11 Técnica moderna

XI — RELAÇÃO EM QUE O HOMEM E SUA TÉCNICA SE ENCONTRAM HOJE. — O TÉCNICO ANTIGO

1. O estágio atual da evolução técnica caracteriza-se, em primeiro lugar, pelo fabuloso crescimento dos atos e resultados técnicos, pois, enquanto na Idade Média técnica e naturalidade pareciam compensar-se, hoje os pressupostos técnicos da vida superam gravemente os naturais, a ponto de o homem não poder literalmente viver sem a técnica alcançada, como mostra o fato de a Europa, que do século V a 1800 não passou de 180 milhões de habitantes, ter chegado a cerca de 500 milhões em pouco mais de um século, sem contar os emigrados, crescimento cuja causa imediata e mais inescapável é a perfeição da técnica, de modo que, se ela retrocedesse subitamente, centenas de milhões de homens deixariam de existir.

2. Essa proliferação sem par da planta humana, provável origem de muitos conflitos atuais, só pôde ocorrer quando o homem interpôs entre si e a natureza uma zona de criação técnica tão espessa que constitui uma sobrenatureza, à qual a humanidade está irremediavelmente adstrita como o primitivo a seu contorno natural, o que traz o risco de que o homem, ao encontrar-se desde o nascimento rodeado de objetos técnicos que ocultam a natureza primária, julgue que o automóvel e a aspirina estão aí por si mesmos, como a pedra ou a planta, e perca a consciência da técnica e das condições, inclusive morais, em que ela se produz, de modo que o crescimento fantástico que primeiro permitiu tomar plena consciência da técnica ameaça agora obscurecê-la.

3. O segundo traço que leva o homem a descobrir o caráter genuíno de sua técnica é a passagem do mero instrumento à máquina, aparelho que age por si mesmo e relega o homem a segundo plano, reduzindo-o a auxiliar, como numa fábrica atual, artefato independente que alguns poucos homens ajudam em certos momentos com papel modestíssimo.

4. Em consequência, o técnico e o operário, unidos no artesão, separaram-se, e o técnico, isolado, converteu-se na expressão pura e viva da técnica como tal, isto é, no engenheiro.

5. A técnica está hoje diante dos olhos tal como é, isenta e sem confundir-se com o que não é ela, e por isso certos homens se dedicam a ela, os técnicos, para quem inventar, ao contrário do que ocorria no Paleolítico ou na Idade Média, quando o homem ignorava seu poder de invenção, é a atividade mais normal e preestabelecida, pois antes de inventar sabem que podem inventar, possuindo a técnica antes de ter uma técnica, o que confirma quase materialmente que as técnicas são concreções a posteriori da função técnica geral do homem, e o técnico não depende do acaso nem de probabilidades evanescentes, estando em princípio seguro de chegar a descobertas.

6. A razão dessa segurança obriga a tratar do tecnicismo da técnica.

7. Para alguns a técnica se reduz ao tecnicismo, mas, embora não haja técnica sem ele, o tecnicismo é apenas o método intelectual que opera na criação técnica, insuficiente por si só, já que possuir uma faculdade não basta para exercê-la.

8. O tecnicismo da técnica, atual e pretérita, mereceria um tratamento longo e detido, mas fazer todo o ensaio gravitar em torno dele seria um erro, razão pela qual cabe dedicar-lhe apenas uma consideração brevíssima, porém suficientemente clara.

9. É incontestável que nem a técnica teria alcançado sua fabulosa expansão nos últimos séculos, nem a máquina teria sucedido ao instrumento, nem o técnico se teria separado do operário, se o tecnicismo não tivesse antes sofrido uma transformação radical.

10. O tecnicismo moderno difere completamente do de todas as técnicas pretéritas, cujo técnico, como o arquiteto egípcio que precisava elevar os blocos de pedra ao alto da pirâmide de Quéops, partia do resultado proposto tomado em bloco e, prisioneiro da finalidade em sua integridade, buscava um método igualmente único e indiferenciado, que nos começos da técnica se parecia muito com a coisa feita, como a rampa de terra em forma de pirâmide pela qual se arrastavam os blocos, e quando esse princípio de semelhança, similia similibus, não se aplicava, ficava sem regra para passar do fim ao meio adequado e passava a experimentar empiricamente o que lhe parecesse congruente, recaindo, no âmbito desse propósito, na mesma atitude do inventor primitivo.