10 Artesanato

X — A TÉCNICA COMO ARTESANATO. — A TÉCNICA DO TÉCNICO

1. O segundo estágio, a técnica do artesão, é a técnica da antiga Grécia, da Roma pré-imperial e da Idade Média, e alguns de seus caracteres podem ser enumerados rapidamente.

2. O repertório de atos técnicos cresceu enormemente, mas não a ponto de o desaparecimento ou a crise das técnicas principais tornar materialmente impossível a vida das coletividades, que poderiam recuar a uma existência primitiva ou quase primitiva, pois a base de sustentação do homem continua sendo o natural, ou assim ele a sente, e por isso, quando começam as crises técnicas, ele não percebe que elas ameaçam a vida que leva e não reage a tempo nem com energia.

3. Comparado ao estágio primitivo, porém, o crescimento dos atos técnicos é enorme, e muitos se tornaram tão complicados que exigem homens dedicados a eles por toda a vida, os artesãos, o que faz surgir uma consciência da técnica como algo à parte, embora ainda sob a figura do técnico-homem e não da técnica como capacidade abstrata, como mostra a luta tão moderna de Sócrates para convencer seus contemporâneos de que a técnica não é o técnico, já que para eles a sapataria era apenas uma destreza de certos homens, exclusivamente humana e portanto extranatural, mas fixa e limitada como as destrezas naturais, pertencente à natureza do homem como um tesouro definido sem ampliações substantivas, um sistema fixo de artes, sentido próprio da techne grega.

4. O modo de aquisição das técnicas tampouco favorece a consciência dela como função genérica e ilimitada, pois, se os poucos e fundamentais inventos primitivos deviam destacar-se melodramaticamente sobre a cotidianidade animal, no artesanato não se concebe a consciência do invento, já que o artesão aprende em longo aprendizado, na época de mestres e aprendizes, técnicas elaboradas por uma tradição insondável, voltado ao passado e ao uso constituído, e as melhorias, produzidas por deslocamento contínuo e imperceptível, aparecem não como inovações substantivas, mas como variações de estilo transmitidas em escolas, com caráter de tradição.

5. Outra razão decisiva para que a ideia da técnica não se separe da do homem que a exerce é que o inventor ainda só produz instrumentos e não máquinas, distinção essencial, pois a primeira máquina propriamente dita, o tear de Robert, de 1825, chamado self-actor por agir e produzir o objeto por si mesmo, converte a técnica de manipulação em fabricação, invertendo a relação em que o utensílio era mero suplemento do homem, que passa a suplementar a máquina, cuja independência revelou intuitivamente que a técnica é uma função à parte do homem natural, não sujeita a seus limites, já que o que um homem pode fazer com suas atividades animais é limitado, mas o que podem fazer as máquinas que ele é capaz de inventar é, em princípio, ilimitado.

6. Resta ainda um traço do artesanato que encobre o fato técnico em sua pureza: toda técnica consiste na invenção de um plano de atividade, de um método ou mechané, que é a técnica em sentido estrito, e na execução desse plano, que é apenas operação, mas o artesão é ao mesmo tempo e indivisamente técnico e operário, e nele se vê mais a manobra do que a técnica propriamente dita, sendo a separação radical entre operário e técnico um dos principais sintomas do terceiro estágio.

7. No terceiro estágio, a técnica do técnico, o homem adquire consciência clara de possuir uma capacidade distinta de suas atividades naturais rígidas, uma fonte de atividades em princípio ilimitadas, o que o coloca numa situação antitética à anterior, dominada pela consciência de sua debilidade e limitação, pois hoje, diante da coisa mais extravagante, como a viagem aos astros, ninguém ousa afirmar sinceramente que seja impossível, e essa consciência de ilimitação talvez contribua para que o homem já não saiba quem é, pois, capaz em princípio de ser tudo o que se imagina, não sabe o que efetivamente é, e quem vive de fé apenas na técnica tem a vida esvaziada, já que ser só técnico é poder ser tudo e não ser nada determinado, sendo a técnica, de tão cheia de possibilidades, mera forma oca incapaz de determinar o conteúdo da vida, razão pela qual os anos atuais, os mais intensamente técnicos da história, estão entre os mais vazios.