Vontade de poder

NIETZSCHE, Friedrich. A Vontade de Poder. Tr. Marcos Sinésio Pereira Fernandes e Francisco José Dias de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011.

Apresentação de Gilvan Fogel

1. A vontade de poder: tentativa de uma transvaloração de todos os valores constitui um conjunto de textos de Friedrich Nietzsche, e não uma obra sua.

2. Embora a concepção de vontade de poder atravesse todos os textos, A vontade de poder não é uma obra no sentido canônico de exposição sistemática e articulada de um tema segundo um fio condutor, mas uma coletânea de anotações e fragmentos extraídos do vasto espólio póstumo de Nietzsche, sobretudo dos numerosos cadernos da década de 1880, sua última década produtiva.

3. A primeira edição dessa coletânea surgiu em 1901, logo após a morte do filósofo, com 483 fragmentos, e a segunda, de 1906, com 1.067 fragmentos, tornou-se a versão mais conhecida e divulgada, servindo de base à tradução brasileira.

4. A coletânea foi organizada por Elisabeth Förster-Nietzsche, irmã do filósofo, responsável pelos livros 2 e 4, e por Peter Gast, seu dileto amigo, responsável pelos livros 1 e 3, segundo um plano de Nietzsche de 17 de março de 1887, um entre vários esboços de uma obra que, por circunstâncias sobretudo ligadas à saúde, jamais veio à luz.

5. Apoiados nesse plano e subdividindo-o em capítulos segundo critérios próprios, os organizadores preencheram e engordaram o esqueleto dos quatro livros com textos do espólio que lhes pareciam adequados aos respectivos temas, sem que se possa saber se Nietzsche realizaria tal obra ou segundo qual plano, mas sendo certo que, se a fizesse, a disposição e os próprios textos seriam outros, razão pela qual se trata de textos de Nietzsche e não de uma obra de Nietzsche.

6. Os textos são autênticos e inteiramente da lavra de Nietzsche, não tendo sido distorcidos ou adulterados pelos organizadores, embora seu ordenamento e publicação não sigam critérios crítico-filológicos rigorosos e contenham pequenos erros, cortes e lacunas por deslizes naturais, constituindo uma rica coletânea, até então inédita em versão integral no Brasil, cujos fragmentos, na edição crítica de Colli e Montinari continuada por Müller-Lauter e Pestalozzi, aparecem dispersos em ordem cronológica de redação.

7. Esses textos não devem ser lidos à procura de uma sistematização do pensamento de Nietzsche, pois não obedecem a nenhum plano, embora estejam em rigorosa consonância com seu pensamento maduro, devendo ser tomados como rica antologia de escritos tardios, dardos e flechas lançados contra os leitores.

8. Trata-se, de fato, de dardos e flechas de extraordinária força.

9. Desde O nascimento da tragédia a vida ocupa o centro do pensamento de Nietzsche, não como fenômeno biológico, mas no sentido da psyché grega, movimento que se move a si mesmo, arché ou começo que não começa, estrutura circular de inserção sem nada fora, além ou aquém, irrupção súbita e gratuita que é princípio de si mesma.

10. A partir de Assim falou Zaratustra, essa estrutura que exprime a experiência grega da arché passa a denominar-se vontade de poder, noção que confere maior inteligibilidade à vida e suscita a pergunta pelo sentido de vontade e de poder.

11. Vontade não designa faculdade ou arbítrio da subjetividade humana, mas a espontaneidade gratuita do irromper da vida, seu livre movimento de autoaparição e crescimento, e poder designa a realização, imposição e vigência desse aparecer, de modo que a vida como vontade de poder, movimento sem porquê de aparição e intensificação, é o milagre elementar do ser-aparecer experimentado pelos gregos, cujo crescimento não é acúmulo quantitativo, mas intensificação e clarificação de seu destino histórico, que inclui também a intensificação do obscuro e do insondável e se mostra cada vez mais econômica e simples, como exemplarmente na obra de arte.

12. A década de 1880 é o período de maior lucidez e potência do pensamento de Nietzsche, coincidente com a cunhagem da vida como vontade de poder, a partir da qual essa psicologia e morfologia da vida confronta a tradição filosófica ocidental, isto é, a metafísica como saber de princípio e fundamento encarnado no conhecimento, na lógica, na moral, na teologia cristã, na política e na arte, e seus conceitos orientadores, como substância, verdade, causalidade, sujeito, consciência, representação, essência e teleologia.

13. Desde a vontade de poder como pensamento fundamental, os conceitos básicos da tradição, inclusive a própria vontade de poder, são vivisseccionados e superados, superação que não significa eliminação ou exclusão histórica, mas assunção e incorporação desses conceitos a partir de outro registro, o da vida como vontade de poder.

14. A superação da metafísica é uma conquista histórica do homem ocidental greco-cristão, que reconquista um modo de ser antiquíssimo, a vida como vontade de poder, tensão vital em que a vontade de substância e de verdade é buscada, realizada e abandonada em favor do nada do fundamento, realizando o sentido da existência como ausência de sentido e finalidade para além da circularidade finita da vida, conquista desse fracasso constitutivo doada à humanidade sob a forma do além-do-homem, correspondente à categoria da criança.

15. Nesses textos ressoa a pergunta de Zaratustra sobre quem deve ser o senhor da Terra, nome do acontecimento gratuito e finito da vida, cuja resposta não é o homem do ressentimento, da vontade escrava e da racionalidade tecnocientífica, mas aquele que obedece ao sentido da Terra, isto é, à vontade de poder como livre crescimento e intensificação da vida, desde nada, para nada, inutilmente, como na obra de arte.

16. A tradução dos 1.067 fragmentos é muito oportuna por colocar à disposição um riquíssimo material do espólio de Nietzsche.