ÉTICA (VP:333)

Ética: ou “filosofia da desejabilidade”. — “Deveria ser de outro modo”, “deve vir a ser de outro modo”: a insatisfação seria, portanto, o germe da ética.

Salvar-se seria, em primeiro lugar, possível quando se elege onde não se tem o sentimento; em segundo lugar, quando se compreende a arrogância e a tolice: pois exigir que algo seja diferente do que é significa exigir que tudo seja diferente, — isso contém uma crítica que condena o conjunto total. Mas o viver é, ele mesmo, uma tal exigência!

Averiguar o que é tal como é parece algo indizivelmente mais elevado e mais sério do que todo “deveria ser assim”, pois este último, como crítica humana e arrogância, apresenta-se, por princípio, condenado ao ridículo. Nisso manifesta-se uma necessidade que exige que o nosso bem-estar humano corresponda a uma disposição do mundo; também a vontade faz tanto quanto possível por essa gabarolice.

Por outro lado, esta reclamação de que “deveria ser assim” só provocou aquela outra exigência pelo que é: o saber disso que é já é uma consequência daquela pergunta: “Como? Isso é possível? Por que é justamente assim?” A admiração sobre a não correspondência entre o nosso desejo e a marcha do mundo levou até o ponto de travar conhecimento com a marcha do mundo. Talvez haja ainda outra coisa: talvez aquele “deveria ser assim” seja o nosso próprio desejo de subjugação do mundo — —


Hoje, quando todo “o homem deve ser deste e daquele modo” coloca-nos uma pequena ironia nos lábios, quando sustentamos inteiramente que, a despeito de tudo, alguém vem a ser apenas aquilo que é (apesar de tudo quer dizer: educação, instrução, meio, acasos e acidentes), aprendemos a inverter de maneira curiosa, nas coisas da moral, a relação de causa e efeito, — talvez nada nos diferencie mais fundamentalmente dos antigos crentes da moral. Não dizemos mais, por exemplo, que “o vício seja a causa de que um homem também pereça fisiologicamente”; nós tampouco dizemos que “um homem prospere por meio da virtude, que ela leve a viver muito e à felicidade”. Nossa opinião é, antes, a de que vício e virtude não são nenhuma causa, mas apenas consequências. Alguém se torna um homem decente porque é um homem decente: isto é, porque nasceu como um capitalista de bons instintos e de relações prósperas… Chega-se pobre ao mundo, de pais que em tudo apenas dissiparam e não amealharam nada; então se é “incorrigível”, quer dizer, maduro para penitenciárias e manicômios… Hoje, sabemos não pensar mais a degenerescência moral separada da fisiológica: ela é um mero complexo de sintomas da última; (uma pessoa) é necessariamente má, assim como se é necessariamente doente… Ruim: a palavra exprime aqui certas incapacidades que estão ligadas fisiologicamente com o tipo da degenerescência: por exemplo, a debilidade da vontade, a insegurança e a pluralidade da “pessoa”, a impotência de suspender a reação sobre um estímulo qualquer e de “dominar-se”, a não liberdade perante toda espécie de sugestão de uma vontade estranha… Vício é uma delimitação conceitual bastante arbitrária para reunir certas consequências da degeneração fisiológica. Uma sentença universal, como a que o cristianismo ensinava, “o homem é mau”, haveria de ser legítima se fosse legítimo tomar o tipo do degenerado como um tipo normal do homem. Mas isso talvez seja um exagero. Decerto a sentença tem uma legitimidade ali onde justamente o cristianismo prospera e está por cima: pois, com isso, está comprovado um solo mórbido, um campo para a degenerescência.

(NIETZSCHE, Friedrich. A Vontade de Poder. Tr. Marcos Sinésio Pereira Fernandes e Francisco José Dias de Moraes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011, p. 182-183)