Galileu e a modernidade

ORTEGA Y GASSET, José. Em torno a Galileu. Tr. Luiz Felipe Alves Esteves. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 24-27

Galileu nos interessa não por acaso, solto e sem razão, ele e nós frente a frente, de homem para homem. Por pouco que analisemos nossa estima por sua figura, perceberemos que se impõe a nosso fervor, colocado num preciso quadrante, situado num grande pedaço do pretérito que tem uma forma muito precisa: é o início da Idade Moderna, do sistema de ideias, valorizações e impulsos que dominou e nutriu o solo histórico que se estende precisamente de Galileu até os nossos pés. Não é, pois, tão altruísta e generoso o nosso interesse por Galileu como à primeira vista poderíamos imaginar. Ao fundo da civilização contemporânea, que se caracteriza entre todas as civilizações pela ciência exata da natureza e a técnica científica, pulsa a figura de Galileu. É portanto um ingrediente de nossa vida e não um qualquer, mas aquele a quem nela compete o misterioso papel de iniciador.

Diz-se, porém, e talvez com não escasso fundamento, que todos esses princípios constitutivos da Idade Moderna se acham hoje em grave crise. Com efeito, existem não poucos motivos para presumir que o homem europeu levanta suas tendas desse solo moderno onde acampou durante três séculos e começa um novo êxodo para outro âmbito histórico, para outro modo de existência. O que quer dizer: a terra da Idade Moderna que começa sob os pés de Galileu termina sob nossos pés. Que já a abandonaram.

Mas, então, a figura do grande italiano adquire para nós um interesse mais dramático, interessa-nos então muito mais interessadamente. Porque se é certo que vivemos uma situação de profunda crise histórica, se é certo que saímos de uma Idade para entrar em outra, importa-nos muito: 1) considerar integralmente em fórmula rigorosa como era esse sistema de vida que abandonamos; 1) em que consiste isso de viver em crise histórica; 3) como termina uma crise histórica e se entra em novo tempo. Em Galileu e Descartes termina a maior crise por que passou o destino europeu — uma crise que começa nos fins do século XIV e não termina até o alvorecer do XVII. Ao cabo dela, como divisor de águas e cume entre duas idades, levanta-se a figura de Galileu. Com ela o homem moderno entra no mundo moderno. Interessa-nos, pois, sobremaneira considerar aquela crise e esse ingresso. Todo entrar em algum lugar, todo sair de algum recinto é um pouco dramático: por vezes o é muito — daí as superstições e os ritos do umbral e do dintel. Os romanos acreditavam em deuses especiais que presidiam a essa condensação de enigmático destino que é o sair e é o entrar. Ao deus do sair chamavam-lhe Abeona, ao deus do entrar lhe chamavam Adeona. Se, em vez [24] do deus pagão, usarmos um vocábulo cristianizado: patrono, nada pode parecer mais justificado que fazer de Galileu patrono abeona de nossa saída da modernidade, patrono adeona de nosso ingresso num futuro palpitante de mistério.

Todo aquele que intentou estudar a época europeia que vai de 1400 a 1600 se deu conta de que é entre todos os períodos da nossa história ocidental o mais confuso e hoje em dia indominado. Em 1860 publicou Jacob Burckhardt seu Cultura do Renascimento na Itália. Pela primeira vez a palavra Renascimento. que andava ao léu desde Vasari com significados indecisos, adquire um sentido preciso e representa a definição de um tempo histórico. Era um primeiro ensaio de esclarecimento que punha um esquema de ordem sobre três séculos de confusa memória. Uma vez mais se pôde ver que o conhecimento não consiste em pôr o homem frente à pululação inumerável dos fatos brutos, dos dados nus. Os fatos, os dados, embora sendo efetivos, não são a realidade, não têm por si realidade e, como não a têm, mal podem entregá-la à nossa mente. Se para conhecer o pensamento não tivesse outra coisa que fazer senão refletir uma realidade que já está aí, nos fatos, pronta como uma virgem prudente à espera do esposo, a ciência seria tarefa cômoda e há muitos milênios o homem teria descoberto todas as verdades urgentes. Mas acontece que a realidade não é um presente que os fatos dão ao homem. Por séculos e séculos os fatos siderais estavam patentes aos olhos humanos e, todavia, o que esses fatos apresentavam ao homem, o que esses fatos patentizavam não era uma realidade, mas todo o contrário, era um enigma, um arcano, um problema, diante do qual ele estremecia de pavor. Os fatos vêm a ser, pois, as figuras de um hieróglifo. Repararam os senhores na paradoxal condição dessas figuras? Elas nos apresentam ostentosamente seus claríssimos perfis, mas esse seu claro aspecto está aí precisamente para nos propor um enigma, para produzir em nós confusão. A figura hieroglífica nos diz: “Vês-me bem? Ótimo, pois isso que vês de mim não é meu verdadeiro ser. Estou aqui para avisar-te que eu não sou minha efetiva realidade. Minha realidade, meu sentido está por detrás de mim, oculto por mim. Para chegar a ele tens que não confiar em mim, que não me tomar a mim como a realidade mesma, mas, ao contrário, tens que interpretar-me e isso supõe que terás de buscar como verdadeiro sentido deste hieróglifo outra coisa muito diferente do aspecto que oferecem suas figuras”.

A ciência é. com efeito, interpretação dos fatos. Por si mesmos eles não nos dão a realidade, ao contrário, ocultam-na, isto é, nos propõem o problema da realidade. Se não houvesse [25] fatos não haveria problemas, não haveria enigma, não haveria nada oculto que fosse preciso des-ocultar, des-cobrir. A palavra com que os gregos nomeavam a verdade é aletheia, que significa descobrimento, retirar o véu que oculta e cobre algo. Os fatos cobrem a realidade e enquanto estivermos em meio à sua pululação inumerável estamos no caos e na confusão. Para des-cobrir a realidade é preciso que retiremos por um momento os fatos de em torno a nós e fiquemos a sós com nossa merite. Então, por nossa conta e risco, imaginamos uma realidade, fabricamos uma realidade imaginária, ouro invento nosso: logo, permanecendo na solidão de nosso íntimo imaginar. encontramos que aspecto, que figuras visíveis, em suma, que fatos produziría essa realidade imaginária. É então que saímos de nossa solidão imaginativa, de nossa mente pura e isolada, e comparamos esses fatos que a realidade imaginada por nós produziría com os fatos efetivos que nos rodeiam. Se casam uns com os outros, deciframos o hieróglifo, des-cobri-mos a realidade que os fatos cobriam e escondiam.

Essa tarefa é a ciência; como se vê. consiste em duas operações distintas. Uma puramente imaginativa, criadora, que o homem tira de sua própria e libérrima substância: outra confrontadora com o que não é o homem, com o que o rodeia. com os fatos, com os dados. A realidade não é dado, algo dado, oferecido — mas construção que o homem faz com o material dado.

Não devia ser necessário tornar isso manifesto: quem quer que se ocupe de trabalho científico deveria sabê-lo. Toda a ciência moderna não tem feito senão isso, e seus criadores sabiam muito bem que a ciência dos fatos, dos fenômenos, tem que em certo ponto desinteressar-se deles, tirá-los de sua frente e ocupar-se em puro imaginar. Assim, por exemplo: os corpos lançados se movem de inumeráveis modos, sobem, descem, seguem em seus trajetos as curvas mais diversas, com as mais diferentes velocidades. Em tão imensa variedade nos perdemos, e, por mais observações que façamos sobre os fatos do movimento, não logramos descobrir o verdadeiro ser do movimento. Em troca, que faz Galileu? Em vez de perder-se na selva dos fatos, entrando neles como passivo espectador, começa por imaginar a gênese do movimento nos corpos lançados: cujus motus generationem talem constituo. Mobile quoddam super planum horizontale projectum mente concipio omni secluso impedimento. Assim inicia Galileu a jornada quarta de seu último livro intitulado Diálogo das novas ciências ou Discorsi e dimostrazione in torno a due nuove scienze attenenti a la mecanica ed ai movimenti locali (Essas duas ciências são [26] nada mais nada manos que a física moderna). “Concebo por obra da minha mente um móvel lançado sobre um plano horizontal e retirado todo impedimento”. Quer dizer: trata-se de um móvel imaginário num plano idealmente horizontal e sem nenhum obstáculo — mas esses obstáculos, impedimentos que Galileu imaginariamente tira ao móvel, são os fatos; já que todo corpo observável se move entre impedimentos, roçando outros corpos e roçado por eles. Começa, pois, por construir idealmente, mentalmente, uma realidade. Só quando tem já pronta sua imaginária realidade observa os fatos, ou melhor, observa que relação mantêm os fatos com a imaginada realidade.

Pois bem, eu tenho a convicção de que se avizinha um esplêndido florescimento das ciências históricas, devido a que os historiadores se resolverão a fazer mutatis mutandis, frente aos fatos históricos, o mesmo que Galileu começou frente aos físicos. Convencer-se-ão de que a ciência, entenda-se toda ciência de coisas, sejam estas corporais ou espirituais, é tanto obra de imaginação quanto de observação, que esta última não é possível sem aquela — em suma, que a ciência é construção. Esse caráter, ao menos em parte, imaginativo da ciência, faz dela uma irmã da poesia. Mas entre a imaginação de Galileu e a de um poeta há uma radical diferença: aquela é uma imaginação exata. O móvel e o plano horizontal que concebe com sua mente são figuras rigorosamente matemáticas. Isso posto, a matéria histórica nada tem que ver de essencial com o matemático. Terá por isso que renunciar a ser uma construção, isto é, uma ciência e declarar-se irremediavelmente poesia? Ou cabe uma imaginação que, sem ser matemática, preste à história o mesmo serviço de rigor construtivo que a mecânica presta à física? Cabe uma quasi-mecânica da história?