesus, e o sermão da soledade na Semana da Paixão medita sobre a palavra mais dolorosa de Cristo, que pergunta a Deus por que o abandonou, expressão que declara mais profundamente a vontade de Deus de fazer-se homem aceitando o mais radicalmente humano, a solidão radical, ao lado da qual a lança de Longino significa menos, assim como as mônadas de Leibniz, sem janelas e reclusas em si mesmas, se traduziriam melhor por solidões, de modo que Cristo foi homem antes de tudo porque Deus o deixou só, diferentemente da Afrodite homérica, que ferida corre gemendo ao pai Zeus como qualquer donzela abastada.

22. À medida que se toma posse da vida, descobre-se que, ao chegar a ela, os outros já se tinham ido e que é preciso viver o próprio viver radical sozinho, e que só na solidão se é a própria verdade.

23. Desse fundo de solidão radical emerge constantemente uma ânsia não menos radical de companhia, de encontrar alguém cuja vida se funda e se interpenetre inteiramente com a própria, para o que se fazem vários intentos, como a amizade e, acima de todos, o amor, que não é senão a tentativa de trocar duas solidões.

24. À solidão que se é pertencem essencialmente todas as coisas e seres do universo que formam o contorno e articulam a circunstância, mas que jamais se fundem com cada um, sendo sempre o outro, o absolutamente outro, elemento estranho, estorvante e hostil ou, no melhor dos casos, não coincidente, percebido como o alheio e forasteiro porque oprime, comprime e reprime, isto é, o mundo.

25. Contra toda filosofia idealista e solipsista, a vida põe com idêntico valor de realidade dois termos, o alguém, o X, o homem que vive, e o mundo, contorno ou circunstância em que, queira ou não, tem de viver.

26. É nesse mundo, contorno ou circunstância que se deve buscar uma realidade que, distinguindo-se rigorosamente de todas as demais, possa e deva chamar-se social.

27. O mundo, elemento estranho em que o homem tem de afanar-se em ser, está cheio de coisas menores que as ciências estudam, mas toda ciência é uma atividade que alguns homens exercem já vivendo e supõe que essas coisas já existiam antes para eles, de modo que o que as coisas são primariamente na vida representa sua realidade radical, da qual as ciências extraem por métodos complexos suas verdades, como a Terra, que antes de ser planeta feito de átomos é o que sustenta, a diferença do mar em que se afunda, a ladeira a subir ou descer, o que separa da mulher amada ou obriga a viver perto de quem se detesta, atributos todos referidos ao homem como utilidades, e assim todo o conteúdo do mundo não tem ser próprio, não é coisa em si, mas um algo para ou contra os fins humanos, meio ou estorvo, facilidade ou dificuldade, assunto em que se anda, prágmata em grego, com que se mantém uma relação pragmática, uma importância, de modo que, enquanto num mundo de coisas não há intervenção humana, num mundo de assuntos ou importâncias tudo consiste em sua referência ao homem e só é na medida em que lhe importa e o afeta.

28. Essa é a verdade radical sobre o mundo, porque exprime aquilo em que ele consiste originariamente como elemento em que se vive, e tudo o que as ciências dizem sobre ele é verdade secundária, derivada, hipotética e problemática, já que se começa a fazer ciência depois de já estar vivendo no mundo, sendo a ciência apenas uma das inúmeras práticas e operações do homem em sua vida.

29. O homem faz ciência como faz paciência, faz sua fazenda, faz versos, política, negócios, viagens, faz amor, faz que faz, espera, isto é, faz tempo, e, mais que tudo, faz-se ilusões.

30. Essas expressões da língua mais vulgar e coloquial revelam-se termos técnicos de uma teoria da vida humana, para vergonha dos filósofos, que nunca viram o fenômeno radical que é a vida e o deixaram às costas, enquanto poetas, romancistas e sobretudo o homem qualquer repararam nele, e cada uma nomeia um grande tema filosófico, como fazer tempo, que envolve a espera, a expectativa e a esperança, levando a perguntar, a propósito da dedicatória de Paul Morand sobre Maupassant como homem que não esperava, se é possível uma vida humana que não seja esperar e se a função mais essencial da vida não é a expectativa, cujo órgão mais visceral é a esperança.

31. Não é de menor interesse o modo de vida em que o homem faz que faz, esse estranho e inautêntico fazer a que às vezes se dedica justamente para não fazer de verdade, como o escritor que não é escritor mas faz de escritor ou a mulher pouco feminina que faz de mulher, faz que sorri, que desdenha, que deseja, que ama, incapaz de fazer propriamente qualquer dessas coisas.