VI — O DESTINO EXTRANATURAL DO HOMEM. — PROGRAMAS DE SER QUE DIRIGIRAM O HOMEM. — A ORIGEM DO ESTADO TIBETANO
1. A técnica supõe no universo um ente cujo ser consiste no que ainda não é, num mero projeto ou programa de ser, e que por isso precisa afanar-se em realizar a si mesmo com elementos reais, como o artista que só plasma a estátua imaginada numa matéria sólida, sendo o mundo essa matéria que oferece ao homem a possibilidade de existir e, ao mesmo tempo, grandes dificuldades, de modo que a vida se constitui como um problema quase de engenharia, no qual se enraíza o fato da técnica.
2. Esse programa extranatural a cujo serviço se afana a técnica, que soa místico e inconcretizável quando dito em fórmula abstrata, ganha clareza com a enumeração de alguns dos programas vitais em que o homem historicamente concentrou seu ser, como o bodhisatva hindu, o homem agonal da Grécia aristocrática do século VI, o bom republicano de Roma e o estoico do Império, o asceta medieval, o fidalgo do século XVI, o homme de bonne compagnie da França do século XVII, a schöne Seele do fim do século XVIII alemão, o Dichter und Denker do início do XIX e o gentleman inglês de 1850.
3. Não cabe aqui entregar-se à sugestiva tarefa de descrever o perfil com que cada um desses modos de ser do homem pressiona o mundo.
4. É evidente que um povo no qual predomina a ideia de que o verdadeiro ser do homem é ser bodhisatva não pode criar a mesma técnica que outro que aspira a ser gentleman, pois o bodhisatva, para quem a verdadeira existência consiste em fundir-se no Todo, aspira a viver o mínimo possível, reduzindo o alimento e buscando a imobilidade para a meditação, e por isso não inventará o automóvel, mas suscitará técnicas do êxtase, como as dos faquires e iogues, que reformam não a natureza material, mas o corpo e a psique, confirmando que a técnica é função do programa humano variável e que o homem possui uma dimensão extranatural.
5. Existir como meditador e extático, vivendo como não vivente sem comer, mover-se, sexualizar-se nem sentir prazer ou dor, é a negação viva da natureza e, portanto, exemplo drástico da extranaturalidade do ser humano e da dificuldade de realizá-lo, o que exige uma preadaptação da natureza, embora a explicação naturalista inverta essa relação ao sustentar que o clima e o solo da Índia, ao facilitar enormemente a vida, é que preformaram o tipo de vida búdico.
6. Existe sem dúvida uma relação entre clima e solo, de um lado, e programa de humanidade, de outro, mas muito diferente da suposta pelo naturalista, e em vez de expô-la convém opor a seu pretenso fato outro fato positivo que derruba aquela explicação.
7. Se o clima e a terra da Índia explicassem o budismo, não se entenderia que a região budista por excelência seja hoje o Tibete, cujas altiplanícies ásperas e açoitadas por vendavais e gelos só abrigavam hordas nômades em contínua agressão, incapazes de formar um Estado, até que missionários budistas converteram algumas delas e, como o budismo é essencialmente meditação, foi preciso construir conventos de pedra e cal, as primeiras edificações ali erguidas, não para viver, mas para orar, os quais, servindo de castelos nas contendas tradicionais, deram superioridade aos budistas e criaram o Estado tibetano, de modo que não foram o clima e a terra que engendraram o budismo, mas este, como necessidade humana, isto é, desnecessária, que modificou clima e terra pela técnica da construção.
8. Esse caso exemplifica a solidariedade entre as técnicas, pela qual um artefato concebido para uma finalidade se desloca para outros usos, como o arco primitivo, provavelmente musical, convertido em arma de caça e pesca, ou as elegias de Tirteo, o general velho, coxo e ridicularizado em Atenas cujo ritmo arcaico e pronunciado, ao facilitar a unidade de marcha da falange, fez os espartanos vencerem todas as batalhas, transformando uma técnica poética em ingrediente criador da técnica militar.
9. A oposição entre o bodhisatva e o gentleman é radical, sendo este último não o aristocrata em si, mas um modo de ser homem concebido pelos aristocratas ingleses a partir daquilo que os distinguia das demais nobrezas, fechadas como classe e quanto às ocupações dignas, isto é, a aceitação, desde o século XVI, da luta no comércio, na indústria e nas profissões liberais, o que, num tempo em que a história passaria a consistir nessas fainas, os manteve em plena eficiência e permitiu criar no século XIX um protótipo de existência válido para todos, inclusive o burguês e o operário, pois o gentleman não é herdeiro, mas aquele que precisa lutar na vida exercendo profissões sobretudo práticas e ser gentleman justamente nessa luta, tendo como polo oposto o gentilhomme de Versalhes ou o Junker alemão.