ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.
Introdução
I. ENSIMESMAMENTO E ALTERAÇÃO
1. Os homens de hoje falam a toda hora de lei e direito, Estado, nação, opinião pública, pacifismo e belicismo, pátria e humanidade, justiça social, coletivismo, liberalismo, indivíduo e coletividade, e não só falam e discutem, mas combatem pelo que essas palavras designam, chegando a matar-se às centenas, aos milhares e aos milhões, fenômeno que não está confinado a um povo determinado, mas é universal e progressivo, do qual poucos povos europeus e americanos ficarão isentos, e cujo estrago, embora não inevitável, é muito difícil de evitar, pois exigiria a colaboração de magníficas virtudes e humildes precauções.
2. Uma dessas precauções, humilde mas imprescindível para que um povo atravesse incólume estes tempos atrozes, consiste em conseguir que um número suficiente de pessoas perceba quão grotescamente confusas e superlativamente vagas são todas essas ideias em torno das quais se fala, se discute, se combate e se mata.
3. Fala-se muito dessas questões, quase não se falando nem deixando falar de outra coisa há anos, mas sem a clareza mínima sem a qual falar se torna nocivo, e como falar sempre traz consequências, as dessa falação são evidentemente graves.
4. Uma das maiores desgraças do tempo é a aguda incongruência entre a importância atual dessas questões e a rudeza e a confusão dos conceitos que esses vocábulos representam.
5. Todas essas ideias implicam como ingrediente essencial a ideia do social, da sociedade, sem cuja clareza não passam de espalhafatos, e todos têm, no fundo insubornável de si, a consciência de possuir sobre elas apenas noções vagas, imprecisas e turvas, confusão que não existe só no vulgo, mas também nos homens de ciência, a ponto de não haver publicação a que encaminhar o leigo para retificar e polir seus conceitos sociológicos.
6. Recorrer, consciente da própria ignorância e cheio de esperança, aos livros de sociologia produz a surpresa envergonhada e escandalizada de descobrir que eles nada dizem de claro sobre o que é o social e a sociedade e que seus autores nem sequer tentaram a sério esclarecer os fenômenos elementares do fato social, passando sobre eles como sobre brasas, salvo exceções parciais como Durkheim, para lançar-se com invejável audácia a opinar sobre os temas mais concretos da convivência humana.
7. A demonstração cabal disso consumiria muito tempo, mas basta uma simples observação estatística que parece o cúmulo.
8. Nas obras com que Augusto Comte inicia a ciência sociológica, que somam mais de cinco mil páginas de letra miúda, não se encontram linhas suficientes para encher uma página sobre o que ele entende por sociedade.
9. Os Princípios de sociologia de Spencer, publicados entre 1876 e 1896, primeiro triunfo dessa ciência ou pseudociência no horizonte intelectual, têm pelo menos 2.500 páginas, das quais provavelmente nem cinquenta linhas se perguntam o que são essas estranhas realidades chamadas sociedades.
10. O encantador livro de Bergson, As duas fontes da moral e da religião, esconde sob seu título hidráulico um tratado de sociologia de 350 páginas sem uma única linha que diga formalmente o que são as sociedades sobre as quais especula, e dele se sai como de uma selva, coberto de formigas e entre o voo das abelhas, pois tudo o que ele faz para esclarecer as sociedades humanas é remeter ao formigueiro e à colmeia, presumidas sociedades animais das quais se sabe ainda menos que da nossa.
11. Não faltam nessas obras vislumbres às vezes geniais de problemas sociológicos, mas, carecendo de evidência no elementar, esses acertos permanecem herméticos e inacessíveis ao leitor normal, pois seus autores, por não terem esclarecido o que é o social e a sociedade, apenas tropeçam como cegos geniais em certas realidades sem chegar a vê-las, de modo que o trato com eles se torna o diálogo do cego com o aleijado.
12. O cego pergunta ao aleijado como ele anda.
13. O aleijado responde ao cego que anda como o amigo está vendo.
14. Se isso ocorre com os mestres do pensamento sociológico, não admira que as pessoas na praça pública vociferem sobre essas questões, pois quando os homens não têm nada claro a dizer, em vez de calar, gritam, e o grito é o preâmbulo sonoro da agressão, do combate e da matança, como ensinava Leonardo ao afirmar que onde se grita não há verdadeira ciência.
15. A inépcia da sociologia, enchendo as cabeças de ideias confusas, tornou-se uma das pragas do tempo, pois ela não está à altura dos tempos, e por isso os tempos, mal sustentados em sua altitude, caem e se precipitam.
16. Uma das melhores maneiras de não perder tempo é dedicar-se a esclarecer o que é o social e a sociedade, juntando ignorâncias numa espécie de sociedade anônima com bom capital de ignorância e lançando-se à empresa sem pedantismo, mas com vivo afã de ver claro e com alegria intelectual, virtude que começava a perder-se na Europa, suscitada pela esperança de encher-se subitamente de evidências.
17. Cabe partir, uma vez mais, em busca de ideias claras, isto é, de verdades.
18. Pouquíssimos povos, já antes desta guerra sombria que estranhamente nasce como quem não quer acabar de nascer, gozavam da tranquilidade de horizonte que permite recolher-se na reflexão, pois quase todo o mundo está alterado, e na alteração o homem perde seu atributo mais essencial, a possibilidade de meditar e de recolher-se em si para pôr-se de acordo consigo mesmo e precisar o que crê, o que estima e o que detesta, sendo obnubilado, cegado e forçado a agir mecanicamente num frenético sonambulismo.
19. Em nenhum lugar se percebe melhor que a possibilidade de meditar é o atributo essencial do homem do que diante da jaula dos macacos no jardim zoológico, pois, enquanto o pássaro e o crustáceo são formas de vida distantes demais para revelar mais que diferenças grosseiras e vagas, o símio se parece tanto conosco que convida a afinar a comparação e a descobrir diferenças mais concretas e férteis.
20. Contemplando quietamente a cena símia, destaca-se o traço de os bichinhos estarem constantemente alerta, em perpétua inquietude, atentos ao contorno como se dele viesse sempre um perigo a responder automaticamente com a fuga ou a mordida, vivendo em perpétuo medo do mundo e em perpétuo e indomável apetite das coisas, de modo que são os objetos e acontecimentos do contorno que governam o animal como a uma marionete, e ele, não vivendo a partir de si, mas a partir do outro, do latim alter, vive sempre alterado e alienado, sendo sua vida constitutiva alteração.
21. Diante desse destino de inquietude sem descanso, a exclamação “que trabalho!” enuncia ingenuamente a diferença mais substantiva entre o homem e o animal, a fadiga gratuita suscitada pela simples antecipação de ter de viver como eles, pois o homem, embora também prisioneiro do mundo e obrigado a ocupar-se das coisas, pode de quando em quando suspender essa ocupação direta, desprender-se do contorno e, numa torção radical da atenção, zoologicamente incompreensível, voltar as costas ao mundo e ocupar-se de sua própria intimidade.
22. Essa operação costuma chamar-se pensar ou meditar, palavras gastas como moedas velhas que ocultam o que há de mais surpreendente nesse fato, o poder do homem de retirar-se virtual e provisoriamente do mundo e meter-se dentro de si, ou, num vocábulo esplêndido tido como exclusivo da língua espanhola, de ensimesmar-se.
23. Essa maravilhosa faculdade de libertar-se transitoriamente da escravidão às coisas implica dois poderes distintos, o de desatender por algum tempo o mundo em torno sem risco fatal e o de ter onde meter-se quando se sai virtualmente dele, e se Baudelaire a expressou com dandismo romântico ao preferir viver em qualquer parte desde que fora do mundo, o mundo é a exterioridade total, que não admite fora além de si, de modo que o único fora possível desse fora é um dentro, a intimidade do homem, seu si mesmo, constituído principalmente por ideias.
24. As ideias têm a extravagantíssima condição de não estar em nenhum lugar do mundo, embora simbolicamente sejam alojadas na cabeça, como os gregos homéricos as situavam no coração e os pré-homéricos no diafragma ou no fígado, mudanças de domicílio que sempre as põem numa víscera, no mais interior do corpo, expressão materializada da suspeita de que elas não estão no espaço, que é pura exterioridade, mas constituem diante do mundo exterior outro mundo que não está no mundo, o mundo interior.
25. Por isso o animal precisa estar sempre atento ao que se passa fora dele, às coisas em torno.
26. Mesmo que as coisas diminuíssem seus perigos e incitações, o animal continuaria regido por elas, pelo outro que ele, porque não pode meter-se dentro de si, já que não tem um si mesmo, um chez soi onde recolher-se e repousar.
27. O animal é pura alteração e não pode ensimesmar-se, de modo que, quando as coisas deixam de ameaçá-lo ou acariciá-lo e lhe concedem uma folga, ele precisa deixar virtualmente de existir e dorme, daí a enorme sonolência animal, que persiste em parte no homem primitivo, e, ao contrário, a insônia crescente do civilizado e a vigília quase permanente que aflige os homens de intensa vida interior, como Scheler, uma das mentes mais férteis do tempo, que morreu de não poder dormir.
28. O poder de subtrair-se ao mundo e o de ensimesmar-se, tema que reaparecerá em quase todos os recantos deste curso em estratos cada vez mais profundos, não são dons concedidos ao homem, pois nada de substantivo lhe foi presenteado e tudo ele tem de fazer por si mesmo.
29. Se o homem goza do privilégio de libertar-se transitoriamente das coisas e repousar em si, é porque com esforço, trabalho e ideias conseguiu reagir sobre elas e criar ao seu redor uma margem de segurança sempre limitada, mas quase sempre crescente, que é a técnica, e reciprocamente é técnico porque aproveitou cada trégua para ensimesmar-se e forjar ideias e um plano de ataque às circunstâncias, um mundo interior do qual volta ao exterior como protagonista, com um si mesmo que antes não tinha, para governar as coisas e realizar nelas suas ideias, projetando-se senhorialmente sobre o mundo e humanizando-o, a ponto de ser imaginável que um dia o mundo exterior esteja tão saturado de homem que se possa caminhar por ele como hoje se caminha mentalmente pela intimidade, convertido numa espécie de alma materializada, como em A tempestade de Shakespeare, com os ventos soprados por Ariel, o duende das Ideias.
30. É possível agora representar, ainda que em vago esquematismo, a trajetória humana sob esse ângulo, num texto condensado que sirva de resumo e lembrete de tudo o que precede.
31. O homem, como o animal, está consignado ao mundo e de início vive governado pelo contorno como uma coisa entre as coisas, mas, assim que os seres em torno lhe dão uma trégua, consegue com esforço gigantesco um instante de concentração em que fixa a atenção nas ideias suscitadas pelas coisas, uma ideia rudíssima do ser das coisas que permite esboçar um primeiro plano de defesa, embora nem o contorno lhe permita prolongar essa concentração nem ele seja capaz de mantê-la mais que segundos ou minutos, pois o ensimesmamento é o fato mais antinatural e ultrabiológico, e o homem levou milhares de anos para educar um pouco sua capacidade de concentração, sendo-lhe natural dispersar-se para fora, como o macaco na selva e na jaula do zoológico.
32. O padre Schevesta, missionário e primeiro etnógrafo especializado nos pigmeus, provavelmente a variedade humana mais antiga conhecida, registra em sua obra de 1932 sobre os anões do Congo, sem conhecer esta doutrina, que eles carecem por completo do poder de concentrar-se, absorvidos pelas impressões exteriores cuja contínua mudança os impede de recolher-se em si, condição de todo aprendizado, de modo que sentá-los num banco escolar seria um tormento insuportável e o trabalho do missionário e do professor se torna dificílimo.
33. Ainda que instantâneo e tosco, esse ensimesmamento primitivo separa radicalmente a vida humana da animal, pois o homem volta a submergir entre as coisas resistindo-lhes, com um plano de trato e manipulação que produz uma mínima transformação do contorno, suficiente para que este o oprima menos e lhe permita ensimesmamentos mais frequentes e folgados, e assim sucessivamente.
34. Há, pois, três momentos que se repetem ciclicamente ao longo da história humana em formas cada vez mais complexas e densas: a alteração, em que o homem se sente perdido e náufrago entre as coisas; o ensimesmamento, em que se retira energicamente à intimidade para formar ideias sobre as coisas e seu possível domínio, a vita contemplativa dos romanos, o theoretikós bíos dos gregos, a theoría; e a ação, em que volta a submergir no mundo para agir nele conforme um plano preconcebido, a vida ativa ou praxis.
35. Assim, só se pode falar de ação na medida em que ela é regida por uma contemplação prévia, e reciprocamente o ensimesmamento não é senão um projetar da ação futura.
36. O destino do homem é primariamente ação, pois não se vive para pensar, mas se pensa para conseguir sobreviver, ponto capital em que urge opor-se radicalmente a toda a tradição filosófica e negar que o pensamento tenha sido dado ao homem de uma vez para sempre como faculdade perfeita pronta para o uso, como o voo ao pássaro e a natação ao peixe.
37. Se valesse essa doutrina pertinaz, o homem poderia pensar sem mais como o peixe nada, noção que cega para o dramatismo único da condição humana, pois, se ser homem fosse ser coisa pensante, como pretendia Descartes, o homem estaria seguro de ser homem como o peixe de ser peixe, o que é um erro formidável e fatal, já que o homem nunca está seguro de poder exercer adequadamente o pensamento, isto é, de acertar, e portanto, ao contrário de todas as outras entidades do universo, nunca pode estar seguro de ser efetivamente homem, como o tigre está seguro de ser tigre.
38. Longe de ter sido presenteado, o pensamento foi sendo fabricado pelo homem pouco a pouco, mediante disciplina, cultivo ou cultura, num esforço de muitos milênios ainda inacabado, e mesmo a débil e tosca porção já alcançada, por ser qualidade adquirida e não constitutiva, corre sempre o risco de perder-se, como muitas vezes ocorreu e ameaça ocorrer hoje, de modo que ser homem significa estar sempre a ponto de não sê-lo, ser problema vivente, aventura e drama, pois, enquanto o tigre não pode destigrar-se, o homem vive em risco permanente de desumanizar-se, e cada indivíduo está sempre em perigo de não ser o si mesmo único e intransferível que é, personagem nunca plenamente realizado, utopia incitante e lenda secreta guardada no fundo do peito, razão pela qual Píndaro resumiu sua ética heroica no preceito de chegar a ser o que se é.
39. A condição do homem é incerteza substancial, como exprime o mote graciosamente afetado de um senhor borgonhês do século XV, segundo o qual nada lhe é seguro senão o incerto.
40. Nenhuma aquisição humana é firme, e mesmo o mais consolidado pode desaparecer em poucas gerações, pois a civilização, sistema de seguranças que o homem fabricou como uma balsa no naufrágio inicial que é viver, compõe-se de seguranças inseguras que se esvaem ao menor descuido, e a história conhece inúmeros retrocessos, sem excluir outros ainda mais radicais, até a total volatilização do homem como homem e seu taciturno reingresso na escala animal, de modo que o destino da cultura depende de manter viva no fundo do ser a consciência dramática de que só a insegurança é segura.
41. Boa parte das angústias atuais do Ocidente provém de que no século passado o homem, talvez pela primeira vez, se julgou seguro, como o farmacêutico monsieur Homais, produto do progressismo, cuja ideia afirma que a humanidade, ente abstrato então inventado, progride necessariamente, crença que cloroformizou europeus e americanos para o sentimento radical de risco que é a substância do homem, permitindo abandonar todo alerta e deixar que a humanidade os levasse inevitavelmente à perfeição, reduzindo a história a uma tranquila viagem turística, como a nau dos feácios de Homero, que navegava sem piloto direto ao porto, segurança que agora se está pagando.
42. Tudo isso vale como prova de que o pensamento não é um dom do homem, mas aquisição laboriosa, precária e volátil.
43. Por isso parece um tanto ridícula a definição do homem como homo sapiens, dada por Lineu e pelo século XVIII, pois o homem jamais soube o que precisava saber, e se apenas sabe poucas coisas e ignora o resto, que é enorme, seria mais apropriado chamá-lo homo insciens ou insipiens, como Platão sensatamente o definiu pela ignorância, privilégio humano, já que nem Deus nem a besta ignoram, aquele porque sabe tudo e esta porque não precisa saber, de modo que o homem pensa não por ter recebido o pensamento como presente, mas porque, obrigado a viver submerso no mundo e a debater-se entre as coisas, se vê forçado a organizar suas atividades psíquicas, não muito diferentes das do antropoide, em forma de pensamento.
44. O homem escapa da escala zoológica menos pelo que é ou pelo que tem do que pelo que faz, por sua conduta, e por isso precisa estar sempre vigiando a si mesmo.
45. É isso que significa a frase de que não se vive para pensar, mas se pensa para subsistir, e atribuir ao homem o pensamento como qualidade inata, aparentemente uma homenagem e até uma adulação à espécie, é na verdade uma injustiça, pois não há tal dom, mas uma penosa fabricação e uma conquista, e como toda conquista, de uma cidade ou de uma mulher, sempre instável e fugidia.
46. Essa advertência sobre o pensamento era necessária para compreender que o homem é primária e fundamentalmente ação, verdade pensada com total clareza pela primeira vez não por Kant nem por Fichte, mas por Augusto Comte, o demente genial.
47. Ação não é qualquer debater-se com as coisas ou com os outros homens, o que é infra-humano e alteração, mas atuar sobre o contorno conforme um plano preconcebido numa contemplação prévia, de modo que não há ação autêntica sem pensamento nem pensamento autêntico que não esteja referido à ação e virilizado por sua relação com ela.
48. Essa relação efetiva entre ação e contemplação foi pertinazmente desconhecida desde que os gregos, ao descobrir que o homem pensava, se entusiasmaram tanto pelas graças das ideias que atribuíram ao lógos o posto supremo no orbe, a ponto de Aristóteles sustentar que Deus não faz senão pensar no pensar, o que o converte num intelectual, num modesto professor de filosofia, e de julgarem que o homem veio ao mundo para meditar, isto é, para ensimesmar-se.
49. Essa doutrina é o intelectualismo, idolatria da inteligência que isola o pensamento de sua função na economia geral da vida, como se o homem pensasse porque sim e não para sustentar-se entre as coisas, como se o pensamento começasse e terminasse em si mesmo e não fosse engendrado pela ação, que é sua raiz e seu termo, e entre as cadeias que se devem aos gregos, cujas preferências desviam há oito séculos o Ocidente de sua autêntica vocação, a mais pesada é o intelectualismo, do qual importa desfazer-se resolutamente nesta hora em que é preciso retificar a rota.
50. Sob os nomes de raison, de ilustração e de cultura executou-se nos dois últimos séculos a mais radical tergiversação dos termos e a mais indiscreta divinização da inteligência, ocupando a cultura, para a maioria dos pensadores da época, sobretudo alemães, o lugar vago de um deus em fuga, atitude há muito denominada beatice da cultura e objeto de luta constante, que apresentava a cultura como algo que se justifica a si mesmo, valioso por essência, e a cujo serviço a vida, por si insignificante, devia pôr-se para adquirir valor.
51. Inverter assim a relação efetiva entre vida e cultura, entre ação e contemplação, provocou nos últimos cem anos uma superprodução de ideias, livros e obras de arte, uma verdadeira inflação cultural, um capitalismo da cultura, aspecto moderno do bizantinismo, em que se produziu por produzir sem atender às ideias de que o homem atual necessita e pode absorver, até saturar o mercado e sobrevir a crise, mudança anunciada e denunciada há vinte anos, como no ensaio Reforma da inteligência.
52. O mais grave dessa aberração intelectualista, porém, é apresentar a cultura e o pensamento como uma joia a acrescentar à vida, algo situado fora dela, como se fosse possível viver sem ensimesmar-se, colocando os homens, como diante da vitrine de uma joalheria, na opção de adquiri-la ou dispensá-la, e diante desse dilema eles resolveram nestes anos tentar a fundo a segunda alternativa, fugindo de todo ensimesmamento e entregando-se à plena alteração, razão pela qual na Europa só há alterações.
53. À aberração intelectualista sucedeu a oposta, a voluntarista, que dispensa a contemplação e diviniza a ação pura, interpretação errônea da tese de que o homem é primariamente ação, pois toda ideia, mesmo a mais verídica, pode ser mal interpretada e é perigosa, risco que não é exclusivo das ideias, mas inerente a tudo o que o homem faz, cuja substância é perigo e cuja obrigação mais autêntica é guardar o equilíbrio entre precipícios.
54. Como em Roma, os povos voltam neste século a submergir na alteração, primeiro atropelados pelo prazer, pela luxuria de que fala Ferrero, depois pela dor e pelo espanto das lutas sociais e das guerras, e o estupor, forma máxima de alteração, quando persiste se converte em estupidez, como ocorreu ao mundo antigo desde o tempo de Cícero, cujo mestre Posidônio teria sido o último capaz de pôr-se diante das coisas e pensar nelas, perdendo-se a capacidade de ensimesmar-se, enquanto os demagogos, empresários da alteração que já mataram várias civilizações, impedem os homens de refletir, amontoam-nos em multidões para que não reconstruam sua pessoa na solidão, substituem a verdade por mitos e os põem fora de si, fazendo-os recair na animalidade, de modo que nas épocas que divinizam a ação pura o espaço se povoa de crimes, a vida perde valor e reinam a violência e sobretudo a espoliação, cujos efeitos sobre uma grande civilização se veem na História social e econômica do Império Romano, de Rostovtzeff.
55. Desarticulada da contemplação, a ação pura só suscita um encadeamento, ou melhor, um desencadeamento de insensatezes, em que uma atitude absurda justifica outra antagônica igualmente pouco razoável, e a política no Ocidente chegou ao extremo em que, tendo todos perdido a razão, todos acabam tendo-a, mas cada um tem não a sua, e sim a que o outro perdeu.
56. Por isso parece sensato, onde as circunstâncias derem uma trégua, por débil que seja, romper o círculo mágico da alteração com o imperativo “calma!”, que convida a suspender por um momento a ação que ameaça alienar e fazer perder a cabeça, para recolher-se em si, passar em revista as ideias sobre a circunstância e forjar um plano estratégico.
57. Não é extravagância nem insolência pensar que um país que ainda goza de serenidade em seu horizonte fará a obra mais fértil para si e para os demais não contribuindo para a alteração do mundo nem alterando-se em excesso com alterações alheias, mas aproveitando sua situação afortunada para ensimesmar-se um pouco, pois se não se criar agora, onde for possível, um tesouro de novos projetos humanos, isto é, de ideias, pouco se pode confiar no futuro, já que metade das coisas tristes de hoje ocorre pela falta desses projetos, como se anunciou em 1922 no prólogo de Espanha invertebrada.
58. Sem retirada estratégica a si mesmo e sem pensamento alerta a vida humana é impossível, como mostra tudo o que se deve a grandes ensimesmamentos, desde os retiros dos fundadores de religiões, Buda no monte, Maomé em sua tenda envolvendo a cabeça no albornoz e, acima de todos, Jesus nos quarenta dias no deserto, até Newton, que atribuía sua redução dos fenômenos físicos a um sistema exato e simples ao fato de pensar neles dia e noite, nocte dieque incubando.
59. Há hoje no mundo uma grande coisa moribunda, a verdade, que sucumbe sem certa margem de tranquilidade, e com isso se fecha o círculo iniciado pelas palavras do começo.
60. Diante das incitações à alteração que chegam de todos os pontos cardeais e de todos os recantos da existência, convinha antepor ao presente curso o esboço desta doutrina do ensimesmamento, feito às pressas e deixando tácitas muitas de suas partes, como a de que o ensimesmamento, como tudo o que é humano, é sexuado, havendo um masculino e um feminino, já que a mulher não é si mesmo, mas si mesma.
61. Igualmente, o homem oriental se ensimesma de modo distinto do ocidental, que se ensimesma na claridade da mente, como nos versos em que Goethe se declara da linhagem dos que aspiram a passar do escuro para o claro.
62. Europa e América significam o ensaio de viver sobre ideias claras e não sobre mitos, e por terem faltado agora essas ideias claras o europeu se sente perdido e desmoralizado.
63. Maquiavel, muito distinto do maquiavelismo, ensina que, quando um exército se desmoraliza e se dispersa, a única salvação é ritornare al segno, voltar à bandeira e reagrupar sob ela as tropas dispersas, e assim Europa e América precisam voltar ao signo das ideias claras, às quais as novas gerações, amantes do corpo limpo e do ato nítido, devem integrar-se, retornando dos mitos às ideias claras e distintas de Descartes, a mente mais acerada do Ocidente, aquele cavaleiro francês que, segundo Péguy, partiu com tão bom passo, pois, embora seu racionalismo seja pretérito perfeito, o homem só é algo positivo como continuidade, e para superar o passado é preciso não perder o contato com ele, sentindo-o sob os pés por ter subido sobre ele.
64. Entre a imensa maranha de temas a esclarecer para uma nova aurora, impõe-se como urgente, embora humilde, pouco vistoso e difícil, o de saber o que é o social e o que é a sociedade, raiz dos conceitos de Estado, nação, lei, liberdade, autoridade, coletividade e justiça que hoje põem os mortais em frenesi e que, sem luz sobre ele, não passam de mitos, cabendo retirar-se de todo esse falar da gente até um estrato aonde os mitos não chegam e começam as evidências, sem esperar mais que um pouco dessa luz, dando cada um o que tem, para que outros mais capazes façam o seu mais, assim como aqui se faz o próprio menos.